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  • A Pedagogia Social na perspectiva bakhtiniana: um encontro dialógico

    R$35,00

    APRESENTAÇÃO

    O debate na cena educacional brasileira tem suscitado questões sociais que extrapolam o âmbito escolar e nos desafiam constantemente para pensarmos uma sociedade e um mundo menos desigual e mais inclusivo, no qual os direitos humanos sejam realmente uma conquista de grupos plurais, em suas especificidades e contradições, alinhadas a uma visão de mundo que contribua para um pensar mais crítico e participativo em sua transformação.
    Nesse contexto pandêmico que nos acompanha há quase dois anos, no Brasil e no mundo, novas configurações sociais têm se apresentado em nossa convivência e atuação no contexto concreto em que nos relacionamos, seja na família, seja no ambiente profissional, seja na escola ou em atividades culturais, nossa forma de compreender o mundo se ampliou também para novas concepções de tempo e de espaço, em razão das novas tecnologias digitais e novas formas de comunicação e interação verbal que se consolidam entre nós.
    A Pedagogia Social, como ciência da Educação Social, é uma matriz teórica que nos convida à reflexão dos processos político-sociais que têm causado a segregação, o desrespeito à vida e à condição humana, o desamparo a grupos ainda marginalizados em nosso contexto, além de outras evidentes distorções que têm apartado do convívio social, da cultura e do movimento da história, sujeitos desamparados pelo poder público.
    Em que sentido, portanto, seria possível um diálogo entre os pressupostos teóricos da Pedagogia Social e a arquitetônica bakhtiniana, em sua ênfase nas relações dialógico-polifônicas que se instauram em nossa pluralidade discursiva? Esta e outras questões foram trazidas à baila, durante o nosso curso da disciplina “Tópicos especiais em estudos do cotidiano e educação popular: contribuições de Bakhtin e do Círculo à Pedagogia Social”, durante o primeiro e o segundo semestre de 2021, materializadas aqui em textos produzidos pelos mestrandos e doutorandos da Faculdade de Educação, da Universidade Federal Fluminense, em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo – Campus Vitória.
    Desse modo, percorremos algumas categorias conceituais básicas atinentes ao campo teórico do filósofo russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin e do círculo de intelectuais com o qual conviveu na Rússia, buscando sempre uma possibilidade de interlocução com a Pedagogia Social, em sua perspectiva social e inclusiva do homem, em sua capacidade de se expressar e se posicionar no mundo de forma ética, responsável e responsiva.
    Não pretendemos responder todas as questões que nos afligem e nos afetam, nesses tempos tão difíceis, de pouca tolerância, do estímulo ao individualismo e da exacerbação de discursos preconceituosos em algumas vozes que circulam na esfera social, mas certamente esse primeiro movimento de aproximação entre esses campos teóricos poderá nos provocar com novas reflexões sobre a vida em coletividade e o que dela pode-se realmente potencializar para o fortalecimento da docência, da escola e das relações humanas de modo geral.
    Boa leitura!
    As organizadoras

  • As crianças também aprendem: o papel educativo das pessoas adultas na educação infantil

