ESTUDOS DA LINGUAGEM

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  • Curso de semântica argumentativa

    R$70,00

    Apresentação da edição em língua portuguesa

     

    É com enlevo que apresentamos o Curso de Semântica Argumentativa à comunidade lusófona, aos leitores do português europeu e aos leitores do português brasileiro.

    No que tange à construção da obra no original francês, o Cours é fruto de dois anos e meio de trabalhos em sete países distintos – Brasil, Argentina, Bélgica, França, Japão, Espanha e Itália. De caráter fortemente internacional, a obra é marco raro de magnitude singular, porque ilustra minimamente três relevâncias: uma relevância político-científica, ao unir pesquisadores distantes e distintos que trabalham a Semântica Argumentativa, às suas maneiras; uma relevância didática, por se significar enquanto instrumento basal para aulas sobre Linguística, Semântica, Pragmática, Enunciação, Semântica Argumentativa, Análise de Discurso e correlatas, ao redor do mundo; e uma relevância histórica, pelo valor epistemológico que a obra condensa, ao atualizar uma área de estudos que se iniciou no final dos anos sessenta – a semântica argumentativa – e que, atualmente, é trabalhada na maior parte do mundo. O teor histórico da presente obra se dá na insistência em imbricar momentos anteriores e atuais, sempre pela perspectiva de autores de alta envergadura na matéria, muitos deles de papel determinante no desenvolvimento da Semântica Argumentativa.

    Já no que tange à tradução da obra, para a língua portuguesa, o Curso é resultado de intenso esmero de uma equipe de tradução com notório preparo técnico e linguístico, versada tanto no conhecimento avançado da teoria em tela, quanto no histórico e evolução do acervo da referida teoria, a Semântica Argumentativa. E por se tratar de uma tradução, algumas palavras sobre esse processo são aqui pertinentes.

    Para além de um método de tradução que converte estabilidades convencionais entre si, foi critério indesviável para a tradução desta obra debruçar-se sobre o exercício hercúleo de (tentar) preservar os fenômenos linguísticos/enunciativos em discussão, que outrora descritos e narrados por uma deontologia francesa (e não apenas a língua francesa), agora, tornaram-se descritos e narrados por uma deontologia brasileira (e não apenas a língua portuguesa). Afinal, a tradução é também uma descrição da enunciação. Portanto, o cuidado-base foi preservar o que é próprio da enunciação, ao traduzir.

    Além deste primeiro critério-base, o cuidado com o que é próprio da enunciação, ao traduzir, os tradutores ocuparam-se, detidamente, com o cuidado com o que é próprio da língua francesa, ao traduzir. A equipe, então, dedicou-se em zelar pelo conhecimento próprio da língua francesa, que neste volume de tradução, tornou-se um conhecimento técnico-teórico operado em francês, mas lido em português. Tratou-se de um critério de preservação epistemológico-linguística: empenhamos em preservar tanto o conteúdo (a epistemologia, objeto das aulas) quanto a língua que operava tal conteúdo (a língua das aulas, o francês), apresentando-os, agora, pelo crivo do português brasileiro.

    Mesmo diante do desafio que é toda tradução, os resultados finais atenderam às expectativas mais exigentes de nossa equipe. Resta recomendar, como de praxe, tanto para as lentes mais rigorosas como para aquelas que se arvoram nas minúcias profundas dos fenômenos, que as devidas leituras da presente versão portuguesa se realizem em parceria com a leitura do original francês. Sobretudo no que tange aos exemplos, enunciados rebeldes que desafiam todo método de tradução, por jogarem com exclusividades linguísticas da língua de origem, já que toda língua traz, em seu bojo, espessuras nem sempre traduzíveis, como particularidades culturais, semânticas e doxais de certa coletividade linguística, de um grupo, ou um povo. Especificidade essa que, nesta versão portuguesa, torna-se um esforço de tradução de um complexo linguístico-cultural e semântico de sete países distintos, enunciados pelo escrutínio do português brasileiro.

    Disponibilizando tal riqueza política, histórica e didática ao estimado leitor, aqui apresentada pela tradução em língua portuguesa, reiteramos votos de profícuos trabalhos e pesquisas, ao redor do mundo.

     

    Julio Cesar Machado

    Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG-Brasil

     

    Inverno de 2021, segundo ano da pandemia do Coronavirus.

  • Esperançando. Palavras e contrapalavras. Caderno de Estudos XIII

    R$18,00R$25,00

    Apresentação

    O Círculo de Bakhtin, esse grupo de intelectuais de que tomamos a expressão palavras e contrapalavras para enunciar o título desta coleção, nos motiva a estudar há vários anos. Desde que conhecemos as palavras daqueles autores russos aprendemos que viver no simpósio universal da palavra obriga a responder, sem álibis, uma vez que ninguém mais pode ocupar o mesmo espaço singular em que nos encontramos e enunciar por nós. O caráter de responsividade que a palavra provoca e gera o termo “contrapalavra”, entendido por nós como palavra resposta, palavra réplica, nos faz responder ao mundo, aos outros.

    O começo dessa série, em 2009, com a proposta de glossariar conceitos foi ano após ano sendo revisitada, por nós e por outros leitores. Nossas palavras e compreensões sobre a obra bakhtiniana foram se especializando, a cada ano um novo volume de um livro que hoje apresentamos a décima terceira edição, e também em outros livros publicados por nosso Grupo. As reflexões que geraram a ideia do primeiro volume e foram se atualizando ao sabor da vida compartilhada sob aquela árvore [o abakhtin] no Departamento de Letras, da Universidade Federal de São Carlos, em uma primeira fase, e depois em toda a parte deste país, quando nos espalhamos [o BakhZap e o MeetBakh], instauraram também as ideias-força deste livro.

    O Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso (GEGe), desde o começo do ano de 2020, com a pandemia de covid-19, aferrou-se à ideia de que podemos ser mais juntos, aprender juntos mesmo distantes fisicamente. Cada um de nós, fisicamente em vários lugares do Brasil, está presente em quase todas as sextas-feiras à tarde, quando temos nos reunido virtualmente para falar de Bakhtin, mas também de outros camaradas, como Ítalo Calvino e Paulo Freire.

    Essas leituras e discussões que fizemos em conjunto nos levaram, pensando nos últimos dois volumes da série – O medo do outro (2019) e Resistências (2020) – a avançar também na proposta de compreensão. Se antes estávamos pensando no presente e nas formas de sobrevida, uma vez que se entenda que “resistir” como “conservar-se firme”, agora, com “esperançar” estamos mirando o futuro. Com “esperançar”, ainda que não se deixe de pensar também no presente, estamos olhando para frente na perspectiva de ativamente “projetar o futuro” [“elas estão cheias de um futuro que não está ainda totalmente expresso, o que as obriga a procurar soluções antecipadas para ele” (Bakhtin, Cultura, p.108)] e caminhar juntos, na plenificação das relações amorosas e alteritárias, e por isso na construção da não-indiferença para viver, sem trégua, com o diferente.

     

    Valdemir Miotello

    Nathan Bastos de Souza

    Mundo, ano II da pandemia, novembro de 2021

  • Estudos Bakhtinianos do GELPEA: vozes e horizontes amazônicos

    R$40,00

    FALANDO DE NÓS…

     

    José Anchieta de Oliveira Bentes

     

    O Grupo de Estudos em Linguagens e Práticas Educacionais da Amazônia (GELPEA) foi criado em 2008. A primeira designação que o grupo teve foi exatamente “Grupo Práticas”. Pretendíamos centrar na análise de sala de aula enquanto um espaço de diálogos, um lugar de relação com o outro. Um ambiente de alteridades, de formação e de realização da prática educativa.

