LITERATURA, POESIA, CULTURA E ROMANCE

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  • Sons da caminhada

    R$30,00

    Apresentação

    A pandemia fez com que Helena começasse a caminhar como forma de suportar as pressões impostas pela Covid-19 e seu consequente distanciamento social. Em meio a um período de grandes mudanças em sua vida pessoal, ela se viu forçada a se adaptar também às novas regras oferecidas pela tecnologia para que a rotina de trabalho continuasse, agora remotamente, e os relacionamentos se mantivessem pulsantes, numa troca importante de informações, notícias e manifestações de afeto. Tal relação se viu mediada por sistemas e equipamentos cheios de caprichos e “enigmas” que, para os não iniciados, exigiam um tempo maior para serem decifrados.

    Esse livro surge nesse contexto, como uma maneira de aliviar as saudades, de estimular questionamentos, de fugir do sedentarismo e, acima de tudo, como forma de tentar entender esse momento assustador pelo qual o planeta tem passado. Como a própria autora diz, talvez a pandemia tenha vindo como uma forma de a Terra nos dizer que precisa de um tempo de refazimento, nos convidando a fazer o mesmo.

    Com tantas preocupações gritando em sua mente e sem ter com quem partilhá-las presencialmente, sob os reflexos da liberdade cerceada, Helena viu no caminhar solitário uma alternativa para aliviar a pressão interna de sua cabeça e também para movimentar seu corpo, enclausurado agora quase que o tempo todo no ambiente doméstico.

    Inicialmente de forma tímida e até desesperada, esse seu ato aos poucos foi ganhando cadência, frequência, fôlego. E, com a sensibilidade aflorada de sua mente sempre inquieta, ela logo percebeu que, ao caminhar, tinha uma ideia mais clara das vozes internas que “dialogavam” com ela no ambiente mental. Ela notou também que, durante esse seu flanar, outros sons poderiam invadir sorrateiramente sua mente, possibilitando-lhe algum respiro imaginativo e uma maneira de perceber o outro, mesmo que à distância, trabalhando esses vários sons em sua incansável oficina de ideias. Assim, por exemplo, das frases ditas por certa menina, também confinada em uma sacada qualquer, e que anuncia ser “dona do mundo”, Helena traça uma história, “viaja” numa fábula que se desenrola a cada passo, vislumbrando como o nosso planeta seria melhor se realmente pertencesse às crianças.

    E é nesse quase sussurro do mundo que ela começa a enxergar alguma esperança num novo contexto pós-pandemia. Dessa forma, consegue se aproximar em pensamento das pessoas que ama, de seus alunos, dos locais tão queridos de atividade cotidiana e percebe-se diante de uma porção de caminhos novos que, com um pouco de esforço e imaginação, conseguirá trilhar cheia de vida. Cabe aqui uma confissão minha: torci realmente para que a autora não aderisse aos fones de ouvido em seu caminhar, algo que poderia mascarar seus diálogos internos, nem sempre harmônicos, mas sempre francos e verdadeiros.

    É bem provável que o passo mais difícil de qualquer caminhada seja o primeiro. E Helena, nessa sua obra, não demonstra a receita de um caminhante resoluto, intrépido e experiente, mas revela uma mulher que também vacila nessa decisão solitária de vestir um tênis e sair para explorar a área externa de seu condomínio durante a pandemia, tendo sua convicção por vezes abalada por estados alterados de ânimo ou por uma chuva que insiste em cair numa tarde qualquer no ABC paulista, minutos antes do seu caminhar.

    Ler esse livro jamais será um ato solitário, pois essa obra surge como um companheiro de caminhada que, ao nosso lado, torna-se confidente, treinador, amigo, ouvinte atencioso… São páginas com as quais nos identificamos, sobretudo nesse período delicado que vivemos, e cada capítulo lido é uma espécie de trecho conquistado, algo que sempre nos prepara para o quilômetro seguinte, com suas reflexões e infalíveis surpresas. Cabe aqui outra confissão: ao perceber essa epopeia do caminhar de Helena, fico com pena de sua tão desejada samambaia. Pois esta tem de observar tudo do mesmo local, sem se deslocar alguns centímetros sequer, cumprindo o papel de ouvinte atenciosa da autora, que agora reparte com ela todas as suas impressões colhidas em seu deslocamento cotidiano pelo condomínio, parques e ruas da cidade.

    Helena, com toda a energia que emprega há anos na Educação, sabe que esse seu início na caminhada não é o início, mas a intensificação de um caminhar que já vem de longe, superando solos escorregadios, arenosos, repletos de obstáculos, os quais ela vem trilhando e superando com a convicção das grandes almas dedicadas à luta de tornar esse mundo melhor a partir da Educação.

    Nessa obstinação, Helena, por vezes, pode até se sentir sozinha, mas jamais estará só, pois, dentro de sua cabeça, ouve palavras de gratidão daqueles que já conseguem ir mais longe porque ela lhes mostrou o caminho. A autora, mais do que caminhar, ensina primeiramente seus pupilos a ficarem de pé para, em seguida, darem os primeiros passos num ato de coragem rumo à liberdade do ser através do autoconhecimento. E ela sabe que cada um deles ouve dentro de si a voz firme sempre a dizer: “Persistam, pois vale a pena esse seu caminhar”.

    Então, é hora de amarrarmos firme o cadarço do tênis, abrirmos os nossos ouvidos internos e externos e seguirmos com Helena nessa caminhada, na qual aprenderemos a ser passageiros de nós mesmos, numa viagem gratificante para dentro do que somos, de verdade.

     

    Antonio Rogério Cazzali 

     Jornalista, Professor de Fotografia e amante da corrida solitária, seu momento de reequilíbrio físico, mental e emocional.