ISBN: 978-65-86101-47-8
eISBN: 978-65-86101-48-5

Autor/Organizadores: Ana Cláudia Bortolozzi; Mirela Bosco; Leilane Raquel Spadotto de Carvalho

APRESENTAÇÃO

Mirela Bosco

Novas discussões surgem como desdobramento da pós-modernidade e da globalização, assim é para todos os âmbitos, inclusive ao que diz respeito à sexualidade humana. Como consequência, as temáticas ganham maiores proporções e mais espaço de pensamento, diálogo e compreensão, como é o caso de gênero, conhecidamente abordado por Simone de Beauvoir em sua obra “O Segundo Sexo”, com a emblemática frase “Não se nasce mulher: Torna-se”. Os debates ampliaram-se e promoveram um novo olhar sobre o papel da sociedade na construção de um gênero binário e enrijecido em expectativas e determinações para o que seria esperado para o gênero feminino e masculino.

Partimos, com isso, da crítica dos padrões de gênero definidos de forma essencialista, a partir de um corpo biológico que é nomeado pelo “sexo” ao nascimento como sendo de “homem” ou de “mulher”, implicando na construção de uma pessoa que deve manifestar comportamentos socialmente determinados como coerentes com o que seria a expressão de sua “feminilidade” e “masculinidade”, como por exemplo a submissão feminina e a virilidade masculina tanto no âmbito e vivência social quanto sexual. Parte, com isso, de uma lógica binária que, além de considerar apenas dois espectros de um fenômeno extremamente amplo como a sexualidade humana, privilegia e assegura vantagens para aquele que é designado como homem e desvantagens para aquele que é designado como mulher.

Pessoas que nascem com um corpo biológico considerado masculino e se sentem homens ou nascem com um corpo biológico considerado feminino e se sentem mulheres, são consideradas “cisgêneras”. No entanto, há indivíduos que não se identificam com o gênero de nascença e com os papéis sociais atribuídos e transcendem a classificação inicial. Dizem ao mundo que não são (e não sentem ter a identidade de gênero que lhes atribuíram por ter um pênis ou uma vagina. Em alguns casos, realizam a cirurgia de resignação sexual para se adequarem a como, de fato, se sentem e são entendidas como pessoas “transgêneras”. Há ainda aquelas que subvertem a norma e a polarização, como o caso dos “não-binários”, que não se identificam com os papéis sociais exclusivos de um gênero, seja o masculino ou feminino e podem transitar entre ambos ou romper com os mesmos.

Diálogos como esses fazem parte das discussões das reuniões de estudo do Grupo de Estudo e Pesquisa em Sexualidade, Educação e Cultura (GEPESEC), composto por discentes de graduação e pós-graduação. Também são conteúdos que fazem parte, além de outros, da disciplina ministrada pela Professora Associada Ana Cláudia Bortolozzi, chamada Desenvolvimento e Educação Sexual, do Curso de Psicologia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, da Faculdade de Ciências, campus de Bauru, em que participei como colaboradora em ações de estágio docência, na qualidade de mestranda de pós-graduação e sua orientanda.

Nessa disciplina, os (as) alunos (as) têm acesso aos conteúdos teóricos, discussões e reflexões importantes sobre a sexualidade humana e a educação sexual no desenvolvimento humano: infância, adolescência, idade adulta e velhice em uma sociedade inclusiva, e a produção de seus textos de análise de mídias no ano de 2018 resultaram nos livros “Leituras sobre a Sexualidade em Filmes- Volume 1 e 2, da Coleção Sexualidade & Mídias. O Volume 3, organizado por Mary Yoko Okamoto e Brun
Bortolozzi Maia, “Leituras sobre a Sexualidade em Filmes: Psicanálise e vínculos”, apresenta a contribuição de acadêmicos do campus da Unesp de Assis, em uma vertente específica, a psicanalítica.