    O grupo surgiu com os mestrandos da turma de 2007-2008 que cursavam os Estudos Linguísticos no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), da Universidade Federal do Pará (UFPA). Esses mestrandos queriam se apropriar da teoria de gêneros discursivos, que discutia a prática docente de professores de Língua Portuguesa na sala de aula – mais especificamente queríamos estudar autores como Mikhail Bakhtin e Bernard Schneuwly.

    A inspiração foi em Bakhtin – nos círculos de Bakhtin. Começamos reunindo, no ano de 2008, na UFPA e nas residências dos integrantes, sempre discutindo a temática da prática de sala de aula. Discutimos o ato responsável, os gêneros discursivos, as sequências didáticas, o uso e ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras), a interação em sala de aula, a alfabetização de crianças, jovens e adultos, entre outras abordagens.

    Em 2010, assumimos a denominação de “Grupo de Estudos Linguísticos e de Práticas Educacionais do Norte”; assim o Grupo foi institucionalizado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). No ano de 2012, renomeamos para Grupo de Estudos em Linguagens e Práticas Educacionais da Amazônia substituindo a expressão “estudos linguísticos”, que reduzia o grupo ao curso de Letras, para “estudos em linguagens” ampliando para todas as disciplinas das Ciências Humanas.

    Desde a sua fundação, reunimos professores(as) e pesquisadores(as) de instituições públicas em torno de estudos e pesquisas que envolvam práticas educativas escolares e não escolares nas áreas das linguagens nos mais diferentes níveis de ensino. A ideia sempre foi de buscar alternativas para minimizar as problemáticas locais – com os desafios de considerar os saberes dos povos tradicionais, das florestas, das águas, das cidades e dos campos. Nesta perspectiva, realizamos estudos e pesquisas acerca da educação na Amazônia. Os resultados dessas pesquisas e estudos são divulgados em publicações, cursos, palestras, comunicações, oficinas, simpósios, congressos, entre outros eventos.

    O grupo é um coletivo que envolve profissionais de diversas instituições, dentre as quais: a Universidade do Estado do Pará (UEPA), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Secretaria de Estado da Educação do Pará (SEDUC) e a Secretaria Municipal de Educação de Belém (SEMEC). O GELPEA há mais de uma década vem desenvolvendo atividades que tratam dos desafios de aprender e ensinar na Amazônia.

    Ao longo dos anos, o grupo desenvolve seus estudos de forma coletiva e por meio de linhas de estudos. Nessas linhas os seus membros reúnem-se na intenção de estudar e dialogar sobre os pressupostos teóricos, metodológicos e analíticos a partir de um problema de pesquisa. Esses estudos ocorrem de forma dialógica em que os integrantes debatem, dialogam e interagem na intenção de agir, reagir e contribuir com as palavras do outro. Afinal todas as “‘palavras alheias’ são reelaboradas dialogicamente em ‘palavras minhas-alheias’ com o auxílio de outras ‘palavras alheias’” (BAKHTIN, 2017, p. 68).

    Os diálogos nas linhas têm como eixo central os Estudos da Linguagem, em especial a corrente teórica de Mikhail Bakhtin e do Círculo russo. A partir desse eixo, buscamos dialogar, incessantemente, com as práticas educacionais da Amazônia. Isso faz com que o grupo, por ser dialógico, articule-se com outras correntes teóricas, inclusive os estudos culturais, os estudos do discurso, os estudos da literatura, o ensino de línguas, os estudos decoloniais, a interculturalidade crítica, os estudos da diferença, entre outras correntes teóricas.

    Intenta por meio de suas atividades problematizar determinadas tendências de pensamentos que isolam a língua no interior de um sistema abstrato, que a descreve como um objeto neutro desassociando-a das relações de poder e dos significados que emergem da atividade humana em sociedade. O GELPEA lida com o enunciado que é visto por Bakhtin como uma unidade da comunicação discursiva, sendo que cada enunciado constitui um novo acontecimento, um evento único e irrepetível da comunicação humana (BAKHTIN, 2016).

    O GELPEA busca garantir a participação dos membros do grupo – e de todos aqueles que se interessam pela abordagem dialógica da linguagem proposta por Bakhtin e o Círculo – em todas as suas atividades e seus projetos. Essa participação se dá pelo diálogo com outras vozes, inclusive com pesquisadores paraenses, amazônidas, brasileiros e estrangeiros, com ações e projetos de ensino, pesquisa e extensão.

    E mais: vem promovendo o diálogo entre a universidade e a sociedade, por meio da participação dos docentes da Educação Básica e da socialização das pesquisas desenvolvidas pelos alunos da Graduação e da Pós-Graduação, envolvendo ainda os professores das redes municipal, estadual e federal de ensino e de outras localidades do país. Assim, o grupo contribui com a formação inicial e com a formação continuada dos profissionais da educação que atuam no contexto das escolas e das universidades.

    O GELPEA desenvolve as suas atividades em torno de estudos teóricos articulados ao campo do ensino, da pesquisa e da extensão. Nesse sentido, o grupo já realizou diversos eventos e atividades que articulam esses três campos, tais como: os Seminários sobre linguagens, tecnologias e práticas docentes; os Colóquios de estudos bakhtinianos; as Arenas de estudos bakhtinianos; e as Lives sobre identidades e alteridades.

    Todos esses eventos promovidos pelo GELPEA tiveram como plano de fundo os estudos por meio de: rodas de conversas, estudos por meio das linhas, encontros virtuais onlines, outras atividades. Sendo assim, o GELPEA tem uma trajetória metodológica em torno de estudos e reflexões que se dão de forma dialógica e coletiva. Isso faz com que os integrantes do Grupo leiam, discutam, reflitam e escrevam acerca dos pressupostos teóricos estudados. Consequentemente, isso tudo é conectado ao campo do ensino, da pesquisa e da extensão pelo grupo.

    Somos um coletivo de pesquisadores brasileiros, institucionalizado por uma Universidade pública na Amazônia e em atividade há mais de 13 anos. Assim, diante dos crescentes ataques aos pesquisadores, à universidade pública e às múltiplas vozes da Amazônia, vivenciamos a urgência de ampliar e fortalecer ações de democratização e internacionalização de nossas atividades por meio do diálogo entre pesquisadores, professores e alunos, bem como a divulgação de estudos e de alternativas construídas na academia em interação com outros grupos sociais organizados.

    O GELPEA visa a construção de um campo de conhecimento na Amazônia a partir das vozes que ressoam os fundamentos teóricos, metodológicos e analíticos de Bakhtin e demais autores do círculo russo. O GELPEA integra autores, intelectuais e pesquisadores interessados e compromissados com a educação e os estudos da linguagem na intenção de visibilizar “a natureza inacabada do diálogo sobre as grandes questões (na escala da grande temporalidade)” (BAKHTIN, 1997, p. 393).

    Assim, almejamos que todas essas ações do GELPEA possam ser refletidas e refratadas nas escolas para que essas instituições da e na Amazônia tornem-se, de fato, instituições que promovam a cidadania e estejam voltadas aos interesses dos grupos populares, sociais e economicamente marginalizados. Para isso, a caminhada precisa ser de construção coletiva e dialógica para que todas, todos e todes vivenciem uma Amazônia permeada por valores éticos, pautados no respeito às diferenças e na inclusão social e educacional.

  • LENDO RAZLÚKA DE PÚCHKIN: a voz do outro na poesia lírica

    R$25,00

    Mikhail Bakhtin à escuta da voz do outro, até mesmo no gênero lírico

    Augusto Ponzio

     

    Conversando com [São Bernardo] no paraíso, Dante exprime a ideia de que nosso corpo haverá de ressuscitar não para nós, mas para aqueles que nos amam, que nos amavam e que conheciam a nossa única face (Bakhtin, 2011, p. 53).