    R$45,00

    INTRODUÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA

    Este volume, traduzido e ampliado para o público brasileiro da edição original italiana de 2019, nasce da ideia de que o encontro entre pontos de vista diversos sobre a educação infantil seja, hoje mais que nunca, um valor não somente e não tanto para testemunhar a riqueza da pluralidade em si, mas para originar mudança e perspectivas renovadas, práticas educativas inovadoras das quais em nosso presente nós assinalamos a necessidade. Diante da crise econômica e social agudizada pela pandemia, mas já em curso nas nossas comunidades globalizadas, lutando com os danos de um modelo de desenvolvimento do capitalismo avançado que produz injustiças, pobreza, exclusão, e reduz a mercadoria a própria vida sobre o planeta, a educação – e em particular a educação infantil – é fortemente chamada a tomar posição. Os paradigmas e os modelos educativos nascidos no século passado, penso particularmente no ativismo e no socioconstrutivismo, que até aqui têm orientado com sucesso o desenvolvimento de uma crescente atenção educativa em direção à infância e sobretudo em direção aos primeiros anos de vida, hoje não são mais suficientes para entrar em contato e para compreender as tensões e as contradições novas e específicas do nosso presente. A vida cotidiana das crianças é marcada pela emergência sempre mais evidente de fenômenos que assinalam a pluralidade cultural em outras dimensões: nas diferenças em todas as suas manifestações sobre o plano das identidades e das escolhas éticas e valorativas, na comunicação digital e nas tecnologias que questionam a relação entre o humano, a natureza e a cultura.
    A educação, livre de fechamentos ideológicos e estereotipados, deve tomar posição para estar em relação ativa com esse nosso mundo, e com as tensões e as transformações que o estão atravessando, para incidir na direção do seu desenvolvimento. Isso envolve reconhecer a inadequação das categorias educativas as quais até agora vimos fazendo referência, para iniciar a busca de novos caminhos para pensar e praticar a educação infantil. Nesse sentido, afirmar, como acontece no rastro da tradição pedagógica ocidental, que “a criança está no centro”, buscando com isso ressaltar o empenho para uma educação de qualidade, respeitosa dos direitos dos meninos e das meninas, não só não basta mais, mas talvez exige ser atualizada, para não arriscar manter viva uma imagem da infância superada na e da realidade que, na sua complexidade, não funciona segundo lógicas binárias de centro/periferia, superior/inferior, norte/sul, masculino/feminino, branco/negro, indivíduo/ grupo. Talvez deveríamos iniciar a nos colocar o problema de pensar de outro modo as relações educativas entre o mundo adulto e o mundo da infância, construindo imagens e categorias menos rígidas, antagônicas e dicotômicas, mas abertas a lógicas processuais, horizontais e plurais, capazes de captar as passagens, as simultaneidades, as reciprocidades de relações profundamente interconectadas, que não podem ser lidas e ditas em uma perspectiva hierárquica e binária. Por isso, somos impulsionados a inovar nossos paradigmas em educação, movimentando profundos processos de mudança transformativa que, para iniciarem-se, têm necessidade de confronto crítico, diálogo e troca entre experiências, culturas e práticas educativas diversas. Por essa razão é preciosa a ligação que une pesquisadores, estudiosos e profissionais da educação infantil na Itália e no Brasil, e este volume pretende colocar-se como contribuição nessa direção, com o desejo que outras iniciativas possam ser geradas e ter desenvolvimento no futuro. Esse diálogo é, a meu ver, importante e vital para poder dar vida a formas de colaboração e intercâmbio em um eixo horizontal, certamente não na lógica na presumida superioridade pedagógica de um contexto (o italiano, do norte do mundo) sobre outro (o brasileiro, em baixo, ao sul).

    A crise de época que estamos vivendo nos convida a buscar novas práticas de relação mais equânimes, respeitosas e paritárias do que nos legou a experiência passada, superando a lógica da supremacia do norte sobre o sul, de uma etnia sobre a outra, do mundo adulto sobre o mundo da infância. No curso dessa perspectiva o volume oferece ao leitor um primeiro capítulo no qual o tema central é a construção de uma perspectiva crítica sobre a educação infantil.

