Descrição

APRESENTAÇÃO

O Círculo de Bakhtin, esse grupo de intelectuais de que tomamos a expressão palavras e contrapalavras para enunciar o título desta coleção, nos motiva a estudar há vários anos. Desde que conhecemos as palavras daqueles autores russos aprendemos que viver no simpósio universal da palavra obriga a responder, sem álibis, uma vez que ninguém mais pode ocupar o mesmo espaço singular em que nos encontramos e enunciar por nós. O caráter de responsividade que a palavra provoca e gera o termo “contrapalavra”, entendido por nós como palavra resposta, palavra réplica, nos faz responder ao mundo, aos outros.

O começo dessa série, em 2009, com a proposta de glossariar conceitos foi ano após ano sendo revisitada, por nós e por outros leitores. Nossas palavras e compreensões sobre a obra bakhtiniana foram se especializando, a cada ano um novo volume de um livro que hoje apresentamos a décima terceira edição, e também em outros livros publicados por nosso Grupo. As reflexões que geraram a ideia do primeiro volume e foram se atualizando ao sabor da vida compartilhada sob aquela árvore [o abakhtin] no Departamento de Letras, da Universidade Federal de São Carlos, em uma primeira fase, e depois em toda a parte deste país, quando nos espalhamos [o BakhZap e o MeetBakh], instauraram também as ideias-força deste livro.

O Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso (GEGe), desde o começo do ano de 2020, com a pandemia de covid-19, aferrou-se à ideia de que podemos ser mais juntos, aprender juntos mesmo distantes fisicamente. Cada um de nós, fisicamente em vários lugares do Brasil, está presente em quase todas as sextas-feiras à tarde, quando temos nos reunido virtualmente para falar de Bakhtin, mas também de outros camaradas, como Ítalo Calvino e Paulo Freire.

Essas leituras e discussões que fizemos em conjunto nos levaram, pensando nos últimos dois volumes da série – O medo do outro (2019) e Resistências (2020) – a avançar também na proposta de compreensão. Se antes estávamos pensando no presente e nas formas de sobrevida, uma vez que se entenda que “resistir” como “conservar-se firme”, agora, com “esperançar” estamos mirando o futuro. Com “esperançar”, ainda que não se deixe de pensar também no presente, estamos olhando para frente na perspectiva de ativamente “projetar o futuro” [“elas estão cheias de um futuro que não está ainda totalmente expresso, o que as obriga a procurar soluções antecipadas para ele” (Bakhtin, Cultura, p.108)] e caminhar juntos, na plenificação das relações amorosas e alteritárias, e por isso na construção da não-indiferença para viver, sem trégua, com o diferente.

Valdemir Miotello

Nathan Bastos de Souza

Mundo, ano II da pandemia, novembro de 2021

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