     

    Mikhail Mikhailovich Bakhtin (Orël, 1895 – Moscou, 1975) é conhecido sobretudo por ter mostrado a importância que tem a relação entre voz própria e voz outra no interior do romance, com referência particular ao “romance polifônico” de Dostoiévski. Menos conhecido é que Bakhtin, e justamente no início de sua pesquisa inerente à palavra enquanto tal, identifica a importância da voz outra na poesia lírica, analisando uma poesia de Púchkin, Razlúka (Separação). Disso ele se ocupa no início dos anos 1920, seja no “Frammento del primo capitolo di “L’autore e l’eroe” [Fragmento do primeiro capítulo de “O autor e o herói” (Bachtin, 2014)], seja em “K Filosofi postupka” (“Por uma filosofia do ato responsável”), ambos mantidos inéditos e publicados no original russo organizado por S. G. Bocharóv em 1986. Em ambos a referência direta é à poesia de Púchkin.

    “Voz”, essa palavra indica algo de singular, de irrepetível, de único. A voz (como a impressão digital ou o DNA) indica a singularidade de cada um, a sua insubstituibilidade, a sua incomparabilidade, a sua unicidade, em contraste com a inserção de todos na identidade: identidade de gênero, de raça, de etnia, de cultura, de religião, de nação, de classe, de profissão, de papel social…, mas também identidade em relação a outros paradigmas: rico/pobre, bom/mal, bonito/feio. Essa inserção na identidade e, portanto, no paradigma, acontece menos na relação de amor, o amor verdadeiro, desinteressado, seja esse o amor como eros, seja esse o amor como agape (o amor filial, de amizade, da misericórdia, o amor à vida em todos os seus aspectos e manifestações, no qual o único interesse é o próprio ser amado, “único ao mundo”: “não te amo porque és isso ou aquilo, mas porque és tu (e esse “tu” pode valer não só para um ser humano, mas também para um gato, um pardal solitário, para a lua (como mostra a escritura literária, e não só a poesia).

    Normalmente há dois centros de valor: aquele do eu e aquele do outro. Na vida pode prevalecer um ou o outro. Mas na arte, a condição de seu valor, do valor estético, é que predomine o valor do outro. É isso que indiquei, como referência à revolução copernicana, no título do meu livro (Editora Contexto, 2015), como Revolução bakhtiniana. E, precisamente, diferente da responsabilidade pelo outro na vida, é preciso que na arte predomine não o ponto de vista do próprio eu sobre o outro, mas o ponto de vista “extra-localizado”, exótopico, a respeito do “personagem”, quem quer que esse seja – humano, ser vivo ou não, bom ou mau, bonito ou feio, um santo ou um assassino. Trata-se do ponto de vista do escritor, e se for verdadeiramente assim, também do ponto de vista do leitor, que o escritor consegue envolver nos eventos do personagem, como consegue fazer Dostoiévski em relação a Raskólnikov de Crime e castigo, ou de Stavróguin de Os demônios. Mas é também isso que consegue fazer Púchkin em Razlúka, em relação à separação dela: separação que agora não é só seu retorno da Rússia para a Itália, não é, portanto, somente a separação dele, mas – somente agora ele sabe (portanto os pontos de vista na poesia de dois são tornados três) – é uma separação dela para sempre, porque ela morreu. E aqui ainda mais uma vez o amor supera a morte, e o poeta consegue isso expressar, dirigindo-se diretamente à mulher amada, partida para sempre, com o tu: “Ma il bacio promesso nell’addio, io lo voglio, la tua promessa vale!” [Mas digo que a ti já partiu… o beijo final que ainda espero!].

    Foi belo que Marisol Barenco tenha promovido e realizado a publicação em português desse texto de Bakhtin.

  • Língua e Lalangue na análise do discurso de Michel Pêcheux

    R$50,00

    O quadro epistemológico da Análise do Discurso, assim como proposto por Michel Pêcheux e Catherine Fuchs em 1975, é composto por três regiões do conhecimento científico: o Materialismo Histórico, a Linguística e a Teoria do Discurso. Essas três regiões do conhecimento são, segundo Pêcheux e Fuchs, atravessadas e articuladas por uma teoria da subjetividade de natureza psicanalítica. Levando em consideração a composição do quadro epistemológico da Análise do Discurso, este livro pretende refletir sobre a presença da língua e as vicissitudes por ela sofridas ao longo do percurso teórico de Michel Pêcheux, assim como explorar as possíveis relações entre tais vicissitudes e o atravessamento do quadro epistemológico pela teoria psicanalítica.

    A língua é um pressuposto do discurso, mas ocupa esse lugar de forma diferenciada ao longo do percurso teórico de Michel Pêcheux. É possível vislumbrar um primeiro momento nesse percurso em que a língua é abordada de forma a colocar em destaque seu funcionamento como sistema regido por leis abordáveis no âmbito da Linguística, isto é, por leis fonológicas, morfológicas e sintáticas. O sistema da língua é, nessa perspectiva, possuidor de uma autonomia relativa, uma vez que coloca em cena um funcionamento que só parcialmente é linguístico. O que se enfatiza nesse momento é o fato de que a base linguística distingue-se dos processos discursivos constitutivos do sentido, correspondendo ao lugar no qual se desdobram os efeitos de sentido produzidos em nível do processo discursivo. Essa abordagem da língua encontra-se estreitamente relacionada à intervenção de Pêcheux no campo da Linguística, intervenção nomeada pelo autor de “mudança de terreno”, mudança a partir da qual seriam forjados conceitos exteriores à Linguística, apropriados para uma abordagem do nível da particularidade correspondente ao discurso.

    Em contraste com a abordagem da língua na qual se coloca em destaque o funcionamento fonológico, morfológico e sintático da base linguística, é possível vislumbrar num momento posterior do percurso teórico de Michel Pêcheux o recurso explícito a um elemento proveniente da teoria psicanalítica: lalangue, termo forjado por Jacques Lacan como efeito de um lapso e teorizado por Jean-Claude Milner em O amor da língua. O recurso a lalangue se localiza no contexto de mudanças significativas no âmbito da Análise do Discurso, tanto no que se refere à teoria quanto no que concerne à prática de análise. Contudo, se por um lado a consideração de lalangue vem acompanhada de mudanças significativas na Análise do Discurso, tal recurso não deixa de colocar impasses para a abordagem do discurso forjada por Michel Pêcheux. Uma vez que se leva em conta que lalangue remete à dimensão de um gozo impossível, interditado pela língua, quais seriam as consequências para uma teorização sobre o discurso?

  • Livros onde vivem pensatempos

    R$30,00R$40,00

    Quando recebi o convite para escrever a orelha do livro do Wanderley Geraldi lembrei das palavras da personagem de Clarice Lispector em Felicidade Clandestina: “Era mais do que qualquer criança devoradora de histórias poderia querer”. Exatamente assim aceitei.

    Este é um livro sobre escritos, parece errado dizer isso, então tento me aproximar mais do que sinto, não é um livro apenas, é um convite, para atravessar os tempos de escuridão e medo que nos cercam, são histórias de histórias, que acendem o candeeiro, que adentram as fissuras, os escondidos e as ternuras dos textos. Sabidamente, tamanha sua genialidade e maestria, nosso autor, que é nosso candeeiro, aproxima e afasta o que deve aproximar e afastar, dando a nós a dimensão, por luz e sombra, que os nossos monstros e medos por vezes podem ser derrotados.

    Os textos lidos constituem uma nova obra, são organizados numa trajetória bem desenhada, desbravadora de um novo percurso, cujo autor não estende a mão aos leitores, tampouco aos autores, ao contrário até, em cada texto tem-se experiências e rupturas: um, dois, vários socos no ar, no estômago, no coração e estamos todos em meio a uma nova jornada, prontos ou não, seguimos, e se vamos para algum lugar é melhor que se saiba com quem e porque caminhamos.