    Refletindo sobre temas e problemas educativos inerentes ao contexto italiano, obtidos graças à observação e à comparação com algumas realidades brasileiras, tomam forma de modo novo núcleos de atenção e olhares sobre a relação educativa. Isto é, nascem perguntas a partir das quais iniciar um processo de questionamento crítico de algumas pressuposições fundantes, seja da cultura educativa da infância italiana, seja relativa ao esforço de compreensão da realidade brasileira.
    Os três capítulos sucessivos enfrentam por diversos ângulos o tema do papel do educador / educadora refletindo (capítulo dois) sobre as contradições, limites e possibilidades do panorama do zero a seis na Itália, sobre os processos de aprendizagem como experiências de partilha entre adultos e crianças (capítulo três) e sobre as profundas e intrínsecas conexões entre natureza, arte e ciência (capítulo quatro).
    No capítulo elaborado por Flavio Santiago é desenvolvida uma reflexão sobre as diferenças como tema central nos processos educativos na creche e na escola; por fim, no capítulo de Wenceslao Oliveira o cinema é proposto como linguagem de representação dos pontos de vista infantis e como compreensão da realidade educativa.
    O volume, no seu conjunto, sustenta uma ideia de educação como processo complexo em que, ainda que com papéis e poder diverso, tomam parte de modo ativo, seja o mundo adulto, seja o mundo da infância. As condições, as formas, os âmbitos, os conteúdos, bem como as regras dessas formas de participação entre adultos e infância estruturam, de modo mais ou menos explícito, a experiência educativa como fenômeno complexo, dinâmico, penetrado por contradições, fonte de perguntas e problemas para o nosso estar em pesquisa. Me agrada pensar que esse volume, cuja realização agradeço de coração a Flávio Santiago, precioso interlocutor crítico, e a Pedro & João Editores, por haver acreditado imediatamente com confiança no projeto, possa ser o início de um longo e amplo diálogo paritário, de troca crítica e dialética entre profissionais da educação entre Brasil e Itália, no qual todos e todas nós temos o que aprende.

  • ATLAS DE IMAGENS – História da educação e da escola. 2 volumes

    R$320,00

    UM LIVRO MUITO ESPECIAL

    ALT, Robert. Atlas de imagens: História da educação e da escola. São Carlos, Pedro & João Editores, 2021, 2 volumes.

    Trata-se de uma obra cuja particularidade é apresentar-se como uma história da educação abundantemente ilustrada, desdobrada em dois volumes, sendo que o primeiro volume abrange “desde as primeiras relações sociais até as vésperas da revolução burguesa”; e o segundo volume cobre o período que se estende da Revolução Francesa ao século XX. Dessa forma, iniciando-se com a abordagem da educação nas sociedades pré-históricas mostra, contudo, pelas imagens selecionadas, como essa forma de educação, dita primitiva, subsiste, ainda, em nossa época em diferentes regiões do planeta.

    Quero, então, nessa oportunidade, parabenizar o Professor João Wanderley Geraldi que, em parceria com o Prof. Bernd Fichtner, enfrentou a árdua tarefa da tradução do alemão para o português disponibilizando, assim, para os professores brasileiros esse importante instrumento para subsidiar suas aulas com um abalizado conhecimento da história da educação e da escola enriquecido com eloquentes imagens.

    Recomendo, pois, vivamente a leitura e o estudo desse precioso livro de Robert Alt a todos os professores do nosso país.

     

    São Paulo, 15 de dezembro de 2021.

    Dermeval Saviani,

    Professor Emérito da UNICAMP, Pesquisador Emérito do CNPq e Professor Titular Colaborador Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNICAMP.

     

  • ATLAS DE IMAGENS – História da Educação e da Escola. 2 volumes.

    R$320,00

    Atlas de imagens – História da Educação e da Escola

    Para compor este Atlas, o educador alemão Robert Alt realizou uma façanha: encontrar e selecionar imagens, escrever legendas-comentários, num espaço de tempo que vai desde as primeiras relações sociais até a Primeira Guerra Mundial (com algumas páginas sobre a Revolução de Outubro e a sociedade soviética – muito provavelmente um acréscimo necessário à edição da obra). Robert Alt viveu na Alemanha e depois da Segunda Guerra Mundial, viveu em Berlim oriental, tendo exercido cargos na área da educação.

    O esforço, em tempos em que não havia internet, deve ter sido ingente para obter um resultado assim surpreendente. São centenas de imagens distribuídas em dois volumes, passando pela Antiguidade, pela Idade Média, chegando ao Séc. XX. Um panorama que desconhece fronteiras.  O leitor especialista encontrará aqui um conjunto de portas pelas quais pode entrar para desvendar outros mistérios. O leitor não especialista terá a vantagem de olhar para o detalhe a cada imagem e sua legenda-comentário e ao final obterá uma visão panorâmica da história da educação. Não é pouco!

