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O inconsciente nos primeiros textos de Freud

Dayanna Pereira dos Santos

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Descrição

APRESENTAÇÃO

O processo de elaboração de um livro é sempre uma viagem enigmática por certo território. Essa viagem, ainda que acompanhada bem de perto, é solitária e inicia-se por uma trilha sinuosa, cheia de obstáculos que aos poucos vão sendo superados. Durante o percurso, ou ao final, confirmamos e negamos algo do que éramos, nos descobrimos no outro, revelamos nossa própria voz e a projetamos no discurso do Outro. Enfim, não somos mais os mesmos de antes da travessia.

Pensando nos caminhos e descaminhos que orientaram os meus passos nesta viagem é interessante observar as formulações que foram se estabelecendo no processo de descoberta da teoria psicanalítica. Tudo começou com minha participação no grupo de pesquisa Em torno da letra: escrita, leitura e transmissão.1 Na época, tive acesso às pesquisas desenvolvidas no grupo desde a sua fundação, em 1995, por Sonia Borges e ao conjunto de dissertações e teses produzidas ao longo dos anos com o objetivo de refletir sobre as elaborações psicanalíticas relativas ao inconsciente e a linguagem.

Além desse contato teórico, deparei-me com trabalhos de pesquisadores de outras instituições, dos quais cito as teses de doutoramento Materna/Estrangeira: o que Freud fez da língua (1999) de Maria Rita Salzano da Universidade Estadual de Campinas, e A natureza do psíquico e o sentido da metapsicologia na psicanálise freudiana (2006) de Fátima Siqueira Caropreso da Universidade Federal de São Carlos. A primeira teve como objetivo mostrar a presença da noção de inconsciente nos primeiros textos de Freud desde o texto das Afasias (1891/1977) e a segunda, ao contrário, não valida essa hipótese pelo fato de entender que na Interpretação das Afasias (1891/1977) o conceito de inconsciente só pode ser pensando como a ausência de fenômenos psíquicos.

Logo, a descoberta e a construção de um novo processo de pesquisa, originário do conceito de inconsciente na teoria freudiana, determinaram os rumos desta produção fruto de um curso de mestrado na Universidade Federal de Goiás. Para tanto, tornou-se indispensável investigar os desdobramentos causados por essas proposições e foi necessário primeiro pensar sobre o modo como a noção de psíquico inconsciente comparece nos primeiros textos de Freud. Para alcançar esse objetivo, foi preciso seguir em direção ao que foi realizado por alguns dos pesquisadores citados e com eles dialogar para assim pensar sobre o projeto de “retorno ao sentido de Freud”, proposto por Jaques Lacan (1956a/1998). Nesse retorno, Lacan propõe um modo singular de ler Freud: o de abandonar a tendência de querer racionalizar o saber psicanalítico. Isso incide no (in)possível retorno à verdade da letra freudiana: ora, “há um lugar, o inconsciente, em que se enuncia uma verdade que tem a propriedade de nada podermos saber dela” (Lacan,1968/1969/ 2008, p. 198). Nele há uma verdade intolerável com a qual cada sujeito é convocado a apreender algo. Esse modo subversivo de ler e pensar a obra freudiana torna-se incompatível com interpretações teóricas e clínicas, essencialmente, naturalistas e/ou filosóficas.

Assumindo tal viés, o início dessa viagem foi motivado pelo desejo de desvelar sem desvendar como Freud desenvolveu sua teoria do inconsciente, de entender o porquê da linguagem na fundação do inconsciente, de compreender as implicações de uma concepção freudiana de representação que não se restringe à função de reproduzir um objeto externo. Afetada pelos efeitos desse não saber, instigada também pelas viagens outrora realizadas pelos campos da psicologia, da filosofia e da Psicanálise, procurei estudar de modo peculiar os textos chamados “pré-psicanalíticos” de Freud a fim de identificar os elementos fundantes da noção de inconsciente, para além da inconsciência, como um sistema psíquico distinto do sistema nervoso e, portanto, dotado de atividade própria. Sob esse prisma, principiei a elaboração deste livro a partir da minha dissertação de mestrado, nomeando-o de O inconsciente nos primeiros textos de Freud. Com o objetivo de buscar nas linhas do texto freudiano as bases do conceito de inconsciente e a reflexão sobre o aparelho psíquico, esta investigação teve como ponto de partida os estudos críticos de Freud a respeito dos distúrbios na formulação e compreensão da linguagem. A trajetória programada para este trabalho apresenta-se ao longo de três capítulos: o primeiro, A interpretação das Afasias (1891): linguagem e inconsciente; o segundo, Projeto para uma psicologia científica (1895) e a Carta 52 (1896): a memória é inconsciente; e o terceiro, A interpretação dos sonhos: os traços de memória e as leis da linguagem.

Informação adicional

Ano de lançamento

2021

Autoria

Dayanna Pereira dos Santos

ISBN [e-book]

978-65-5869-547-9

Número de páginas

117

Formato