    Esse convite de João Wanderley Geraldi é único e se faz para cada um que tem seu livro nas mãos; é certo que em seus textos não podemos resgatar os ouvidos ingênuos das experimentações e mediações das contações de histórias das nossas infâncias, mas, de certo modo, o ato de conduzir-nos nas narrativas remete-nos ao tempos em que ouvíamos histórias debruçados sobre afeto: não há pressa na escritura, e assim devemos proceder na leitura, a cadência vai sendo dada pelos achados que o autor aponta, e de outros tantos sugestionamentos que provoca.

    E o tempo? É leitura e pensamento. Aceito o convite, temos instrumento, e podemos inverter a ampulheta, e quantas vezes ainda se façam necessárias, pois adentrar um texto lido por Geraldi é totalmente diferente, não é ler um texto facilitado no sentido de se desobrigar de ler o original. É o contrário. Por ele se penetra no texto de forma atenta, precisa-se de mais, pois constrói um novo texto capaz de inundá-lo de sentidos, desconhecidos e escondidos pelo autor, e assim ele vai, e volta, e revolta-se em diálogo mediado entre o autor e o leitor, até que entregue para si e para quem é lido um significado vital, feito carne, numa emoção de dois parceiros.

    Brasília, outubro de 2020

    Mara Emilia Gomes Gonçalves

    Professora de Língua Portuguesa

  • Registros: inventos da memória

    R$40,00

    Introdução

    As inscrições rupestres (a mais antiga das quais, na Indonésia, foi datada com 45.500 anos a.C.) oferecem uma enigma para o mundo contemporâneo. Podem ser resquícios de narrativas (por exemplo, é possível que a inscrição na ilha Sulawesi, na Indonésia, conte a história de uma caça); também podem ser formas de comunicação à distância, em que moradores das cavernas deixavam àqueles que não estavam presentes algum recado, alguma informação (são, por exemplo, os sentidos dados a alguns desenhos com animal e homens com instrumento de caça, que poderiam significar “saímos para caçar”, um sentido obviamente atribuído pelo presente), podem, ainda, representar as primeiras manifestações artísticas do homem (por exemplo, a escultura do ‘homem-leão’, datada de 32 mil anos a.C., encontrada na caverna de Stadel, na Alemanha).
    Qualquer que seja a hipótese de nossas explicações permanecerá sempre como hipótese. Mas algo parece estar sempre presente como gesto da espécie: grafar a ‘experiência’ de alguma forma através de imagens. Foram necessários milhares de anos para chegarmos ao que conhecemos como escrita. O historiador Yuval Noah Harari (Sapiens Uma breve história da humanidade) levanta a hipótese de que a escrita emerge entre os homens, depois da revolução agrícola e o surgimento de um sistema de trocas, como uma forma de registro ‘contábil’.

    Em defesa de sua tese, traz a tábua suméria de Uruk, o primeiro documento assinado encontrado até agora, em que alguém chamado Kushim diz ter recebido 29.086 medidas de cevada ao longo de 37 meses. O que interessa nesta hipótese é o fato de que a escrita, em suas primeiras emergências, permitiu não sobrecarregar a memória. Em certo sentido ela permitiria uma ‘memória externa’ ao corpo.

    O conjunto de textos que compõe este livro são registros para a memória. Todos os textos foram escritos antes de baixar a poeira da leitura. Formei-me leitor com uma caneta ou lápis na mão: quando eram obras tomadas emprestadas, de amigos ou de bibliotecas, tinha meu cadernos de anotações. Meus livros estão bordados de traços, sublinhados, anotações à margem. Aqueles de estudos estão coloridos porque a cada leitura usava outra cor. São exemplares imprestáveis.
    Que razões me levam a compartilhar estes registros? Como não são resenhas, não trazem análises criteriosas, não resultam de pesquisas, sua serventia para outros, esta a minha ambição, é que minhas leituras levem outros aos mesmos livros (ou a outros livros). Grande amiga minha, Cristina Campos, me diz: “ler você é muito caro!”. Não entendi… mas ela explicou – leio suas anotações e fico com vontade de ler vários destes livros. Foi o melhor retorno que recebi a respeito destes livros que venho publicando anualmente, desde 2017. Para que ela não ‘gastasse’, começamos a trocar livros. Eu lhe empresto aqueles cujas leituras foram registradas por mim lhe interessaram. E ela me indica outros livros, que leio e registro para minha memória, sabendo que as compartilharei.
    Que a sorte deste novo livro seja inspirar outras leituras, outros leitores.

    Barequeçaba, setembro de 2021
    João Wanderley Geraldi

  • A CONSTRUÇÃO DA ENUNCIAÇÃO E OUTROS ENSAIOS [VOLOCHÍNOV] – Valentin Nikolaevich Volochínov

    R$45,00

    Valentin Nikolaevich Volochínov !@
    Ano de Publicação 2013
    Páginas 273
    Tamanho 16 x 23
    ISBN 978-85-7993-169-7

  • A ANÁLISE DO DISCURSO E SUAS INTERFACES – Leda Verdiani Tfouni, Dionéia Motta Monte-Serrat, Paula Chiaretti (Orgs.)

    R$30,00R$60,00

    Autor Leda Verdiani Tfouni, Dionéia Motta Monte-Serrat, Paula Chiaretti (Orgs.) !@
    Ano de Publicação 2011
    Páginas 400
    Tamanho 16 x 23
    ISBN 978-85-7993-072-0

  • A LIGEIREZA DA PALAVRA – Augusto Ponzio; Valdemir Miotello

    R$25,00

    Augusto Ponzio; Valdemir Miotello !@
    Augusto Ponzio e Valdemir Miotello em diálogo. A ligeireza da palavra. São Carlos: Pedro & João Editores, 2019. 111p.
    ISBN: 978-85-7993-765-1-
    1. Estudos de linguagem. 2. Bakhtin. 3. Força da palavra. 4. Autores. I. Título.
    CDD – 410

  • A PALAVRA DE SAUSSURE – Lucília Maria Abrahão e Sousa, Glaucia Nagem de Souza e Lauro Baltini (orgs)

    R$25,00R$50,00

    Autor Lucília Maria Abrahão e Sousa, Glaucia Nagem de Souza e Lauro Baltini (orgs)
    Ano 2016
    Páginas 369
    Tamanho 16 x 23
    ISBN 978-85-7993-334-9

  • Ancoragens: Estudos Bakhtinianos

    R$35,00

    MENSAGEM AOS LEITORES DO GERALDI QUE VÃO NASCER

     

    André Covre

     

    Dispúnhamos e dispomos de certas técnicas de escuta, mas não sabemos com precisão que toque, que palavra, que gesto produziu o encontro com outro toque, outra palavra, outro gesto, e na faísca deste encontro escreveu em sulcos no ar uma outra imagem, uma terceira palavra capaz de criar uma compreensão, exigir um investimento intelectual e desencadear este encanto que é o pensamento. Pensar exige liberdade. Pensar exige silêncios e vazios. E terá valido a pena pensar, mesmo que o pensado se esvaia no momento mesmo de sua emergência (João Wanderley Geraldi).

     

    O Wanderley me enviou, certa vez, um conjunto de textos de sua autoria, textos já publicizados em falas de congressos, artigos em livros e coletâneas organizadas por outros autores; textos que, segundo me contou o próprio autor, poderiam ser revisados, relidos, reescritos e, talvez, organizados em um volume próprio. Recebi junto com o arquivo compactado um documento cujo título era “textos possíveis para a coletânea a ser publicada”. Em seu interior, alguns títulos dos textos então enviados, com algumas observações… Enfim, um projeto de livro!

