Descrição

INTRODUÇÃO

Tão antigos quanto a própria literatura, os saberes geográficos, como certas noções espaciais, estiveram alocados nas diversas linguagens utilizadas pelo gênero humano para fins de comunicação e de socialização. Para a linguagem desenvolvida no ocidente, recupera Geraldi (2000) que o seu percurso se deu a partir de sua característica sonora criadora do alfabeto e aprimorada com a capacidade de segmentação pelo homem do continuum da fala em elementos cada vez menores: as palavras, as sílabas, os fonemas. É neste sentido que a construção do alfabeto se aproxima da oralidade, de modo a obter os elementos gráficos capazes de melhor representar a fala, no entanto, retirando dela a sua voz e distanciando assim sempre mais a oralidade da escrita. Como aponta o pesquisador “[…] a escrita, exigindo aprendizagem formal e transmissão social marcada, sofreu um processo de apropriação social por certas camadas da população que nela foram imprimindo seus modos de apreciação do mundo, seus modos de falar, suas palavras — no sentido de lógos.” (GERALDI, 2000, p. 105).

Assim posto, a linguagem e a literatura surgem no contexto do discurso proferido pelas camadas que se apropriaram do artefato coletivamente construído — a escrita, de modo que qualquer outra escrita que não se conforme ao discurso proferido pelas camadas que se apropriaram deste artefato são consideradas não escritas; daí o grande poder que reside na língua e na linguagem, um poder de determinação de discursos e de seus sujeitos sociais. Barthes (2010) chama-nos a atenção para o poder que a linguagem traz consigo através do tempo, sendo a linguagem correspondente a uma legislação, um rol aglutinador de regras para o bom uso da língua, que se inscreve como o seu código, de acordo com a necessidade da expressão humana. Deste formato emoldurador da expressão humana que identifica a linguagem “não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva […]” (BARTHES, 2010, p. 12).

Temporalmente, com o aprimoramento da capacidade de raciocínio e de certa lógica do pensamento, e já com o desenvolvimento da literatura como manifestação do ato comunicativo do gênero humano, os saberes geográficos que antes se codificavam em traços débeis em paredes de cavernas e em blocos de rochas, passam a se constituir em objeto de estudo e a chamar a atenção de intelectuais do mundo contemporâneo.

Se desde os inícios da escrita formal a representação do espaço era vivificada apenas como suporte para o desenvolvimento da ação cotidiana, com o desenvolvimento da literatura como expressão de um sistema representativo de uma cultura esta perspectiva de espaço geográfico como materialidade pura ao acontecimento da vida — o suporte das ações, como indica Monteiro (2002) — passa a se dar de maneira integrada ao desenvolvimento da ação cotidiana ou dos fatos narrados, e também integrada ao próprio acontecimento da vida. O espaço, agora geográfico, passa então a ser não apenas receptáculo, mas protagonista da trama apresentada, funcionando como agente mobilizador e atribuidor de poderes às ações no encaminhamento dos fatos.

Os romances regionalistas, junto à literatura científica de explicação dos fenômenos sociais e geomorfológicos, por exemplo, no campo da Geografia científica, representam esta revisitação do papel do espaço na literatura, este logro magnífico que permite escapar ao poder da língua e da linguagem. Tão magnífica é a ação da literatura que somente ela é capaz de submeter a língua e a linguagem às circunstâncias espaciais, temporais, culturais ou de qualquer outra natureza: é a literatura que liberta o pensamento da razão formal e estética para a emoção e a criação, ingredientes que na escrita de Lobato são nada menos que o centro nevrálgico de toda uma ideologia de vida.

No entanto, em Monteiro Lobato, esta literatura que liberta não se engessa por ela mesma: para as crianças era preciso contar, escapar dos limites da literatura que submete língua e linguagem, mas que delas depende para se firmar, usar do artifício da oralidade e dar vida àquilo que ele próprio denominara de desliteraturização, a escapada da forma-padrão de pensar a infância, o conhecimento, os lugares, o espaço, um movimento novo na história brasileira, de importância não só literária, mas cultural, de modo mais abrangente. Segundo Lima (2015), a desliteraturização em Lobato admite o sentido de renovação do modo de se fazer literatura, renovando não somente a forma, mas também o conteúdo textual:

A denúncia de Lobato indica o olhar diferenciado que ele teve para a arte das palavras ao afirmar que há duas espécies de literatura, a com aspas, dos livros que não valem nada, e que ele detesta, e a sem aspas, a dos grandes livros, que revela uma escrita transparente. Com o exemplo do desamor pela “literatura” (com aspas) é possível compreender que se trata de uma escrita realizada com excesso de ornamentos linguísticos para expressar uma ideia que poderia ter sido trabalhada de maneira não demasiada e que, ao mesmo tempo, conservasse a essência daquilo a ser transmitido. (LIMA, 2015, p. 2).

Neste mesmo sentido, Vieira (1998) acrescenta que “a expressão usada por Lobato ‘desliteraturizar’ a linguagem, pode ser vista como uma crítica ao conceito de literatura como primazia da forma, tese defendida pelos parnasianos e de larga vigência na tradição bacharelesca das primeiras décadas do século XX” (VIEIRA (b), 1998, p. 26), posição que, se não sobrepõe, ao menos contorna o poder da língua, que para Barthes não é nem reacionária nem progressista, mas simplesmente fascista, porque obriga a dizer, em que servidão e poder se confundem: “se chamamos de liberdade não só a potência de subtrair-se ao poder, mas também e sobretudo a de não submeter ninguém, não pode então haver liberdade senão fora da linguagem.” (BARTHES, 2010, p. 15-16).

O movimento de crítica à tradição bacharelesca da língua impulsionado por Monteiro Lobato por meio da desliteraturização da linguagem literária infantil de seu tempo põe em xeque a função modelar que a literatura, inclusive a orientada à infância do início do século XX apresentava e cuja formatação — de uso da língua, gráfica e mesmo conceitual mais afinada à realidade psicológica do jovem leitor — começava a dar sinais de reformulação em virtude da necessidade de se adequar ao novo mercado nascente com o novo sujeito leitor, agora percebido como um público de exigências e necessidades literárias próprias. Debruçadas sobre o período histórico em discussão, as pesquisadoras Lajolo e Zilberman (1991) compreendem tal momento histórico da produção literária dirigida à infância da seguinte maneira:

Reencontra-se nesta preocupação perfeccionista com a linguagem, a função de modelo que a literatura produzida para crianças assume nesse período. Assim, além de fornecer exemplos de qualidades, sentimentos, atitudes e valores, a serem interiorizados pelas crianças, outro valor a ser assimilado e que o texto deve manifestar […] é a correção de linguagem. (LAJOLO, ZILBERMAN, 1991, p. 42 – grifo nosso).

Não de modo isolado, o movimento desliteraturizador impulsionado por Monteiro Lobato respalda-se no momento histórico e cultural por ele vivenciado, o modernismo, cuja euforia por reformas no modelo de se pensar a cultura brasileira não poderia deixar de transparecer em toda a sua obra, inclusive e, principalmente, na orientada à criança. No afã por apresentar o Brasil ao brasileiro e de fazer-lhe conhecer seu próprio espaço, sua cultura, a linguagem posiciona-se como o instrumento mais direto de possibilidade de transformação da percepção do país pelo seu habitante, e é por ela que os modernistas combaterão toda a primazia da forma impulsionada pelo passado parnasiano e ainda fortemente arraigado na literatura brasileira, em conquista a uma aproximação da literatura ao povo brasileiro jamais verificada na história cultural do país. Segundo as pesquisadoras:

[…]

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