    Encontrei os dois volumes vasculhando a biblioteca do Prof. Bernd Fichtner, quando estava na Universidade de Siegen com bolsa de pesquisa concedida pelo DAAD, ao mesmo tempo em que participava de Seminários no programa internacional de doutorado em educação (INED). Imediatamente fui tomado pela obra. E propus a tradução, imaginando que esta obra poderia incentivar pesquisadores brasileiros a realizarem algo semelhante sobre a nossa história da educação e da escola.

    Nilda Alves aceitou associar-se a esta empreitada escrevendo um prefácio que é ao mesmo tempo um ensaio, mostrando aa múltiplas leituras que uma obra assim concebida pode proporcionar segundo os interesses e perspectivas teóricas do leitor.

    Valdemir Miotello aceitou ser o editor – eis outro desafio. Não é uma edição fácil: muitas imagens do original de Alt estão borradas ou esmaecidas. O trabalho técnico tentou apresentar um resultado satisfatório (mas nem sempre aquele desejado porque era impossível refazer a pesquisa para encontrar as fontes, também elas secundárias).

    É uma alegria ver Robert Alt soar em português.

    João Wanderley Geraldi

  • Cartas na ventania

    R$25,00

    Um bilhete

     

    Nathercia, olá!

     

    O desejo fincado de dizer a palavra própria parece que está aumentando. É a vitória sobre o medo de dizer a palavra. Esse medo revela o medo de ser humano. Temos que vencer o medo. Como dizia Paulo Freire, temos medo da liberdade. Como pode a gente ter medo de ser livre, medo de não ser oprimido… Como pode um humano não querer ser livre! Que força estranha e medonha é essa que arranca de dentro de um humano esse desejo de ser humano, de ser livre, de não ser oprimido, de poder dizer sua palavra, de viver sua vida na relação livre com outras vidas! Que força medonha é essa!!!

    Dizer a palavra! É assim que vejo esse trabalho presente nesse livro de responder e trocar palavras no grande tempo… recebeu uma palavra lá atrás, na lonjura… e essas palavras duram, ficam vivas ou vivem sua ressurreição… e a circulação renovadora põe ainda as vozes que estão nela pra produzir sentido no hoje… é o grande tempo vivo… é o encontro com a ancestralidade… e encontro com o futuro, onde no hoje as memórias do futuro fertilizam as memórias do passado! Vale a pena! Vale a pena sacudir o pó do tempo e fazer novamente a palavra circular…

    Palavras valem. Elas são portadoras dos valores que fazemos penetrar nelas, como nosso projeto de dizer, de nossa luta de ser, ser mais nas palavras de Paulo Freire… palavras levam ao outro nosso jeito de viver, de ver o mundo, de tomar postura diante dos eventos…

    Palavra não deve ter dono, não tem proprietários, não pode ter um sentido único. Quando ela penetra tua alma, ela já vem com outras vozes dentro dela, e ela se transforma em uma palavra tua, mas não pra te adonares dela, mas pra que ela seja tua arma de luta. E uma luta por todos que já habitam nessa palavra… com essa palavra poderosa vais ao encontro de outras palavras… pensando assim, logo vemos que a palavra nasceu pra ser livre. Não brigo pela liberdade da imprensa, mas pela liberdade da palavra. Normalmente quem briga pela liberdade da imprensa quer aprisionar a palavra; quer fazer ela circular com sentidos únicos, controlados, dominados. Sentidos dominados por quem já domina a sociedade. Nossa briga tem que ser pela liberdade da palavra, pelos sentidos vários das palavras. Ela é livre… ela anda, circula, vai de um em um, se encharca de vida, engravida… palavra é ligeira, busca o encontro com outra palavra, é pra ser usada, enunciada, cantada, sussurrada, escrita, falada, copiada, plagiada… palavra é livre… palavra não tem dono…

    Então… vamos dizer nossa palavra… assim ela vira logo palavra de outro, mais larga, mais profunda, com mais camadas de vozes… libertárias…

    Viva Paulo Freire!!! Viva a palavra!!!