    Na mensagem, ainda, um pedido de leitura e de comentários. Confesso que ri alto! Eu? Ler e comentar? Textos do Geraldi? Para o Geraldi? Entre o orgulho pelo pedido e nervosismo pela responsabilidade, surgiu um convite para uma homenagem ao “Professor João Wanderley Geraldi” e, como não havia conseguido escrever para ele sobre os textos, resolvi trabalhá-los no texto-homenagem[1].

    Procurei escrever uma espécie de resenha de textos que poderiam formar um livro que, naquele momento, ainda não existia; ou qualquer coisa parecida com isso. Mal aquele texto ancorou nos mares virtuais como uma homenagem, outro convite bate a porta: transformá-lo em uma apresentação do “ANCORAGENS – Estudos Bakhtinianos”, livro que agora está em suas mãos, leitor, e que, de alguma forma, começa a existir para você na leitura dessas minhas palavras. Palavras que, por sua vez, permanecem ainda como uma resenha em homenagem, e agora formam também uma apresentação.

    Escrever uma resenha sobre os textos do Geraldi foi tarefa difícil, de modo que não me abstive de cometer alguns ‘crimes’ que um texto como esse exigiria… Talvez até tenha tratado dos temas dos textos, talvez tenha trabalhado mais aqueles que eu conhecia melhor e que li mais vezes, talvez tenha clamado por demais a ajuda de poetas, de músicos, amigos… do próprio autor, a ponto de deixar que ele mesmo falasse por si o que já falou em seus textos. Certo de que eu mesmo não tinha conseguido terminar esse texto como resenha – as palavras do pensador Geraldi são muito grandes para caber na minha boca e nos meus dedos dançantes sobre o teclado – a elas mantenho minha homenagem!

     

    O último orientando somente pode olhar para o futuro

    Como aluno do curso de pós-graduação em linguística do IEL, talvez o último ainda sob orientação do professor Wanderley, posso marcar essa característica como evidência da minha pouca convivência com a história (e as histórias) e os acontecimentos de seu percurso, não somente no que concerne a UNICAMP, mas anteriores e paralelos a ela. Claro que muito sei de ouvir histórias e de ler seus livros, mas me darei ao direito de não falar sobre o passado. Ou ainda, falarei sim sobre o passado, porque sobre textos já escritos e dados ao público de alguma forma, mas que agora reencontram seu renascimento em forma de livro próprio.

    Desse modo, dos meus lugares históricos – na vida do Geraldi e leitor de sua obra – tenho mais a olhar para o que será do que para o que já foi. Por isso, no ápice que pode chegar minha arrogância como autor-aqui, essas minhas linhas formam quase que uma espécie de mensagem aos leitores do Geraldi que vão nascer.

    Tentarei não me deter na ação de descrever os textos que recebi, por isso talvez o que ocorrerá serão somente leituras, muito limitadas e particulares, de aspectos e discussões que mais me marcaram e cada um deles, de recorrências que me parecem, para a atualidade, tão importantes que talvez tenham sido elas que, em conjunto com outras que eu ainda não consegui vislumbrar, aos olhos do autor se aglomeraram clamando por estarem juntas nesse livro. Como reconheci mais acima, em alguns textos, a voz do autor ecoa ainda tão forte e perene em meus ouvidos que simplesmente abrirei espaço para ela, mesmo correndo riscos de prejudicar a re-costura por parte daquele que se deparar com esse meu texto.

    Informo que, para os trechos citados dos textos que fazem parte deste livro, apenas indicarei o título do texto. Os títulos que recebi são:

    • Mitos Bíblicos. Fundamentos das percepções judaico-cristãs da linguagem.
    • Linguagem e máscaras identitárias, exigências para inserção no mundo global.
    • Pesquisa em linguagem na contemporaneidade.
    • Texto e Discurso.
    • A diferença identifica. A desigualdade deforma. Percursos bakhtinianos de construção ética através da estética.
    • Depois do ‘show’, como encontrar encantamento?
    • Alteridades: espaços e tempos de instabilidades.
    • Problematizar o futuro não é perder a memória do que há de vir.
    • Sobre a questão do sujeito.
    • Mensagem aos leitores que vão nascer.

    Talvez, leitor, este seja um tempo de realizar uma leitura diferente, longe dos objetivos acadêmicos para os quais, às vezes, procuramos nas citações dos autores fundadores as ancoragens necessárias para uma leitura mais segura, menos dependente de nossas angústias e perguntas. Desse modo os chamo para essa leitura particular e muito íntima desses textos, uma leitura pouco pretensiosa e muito esperançosa.

    De início, duas pequenas observações sobre o texto “Mitos Bíblicos. Fundamentos das percepções judaico-cristãs da linguagem”:

    Primeira: O título da primeira parte, para mim, destroi as concepções de contexto e/ou de condições de produção trabalhadas pelos estudos da linguagem contemporâneos: “Um passado inalterado manufatura um presente imutável”. Compreender o dado como estável e pré-concebido abstratamente é matar o presente, matar o futuro, impedir as mudanças, nos afundar na arrogante miserabilidade da nossa imediatez.

    Segunda: Há uma defesa importante das experiências periféricas com a diferença. Essa defesa também aparece no texto “Linguagem e máscaras identitárias, exigências para inserção no mundo global.”.

    A reflexão sobre algumas máscaras identitárias exigidas atualmente para que possamos desfrutar do mundo global parece forçar Geraldi a discutir um tema constante nos textos contemplados por esse livro, o tema da diferença. Percebo, quase sempre, uma defesa da diferença em contraponto com a desigualdade. Aqui, contudo, a crítica é mais direta e, em um primeiro momento, pode parecer contraditória:

     

    O cômico é que nesta pós-modernidade da diferença, nunca fomos socialmente tão cartesianos! Não esqueçamos que um dos princípios de seu método é: estabeleça uma diferença (Linguagem e máscaras identitárias, exigências para inserção no mundo global).

     

    Enxergo, especificamente nesse texto, uma crítica à “diferença fabricada”, à inversão das compreensões de diferença e multiplicidade em favor de qualquer homogeneização mínima produtiva para o mercado:

     

    No capitalismo contemporâneo, a diferença é fabricada. Há um fetiche da diferença em que investe o mercado para dela extrair lucros máximos. Identidades forjadas em benefício da construção de nichos de mercado. Ter identidades múltiplas reduz-se a transitar entre grupos consumidores: a cada vez uma identidade camisa de força em nome da liberdade! Não se trata de enriquecer a subjetividade pelo contato com a multiplicidade. Trata-se de adaptar-se a cada fragmento instantâneo da vida em um das identidades múltiplas disponíveis no mercado (Linguagem e máscaras identitárias, exigências para inserção no mundo global).

     

    No texto “Pesquisa em linguagem na contemporaneidade”, Geraldi percorre questões fundamentais sobre a história da linguística, travando um embate com a classe letrada que instituiu o pensar a linguagem no país.

    O estilo parece ser militante, denunciando a apropriação da língua, o pensar sobre a língua e o alinhamento a tradição letrada (trazendo à baila as considerações de Angel Rama sobre a cidade das letras) para produzir desigualdades e exclusão.

    Vislumbramos um chamamento para os linguistas contemporâneos assumirem uma posição:

     

    … antes de tudo cada pesquisador precisará equipar-se com sua opção (política, é claro) de alinhamento à tradição ou radicalização na defesa de outras manifestações verbais como tão importantes ou até mesmo mais importantes do que aquelas que a tradição elevou à categoria de cânone. Nesse lugar da opção, pesquisa e ética se reencontram e, enfim, talvez, nos tornemos livres para nos darmos uma lei, sabendo que nossa liberdade de nos darmos uma lei implica que lei alguma é imutável porque outra lei pode ser elaborada nesta história que não tem qualquer porto de chegada que não o próprio percurso da caminhada (Pesquisa em linguagem na contemporaneidade).