As análises dos (as) alunos (as) produzidas na disciplina Desenvolvimento e Educação Sexual no ano de 2019, no campus de Bauru, dando sequência a coleção, irão compor o Volume 4 e 5. O Volume 4, organizado por Ana Cláudia Bortolozzi, Tamires Giorgetti Costa e Leilane Raquel Spadotto de Carvalho “Leituras sobre a Sexualidade em Filmes: corporeidades e padrões sociais”, traz discussões a partir de diferentes abordagens teóricas, tendo em comum uma “compreensão da sexualidade como ampla, social e historicamente construída” (MAIA, 2010). Na mesma direção, apresento este Volume 5, “Leituras sobre a Sexualidade em Filmes: feminilidades, masculinidades e transgeneridades”, que conduz a temática à construção social de gênero e a repressão sexual, como podemos ver nos diferentes capítulos.

No Capítulo 1, Censura enrustida: como The Dragon Prince e Voltron perpetuam a morte aos gays para os públicos infantis da Netflix, da autora Letícia Duarte da Silva, no Capítulo 2, The Handmaid’s Tale: gênero e repressão sexual, dos autores Camila Freitas Barros, Clara Mascarin de Souza e Maria Julia Martielo e no Capítulo 8, Jane The Virgin: discussões sobre o tabu da virgindade e a repressão sexual, dos autores Camila Gabriela Marques de Assunção Renzi e Daniel Bueno Donadon, há a discussão sobre a repressão sexual, enquanto uma regra social que determina, impõe padrões sociais e provoca consequências diferentes nos indivíduos que estão à margem do que é posto como exemplo a ser seguido, como é o caso dos homossexuais e das mulheres personagens das obras acima.

No Capítulos 4, Easy rider: Discussões sobre liberdade sexual, dos autores Fabrício Ephraim Gusmão Renzi e Kelvyn Zanoni Fonseca, no Capítulo 5, Superbad – reflexões sobre padrões de masculinidade: um ideal em questão, dos autores Pedro Iasi e Gabriel Della Negra e no Capítulo 10, Eu não sou um homem fácil: reflexões sobre a objetificação da mulher na sociedade patriarcal, dos autores Amanda Telles Albertoni, Camila Kaori Abe, Gabriela Uchôa Barcellos, a temática emergente é sobre as masculinidades que mais recentemente tem sido pensadas a partir de uma perspectiva saudável, afastando-se do modelo tóxico, promovendo uma criticidade em relação aos privilégios sociais que “ser homem” garante, propondo novas formas de exercer o masculino.

Por outro lado, no Capítulo 6, Meninas Malvadas: reflexões sobre estereótipos e rivalidade feminina, de autoria de Camilla Schultz, Gabriela Pinto Braga e Vitória Oliveira Ferreira e no Capítulo 9, Miss representation: os impactos da mídia na representação das mulheres, de Camila Sanches Guaragna e Isabela Ramalho Negrinho, as questões das feminilidades aparecem como resultado de uma mídia que dita a beleza padrão (inalcançável) a ser seguida a qualquer custo e incentiva, assim, a competitividade entre as mulheres dentro da sociedade.

Por fim, no Capítulo 3, Tomboy: um olhar para crianças transgêneras, dos autores Gabriel Elias, Letícia Fiuza Canal e Vinícius Ramalho e no Capítulo 7, Minha vida em cor-de-rosa: reflexões sobre transgenitalidade na infância, de Carolina Carvalho de Oliveira, Henrique Souza Reis e Isadora de Martino Prata, as transgeneridades mostram a existência de uma identidade de gênero nãonormativa desde a infância e o sofrimento que um olhar social engessado acarreta a quem não se percebe da forma que foi taxado ao nascer, seja masculino ou feminino.

Desejo, portanto, uma boa leitura, e que a cada capítulo possamos repensar os ideais sociais postos a fim de exercemos livremente, de modo mais benéfico e satisfatório, as feminilidades, masculinidades e transgeneridades existentes em cada um de nós!