A aula como acontecimento

Autoria: João Wanderley Geraldi

R$50.00

Remetendo à aprendizagem e ao processo de ensino, circunscrevo aquela ao ambiente escolar, independentemente do nível de ensino: por isso os exemplos e os comentários percorrem diferentes momentos da escolarização, sem qualquer preocupação em definir de antemão uma seriação dos problemas a serem enfrentados pelo aprendiz e pelo professor. Uma reflexão útil num momento de escolarização não deixa de ser útil em outras circunstâncias. De fato, não acredito que em termos de linguagem um caminho único possa ser defendido, porque na língua tudo é complexo: aprende-se a língua num processo de vai e vem contínuo; as reflexões podem ser mais ou menos aprofundadas, dependendo crucialmente dos objetivos mais imediatos da construção de compreensões ou da elaboração de textos dentro das suas condições discursivas de produção.

Na produção de todos estes textos sempre tive um interlocutor privilegiado: o professor. Aliás, quase todos eles resultam de encontro com professores, cujas contribuições, com perguntas, críticas e comentários foram retomadas em textos posteriores: alguns dos temas ou focos mais precisos são palavras alheias tornadas próprias pelo esquecimento da origem. Como salientam vários textos de Bakhtin, em termos de linguagem não há palavra própria, porque todas as palavras são patrimônio comum, cada uma delas sobrecarregada de vozes e sentidos. Mas é com elas que construímos compreensões, rearranjando os já ditos para fazer surgir o novo: em linguagem, a repetição é já outro enunciado. Que o diga, por exemplo, o Dom Quixote de Pierre Menard (Borges): repetindo Cervantes, não diz o mesmo que Cervantes disse.

Os principais pontos de partida que orientam os textos e que podem constituir o quadro de pressupostos assumidos previamente, nem sempre explicitados, podem ser enumerados em enunciados simples:

1. A linguagem é uma atividade, e as línguas, produtos desta atividade, não são sistemas fechados e acabados. Porque usadas, as línguas estão sempre em construção.

2. A escola é um lugar de aprendizagem e o ensino a ela se subordina, por isso este não pode definir suas seqüências, fixar um currículo (um caminho) e determinar desde sua organização o que e o quando algo deve ser aprendido. Quem está aprendendo é um sujeito falante, produtor de compreensões, com ritmos, interesses e história.

3. A linguagem não se presta apenas à comunicação. É nas interações com os outros que ela se materializa, não só a si mesma, mas também aos sujeitos que por ela se constituem, internalizando formas de compreensão do mundo, construindo sistemas ântropo-culturais de referência e fazendo com que sejamos o que somos: sujeitos sociais, ideológicos, históricos, em processo de constituição contínua.

Tentando radicalizar estes três pressupostos (ou princípios), os textos refletem minhas posições a propósito das relações de poder que se desvelam na sociedade quer pela discriminação lingüística, quer pela imposição de normas, cujos sentidos vão muito além das necessárias fixações provisórias das formas. A introdução do conceito de erro ou a defesa de um purismo lingüístico, que às vezes beira ao ridículo, não são inocentes. Revelam outras relações sociais.

A defesa intransigente do direito à expressão não significa assumir um papel de testemunha desta expressão. Defendo que o professor, como um outro do aluno, torne-se deste um co-enunciador, um co-autor de textos, aumentando a experiência lingüística do aluno pelo convívio com a experiência do professor e dos autores trazidos à roda de conversa que é cada aula de língua materna.

Por fim, é preciso acrescentar que este livro tem como seus antecedentes O Texto na Sala de Aula (Editora Ática), Portos de Passagem (Editora Martins Fontes) e Linguagem e Ensino (Editora Mercado de Letras), dos quais é uma continuidade, com retomadas que pretendem aprofundar questões já tratadas ou enfrentar questões não focadas nos livros anteriores. Como cada um dos textos foi escrito de forma independente, algumas repetições permaneceram para dar unidade e completude à argumentação.

Barequeçaba, outubro de 2010.

João Wanderley Geraldi

Ano de lançamento

2015

Formato

Autoria

João Wanderley Geraldi

ISBN

978-85-7993-021-8

Número de páginas

208