     

    O tom é muito parecido em “Texto e Discurso”, dialogando com as duas disciplinas que tentaram de forma mais intensa trazer de volta para o âmbito do campo de estudos da Linguística (após o gesto inaugural de Saussure) dois fenômenos (entre outros) que tradicionalmente foram estudados na área de Letras: os textos e os discursos.

    Apontando características comuns entre a Análise do Discurso e a Linguística Textual, ressalta, no entanto, que não houve, nesse texto, “qualquer pretensão de estabelecer as linhas demarcatórias de uma e outra disciplina”, apenas defender a ideia de que talvez seja “útil considerar que ambas tomam como fenômeno de partida a existência de um processo de relação entre sujeitos (com Bakhtin, esta relação poderia ser chamada de interação verbal)”.

    Mas quero agora ressaltar outra característica interessante: na maior parte dos textos de Geraldi se aprende muito também sobre outros temas paralelos aos que ele está tratando diretamente. No caso do excerto abaixo, muito se diz sobre a natureza dos gêneros do discurso e sua fundação nas relações sociais.

     

    Certamente um dos argumentos mais importantes para a defesa de que o texto e o discurso estão demandando a redefinição do objeto da linguística é que um discurso e seu texto, (…), não resultam da aplicação de regras; ao contrário, não há um conjunto de regras que, uma vez seja seguido, resulte num texto/discurso. Assim, é uma crença absolutamente inadequada imaginar que se um estudante sabe as características, por exemplo, de um gênero discursivo, ele estará apto a produzir um discurso dentro deste gênero. Produzir um discurso (ou um texto) exige muito mais do que conhecer as formas relativamente estáveis dos gêneros discursivos: há que se constituir como locutor, assumir o papel de sujeito discursivo, o que impõe necessariamente uma relação com a alteridade, com o outro. E uma relação com o outro não se constroi sem sua participação, sem sua presença, sem que ambos saiam desta relação modificados (Texto e Discurso)

     

    No texto “A diferença identifica. A desigualdade deforma. Percursos bakhtinianos de construção ética através da estética”, Geraldi ataca principalmente as bases filosóficas da sociedade moderna (teóricas, ideológicas, epistemológicas).

     

    Talvez este seja um tempo de purgar a desqualificação: apostamos tanto em nossos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade – e tínhamos fé no caminho do progresso como forma de sua concretização – que esquecemos de compreender qualquer outra fé, qualquer outra ideia, qualquer outra pessoa (A diferença identifica. A desigualdade deforma. Percursos bakhtinianos de construção ética através da estética).

    Para criticar a noção kantiana de ética a partir de uma leitura particular de Bakhtin, Geraldi parte da noção de diferença (alteridade). A ideia aqui é mostrar com a noção de igualdade é prejudicial à noção de liberdade. A falta da compreensão da diferença mata a própria noção de identidade. Igualdade como generalização funciona como fundamento para o apagamento das singularidades e, portanto, das subjetividades. É um autor comprometido com os sujeitos da vida!

    Na verdade, Geraldi toma cuidado para não destruir a noção de igualdade, pois sabe de sua força no mundo atual. Mas o fato é que, para fugir dela, trabalha-a pelo seu oposto: a desigualdade. Criticando esse oposto e promovendo em seu lugar a diferença, o faz transitando por uma linha de pensamento extremamente bakhtiniana, reconectando conceitos trabalhados em diversas obras.

    Geraldi está entre os poucos que conseguem sair do marasmo bakhtiniano que se estabelece a partir de leituras menos comprometidas, ou comprometidas com outros projetos de dizer (os da exegese, por exemplo). Penso que Geraldi seja o único pensador bakhtiniano no mundo (com força de diálogo com as obras do Círculo de Bakhtin, talvez, somente comparada a de Augusto Ponzio) que realiza uma leitura global das obras do Círculo, dos conceitos fundados em momentos específicos, tomando cuidado com re-utilizações como metáforas ou analogias para seu próprio gesto de coragem em olhar o mundo atual.

     

    Que nos trazem os tempos atuais para além das dúvidas, incertezas e desencantos? Fechado o pano, concluído o show da ciência moderna, que nos resta? (Depois do ‘show’, como encontrar encantamento?)

     

    O texto “Depois do ‘show’, como encontrar encantamento?” é o texto mais inspirador. Difícil escrever sobre, esboçar qualquer tentativa de análise. A pergunta “o que nos resta?” é respondida com “retornar às perguntas”! O que nos resta é perguntar!

     

    (…)

    Aponta o dedo sobre cada item,

    pergunta: como foi parar aí?

    (…)

    Elogio do Aprendizado

    Bertold Brecht

    (trecho de poema presente no texto)

     

    Como retornar às perguntas? Ler! Encarar o texto como alteridade, com perspectivas de futuro, com projetos de dizer sobre o mundo que se abre em cada texto que encontramos.

     

    As ciências humanas são as ciências do homem em sua especificidade, e não de uma coisa muda ou um fenômeno natural. O homem em sua especificidade humana sempre exprime a si mesmo (fala), isto é, cria texto (ainda que potencial). Onde o homem é estudado fora do texto e independente deste, já não se trata de ciências humanas (anatomia e fisiologia do homem, etc.) (Mikhail Bakhtin).

     

    Quem sou eu? O que produz em mim a presença do outro

    (…)

    Talvez seja necessário retornar a estas perguntas, para com elas construir respostas provisórias que nos permitam conviver com a instabilidade, sem reduzi-la ao efêmero da informação tão veloz e constante na modernidade.

    (…)

    Ler para encontrar as palavras que se escondem. Ler para fazer dialogarem palavras que se opõem. Ler sem a pressa do consumo, ler com tempo sabendo que o tempo passa e é inexorável. Ler sem deixar-se levar, mas se permitir embalar pelas palavras.

    (…)

    Talvez seja possível pensar a leitura como uma oferta de contrapalavras do leitor que, acompanhando os traços deixados no texto pelo autor, faz estes traços renascerem pelas significações que o encontro de palavras e contrapalavras produz (Depois do ‘show’, como encontrar encantamento?)

     

    Geraldi recupera a compreensão dos processos de significação desenvolvidos por Bakhtin na discussão sobre o signo ideológico. Sempre que me perco discutindo produção de sentidos, utilizo o excerto abaixo que, para mim, é uma das explicações mais simples e densas sobre esses processos:

     

    Para dar conta deste movimento entre estabilizações e instabilidades, Bakhtin (1929/1981) opõe dois conceitos: aquele de significação e aquele de tema. Se consideramos que uma língua é um conjunto instável de recursos linguísticos com que construímos representações com “acentos apreciativos” (portanto nunca neutros), cada um destes recursos traz em si “os  murmúrios de sua própria história” condensados como suas significações que se apresentam em cada uma de suas reiterações. E nestas reiterações, estes mesmos recursos se desvestem de suas significações para se revestirem com as vestes que lhe traz o tema específico do discurso (Depois do ‘show’, como encontrar encantamento?).

     

    Em “Alteridades: espaços e tempos de instabilidades” encontrei um texto mais filosófico, incorporando o tom das considerações bakhtinianas sobre o autor e o herói, não somente sobre estética, mas também para pensar questões éticas. Vê-se, nesse texto, o respeito de Geraldi pelo filósofo Bakhtin, deixando entrever sua voz dentro da própria para que seu projeto de dizer, ainda confuso e disperso no início do texto, aos poucos vá se concretizando.

    Posição firme em não abrir concessões estruturalistas para a cidade das letras, enxergo nesse texto o aparecimento de uma proposta linguística. Discute, no cerne da questão linguística/história (estabilidades e instabilidades, permanências e mudanças) o não investimento nas singularidades das enunciações. Nesse texto dou também importância à crítica ao engessamento da proposta positivista de procurar apenas as regularidades, provocando quase sempre a escolha pelos objetos mortos, deixando de lado a vida em todas as áreas, e também nos estudos da linguagem.

     

    Trata-se agora de ultrapassar a barreira da linguagem, aquela mesma que me dá acesso ao evento, para nela encontrar os indícios do que não sendo explicitado contém precisamente o que merece a explicitação e possivelmente determinaria a revisão de nossas compreensões da vida cotidiana. Certamente a arte percorre este caminho. Certamente o ato ético e o ato cognitivo contêm elementos estéticos e talvez tenhamos nos acostumado tanto à estética cotidiana e à pureza abstrata da ciência, sua estética de des-encarnar os fatos, que já não mais os percebemos. Valores e estética fundidos nos objetos e fenômenos, recobertos pela linguagem. Há que transpor a opacidade, mas sem garantias de uma verdade que presumíamos existir do lado de fora. Para além da arte, existiria alguma possibilidade? (Alteridades: espaços e tempos de instabilidades).

     

    A perspicácia dessa pergunta reside na compreensão de que Bakhtin, em seus estudos – após ter explicado que a cultura humana possui três campos: a arte, a vida e a ciência –, escolheu a arte (estética) para pensar o mundo, por vezes tangenciou a reflexão pelas questões da vida (ética), e chegou a pensar pouco sobre a ciência (cognitivo). Para mim, essa pergunta geraldiana aponta para um projeto de estudos para o século XXI pensado nas frestas deixadas pelos estudos do Círculo de Bakhtin. Para além da arte, para além da ciência. Um re-olhar para a concretude da vida.

     

    Creio que um caminho a percorrer é precisamente aquele que nos apontam as relações atentas com a alteridade, porque elas nos permitem também, como a arte, escutar o estranhamento. As ações do outro, os dizeres do outro, prenhes de sua cultura, quando confrontados com objetos e fenômenos que nos escondem as valorações que nós mesmos lhes atribuímos, mostram-nos o que não mais conseguimos enxergar (Alteridades: espaços e tempos de instabilidades).

     

    Em “Problematizar o futuro não é perder a memória do que há de vir”, a defesa é filosófica. Uma crítica ao movimento de destruição do futuro e da supervalorização do presente-somente.

     

    Os Ombros Suportam o Mundo

     

    Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

    Tempo de absoluta depuração.

    Tempo em que não se diz mais: meu amor.

    Porque o amor resultou inútil.

    E os olhos não choram.

    E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

    E o coração está seco.

     

    Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

    Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

    mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

    És todo certeza, já não sabes sofrer.

    E nada esperas de teus amigos.

    Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

    Teus ombros suportam o mundo

    e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

    As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

    provam apenas que a vida prossegue

    e nem todos se libertaram ainda.

    Alguns, achando bárbaro o espetáculo,

    prefeririam (os delicados) morrer.

    Chegou um tempo em que não adianta morrer.

    Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

    A vida apenas, sem mistificação.

    Carlos Drummond de Andrade

     

    Em nome dos deslizamentos constantes, dos movimentos sem direções, propõe-se um radical desmantelamento de valores das origens, fazendo entender que o questionamento de essências fundantes implica estancar qualquer memória de futuro próximo. À recusa do exercício de uma subjetividade racional, crítica e consciente se soma a recusa da construção de formas de convívio capazes de incorporarem em sua arquitetura as instabilidades dos seres humanos, as suas múltiplas personalidades potenciais e suas condições de possibilidade de produzir acontecimentos ou reagir a acidentes que lhes sucedem. Para recusar a fixidez das origens, deitam-se fora água e bebê recusando-se também a utopia de um futuro humanizado e humanizante (Problematizar o futuro não é perder a memória do que há de vir).

     

    Compreendo nesse texto uma crítica à eterna fluidez pós-moderna: nenhuma ancoragem, nenhum acabamento provisório que permitisse o levantar das cabeças e o olhar para frente, a fim de vislumbrar horizontes de possibilidades. Paulo Freire e Bakhtin são trazidos para compor os andaimes da defesa de um futuro e de um passado sempre em movimento, construídos e modificados constantemente no processo de “pilotagem” do presente.

    Para nos tirar do lugar de “surfistas”, sempre carregados para as direções em que a onda-agora nos leva, Geraldi investe na questão do tempo, porque esta é fundamental para repensar as subjetividades na contemporaneidade. Ou, ainda, pensar que as subjetividades não são imutáveis, mas que são unidades, mesmo que provisórias. Trata-se de uma tentativa de cavar uma terceira via bem ao estilo bakhtiniano, entre uma modernidade abstrata que idealizou o sujeito e uma pós-modernidade que aguou qualquer possibilidade de tomada de posição frente ao passado e ao futuro. Busca-se aqui defender que existe, sim, movimento, mas sem recusar pontos de ancoragens. E busca-se isso na linguagem:

    A linguagem não funciona nem sobre a permanência dos recursos expressivos, nem sobre a criação ininterrupta que não produz história. Por isso a linguagem é uma atividade constitutiva de si mesma, uma sistematização em aberto, produto do passado e projeção do futuro. Talvez possamos extrair deste modo de funcionamento uma primeira lição: nenhuma sociedade é uma estrutura em cujo movimento temos que nos inserir, mas uma arquitetura que demanda enunciações singulares a cada momento histórico em que o que se repete muda de sentidos e o que se altera adquire sentidos no que se repete. Indeterminação com história, movimento com futuro (Problematizar o futuro não é perder a memória do que há de vir).

     

    O que aprendo com esse texto é o mesmo que aprendo com a insistência do poeta em fazer, mesmo dizendo que não o fará.

     

    Mãos dadas

     

    Não serei o poeta de um mundo caduco.

    Também não cantarei o mundo futuro.

    Estou preso à vida e olho meus companheiros.

    Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

    Entre eles, considero a enorme realidade.

    O presente é tão grande, não nos afastemos.

    Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

     

    Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

    não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

    não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

    não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

    O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

    a vida presente.

    Carlos Drummond de Andrade

     

    Sobre a questão do sujeito” é um texto sobre a questão do sujeito. Direto, pontual, reflexivo, sem tentativas de definições.

    De início, na “Introdução que vale como nota prévia”, Wanderley dá um aviso:

     

    Ainda que este texto tenha sido escrito para um livro com estudos bakhtinianos, apresso-me a registrar que estas anotações não pretendem dizer o que realmente Bakhtin e seu Círculo disseram. Em meus estudos dos textos do Círculo procuro extrair uma forma de pensar e assumo que, acompanhando a teoria tal como a compreendi, nenhum leitor comparece aos textos desnudado de suas contrapalavras de modo que participam da compreensão construída tanto aquele que lê quanto aquele que escreveu, com predominância do primeiro porque no diálogo travado na leitura o autor se faz falante e se faz mudo nas muitas palavras cujos fios de significação reconhecidos são reorientados segundo diferentes direções impostas pelas contrapalavras da leitura (Sobre a questão do sujeito).

     

    A citação acima também vale como uma nota prévia, antes de entrar especificamente sobre o tema do texto. Não somente pelo conteúdo, mas pela noção de leitura exposta no excerto: Leitor ativo, divisão de responsabilidades para com a compreensão, responsabilidade e humildade por assumir as vozes do autor dentro das suas próprias vozes, a leitura como interlocução.

    Trata-se também de uma posição específica assumida pelo leitor de Bakhtin que é Geraldi. Ao assumir a relação dialógica e de responsabilidade para com o que lê nas obras de Bakhtin, expõe de forma explícita aquilo que não faz, aquilo que nunca procurou fazer desde que tomou o pensamento do Círculo como um dos principais interlocutores: exegese.

    Ao assumir não acreditar que “uma teoria explícita do sujeito tenha sido exposta em qualquer das obras do Círculo”, Geraldi revela uma coragem específica para não fugir de compreensões de sujeito que têm sido escondidas para debaixo dos tapetes dos estudos da linguagem contemporâneos, e as encara dialogando com o que elas têm de “melhor” e de “pior”.

    O “sujeito é responsável e respondente”, porque responde e se responsabiliza, não porque é uno e racional, mas porque está sempre em diálogo, porque está sempre “em processo de ser”. O “sujeito é consciente”, e a “consciência tem sua materialidade própria nos signos”, e “os signos somente emergem do processo de interação”; assim, “a consciência não é o ponto de partida, mas sim pontos de estadas momentâneos, incessante e ativamente instabilizados pela ação responsável”. O “sujeito é incompleto, inconcluso e insolúvel”, porque:

     

    Deste movimento contínuo entre o eu e o outro, em que eu vivencio minha vida de dentro e o outro me dá completude do exterior, infere-se que os acabamentos ou as identidades serão sempre múltiplas no tempo e no espaço, pois a relação nunca é com somente um e mesmo outro e a vida não se resume a um e sempre mesmo tempo (Sobre a questão do sujeito).

     

    O “sujeito é datado”, pois há “entrelaçamento entre passado, presente e futuro que se realizam concretamente num espaço historicizado pelo tempo”.

    E eu vou me perdendo e ficando fora do comando do meu próprio texto, na medida em que as vozes de Geraldi e Bakhtin se entrelaçam melhor sozinhas:

     

    Ser datado e situado limita as condições de nossa constituição em sujeitos, mas por participarmos da construção do grande tempo da humanidade, deixamos hoje rastros do passado no que será futuro. Por isso, (Sobre a questão do sujeito).

     

    A atitude humana é um texto em potencial e pode ser compreendida (como atitude humana e não ação física) unicamente no contexto dialógico da própria época (como réplica, como posição semântica, como sistema de motivos) (BAKHTIN. In: Sobre a questão do sujeito)

    A noção de sujeito geraldiana o acompanha durante a vida e está presente em suas obras escritas e suas ações como professor e pesquisador atuante na sociedade. O sujeito geraldiano “não é um sujeito cartesiano. E por isso está fora do comando. Este é um sujeito que é história junto com a história de outros. Ou, para deixar falar Bakhtin,…”

     

    O mais alto princípio arquitetônico do mundo real do ato realizado ou ação é a contraposição concreta e arquitetonicamente válida ou operativa entre eu e o outro. A vida conhece dois centros de valor que são fundamental e essencialmente diferentes, embora correlacionados um com o outro: eu e o outro; e é em torno desses centros que todos os momentos concretos do Ser se distribuem e se arranjam (BAKHTIN. In: Sobre a questão do sujeito).

     

    Já me arrisco, portanto, colocar esse livro do Geraldi em alguns lugares específicos:

     

    • É um livro teórico. E aqui ele apresenta os principais fundamentos para um novo pensamento sobre linguagem, sobre sujeito e sobre história. Faz-se necessária a observação de que o Geraldi, como autor e estudioso, sempre teve um cuidado-coragem especial com essa coisa de teoria. Um cuidado-coragem que lembra muito o descrito por Clark e Holquist, no livro “Mikhail Bakhtin”, ao alegarem – metaforicamente – a possibilidade de Bakhtin ter tido um terceiro ouvido (referência em tom de brincadeira ao terceiro olho do budismo tibetano), um que lhe permitiria ouvir diferenças lá onde outros percebiam apenas mesmices:

     

    Essa percepção o levou a repensar os modos pelos quais tradicionalmente foi atribuída à heterogeneidade a aparência de unidade. Em suas diversas tentativas de encontrar um único nome para a variedade, tais como heteroglossia ou polifonia, deu-se ao trabalho de nunca asfixiar por completo o papel energizador do paradoxo e do conflito que estava no coração de sua empreitada. Sempre buscou o grau mínimo de homogeneização necessário a qualquer esquema conceitual. Empenhou-se em preservar a heterogeneidade que pensadores menos escrupulosos ou pacientes julgaram amiúde intolerável e à qual se apressaram, como consequência, a consignar um rótulo unificador. Uma paciência assim, como a de Bakhtin, em face de uma multiplicidade que ameaça iludir até as mais elásticas categorias, é o seu próprio tipo de coragem. (…) Essa sensibilidade para a variedade coloca uma carga a mais sobre aqueles dentre nós que procuram achar um desígnio abrangente na própria obra de Bakhtin. Cumpre-nos aprender a caracterizar seu pensamento continuando a atentar a sua constante injunção para que resistamos à finalização.

     

    Clarifica-se, principalmente com a última parte da fala de Clark e Holquist, o tipo de cuidado-coragem implícito nas empreitadas geraldianas: resistir à finalização, não porque as coisas não teriam fim, mas porque o fim deveria ser sempre provisório e dado pelo outro.

    Agora podemos aprender com esse cuidado nessas múltiplas ancoragens: acabamentos provisórios que permitem o levantar da cabeça e o olhar para frente. Quando a âncora bate no fundo o navegador sabe que aquele é apenas um ponto de estada momentâneo – portos de passagem –, onde a fixação provisória serve para a contemplação de horizontes de possibilidades que balançam em ondas incessantes de futuro.

    • É um livro filosófico. E aqui somente se discute com os grandes pensadores e somente sobre os grandes temas. E se discute com estilo, ou como diria Barthes, se é a costura do texto que importa e a escritura é a maneira como o escritor demonstra que o texto que ele escreve deseja o leitor, a tessitura filosófica geraldiana é uma das que mais aguça meu paladar.
    • Os textos possuem uma característica comum: partem de perguntas. Nunca, no entanto, objetivam respostas exaustivas. E se o momento atual é o de “retornar às perguntas”, isso é o que mais se faz nesses textos.

     

    Haveria uma palavra assim despida, com que inaugurar uma mensagem sem com ela carregar o peso do vivido? (Mensagem aos leitores que vão nascer)

     

    cada poema

    uma ancoragem

    uma ideia

    outro poema

     

    um texto fala

    um texto carta

    uma mensagem

    um discurso

    um pedido

     

    uma fala ancorada

    muitas ancoragens

     

    em poetas

    em músicas

    para pensar o teórico e a vida

    ancoragens máquinas

    dedos que dançam sobre um teclado

    letras se deixam enfileirar

    mas não se enfileiram sozinhas

     

    Drummond?

    Victor Hugo?

     

    Quem retomará o canto que se costurará a outros tantos cantos para fabricar um amanhã? (Mensagem aos leitores que vão nascer).

     

    Vinícius de Moraes?

    Brecht?

     

    Podemos deixar mensagens aos que vão nascer, além do pedido de simpatia? Talvez tenhamos que reconhecer que nossos tratados foram sempre sobre a grandeza, e esquecemos ‘as grandezas do ínfimo’. Se uma mensagem há, ela poderia ser composta pela costura de duas vozes: (Mensagem aos leitores que vão nascer).

     

    Primeira voz: (Teologia do Traste. Manoel de Barros).

    Segunda voz: (Canto para as Transformações do Homem. Moacyr Félix).

     

    Eis a minha mensagem aos leitores do Geraldi que vão nascer:

    Ouçam!

    Costurem!

    [1] Agradeço especialmente a Jauranice Rodrigues Cavalcanti e a Marina Célia Mendonça, organizadoras do 6º número da Web-Revista Discursividade – Estudos Linguísticos. O texto pode ser lido em http://www.discursividade.cepad.net. br/atual/Arquivos/COVRE.pdf.