     

    Miotello

  • Curso de semântica argumentativa

    R$70,00

    Apresentação da edição em língua portuguesa

     

    É com enlevo que apresentamos o Curso de Semântica Argumentativa à comunidade lusófona, aos leitores do português europeu e aos leitores do português brasileiro.

    No que tange à construção da obra no original francês, o Cours é fruto de dois anos e meio de trabalhos em sete países distintos – Brasil, Argentina, Bélgica, França, Japão, Espanha e Itália. De caráter fortemente internacional, a obra é marco raro de magnitude singular, porque ilustra minimamente três relevâncias: uma relevância político-científica, ao unir pesquisadores distantes e distintos que trabalham a Semântica Argumentativa, às suas maneiras; uma relevância didática, por se significar enquanto instrumento basal para aulas sobre Linguística, Semântica, Pragmática, Enunciação, Semântica Argumentativa, Análise de Discurso e correlatas, ao redor do mundo; e uma relevância histórica, pelo valor epistemológico que a obra condensa, ao atualizar uma área de estudos que se iniciou no final dos anos sessenta – a semântica argumentativa – e que, atualmente, é trabalhada na maior parte do mundo. O teor histórico da presente obra se dá na insistência em imbricar momentos anteriores e atuais, sempre pela perspectiva de autores de alta envergadura na matéria, muitos deles de papel determinante no desenvolvimento da Semântica Argumentativa.

    Já no que tange à tradução da obra, para a língua portuguesa, o Curso é resultado de intenso esmero de uma equipe de tradução com notório preparo técnico e linguístico, versada tanto no conhecimento avançado da teoria em tela, quanto no histórico e evolução do acervo da referida teoria, a Semântica Argumentativa. E por se tratar de uma tradução, algumas palavras sobre esse processo são aqui pertinentes.

    Para além de um método de tradução que converte estabilidades convencionais entre si, foi critério indesviável para a tradução desta obra debruçar-se sobre o exercício hercúleo de (tentar) preservar os fenômenos linguísticos/enunciativos em discussão, que outrora descritos e narrados por uma deontologia francesa (e não apenas a língua francesa), agora, tornaram-se descritos e narrados por uma deontologia brasileira (e não apenas a língua portuguesa). Afinal, a tradução é também uma descrição da enunciação. Portanto, o cuidado-base foi preservar o que é próprio da enunciação, ao traduzir.

    Além deste primeiro critério-base, o cuidado com o que é próprio da enunciação, ao traduzir, os tradutores ocuparam-se, detidamente, com o cuidado com o que é próprio da língua francesa, ao traduzir. A equipe, então, dedicou-se em zelar pelo conhecimento próprio da língua francesa, que neste volume de tradução, tornou-se um conhecimento técnico-teórico operado em francês, mas lido em português. Tratou-se de um critério de preservação epistemológico-linguística: empenhamos em preservar tanto o conteúdo (a epistemologia, objeto das aulas) quanto a língua que operava tal conteúdo (a língua das aulas, o francês), apresentando-os, agora, pelo crivo do português brasileiro.

    Mesmo diante do desafio que é toda tradução, os resultados finais atenderam às expectativas mais exigentes de nossa equipe. Resta recomendar, como de praxe, tanto para as lentes mais rigorosas como para aquelas que se arvoram nas minúcias profundas dos fenômenos, que as devidas leituras da presente versão portuguesa se realizem em parceria com a leitura do original francês. Sobretudo no que tange aos exemplos, enunciados rebeldes que desafiam todo método de tradução, por jogarem com exclusividades linguísticas da língua de origem, já que toda língua traz, em seu bojo, espessuras nem sempre traduzíveis, como particularidades culturais, semânticas e doxais de certa coletividade linguística, de um grupo, ou um povo. Especificidade essa que, nesta versão portuguesa, torna-se um esforço de tradução de um complexo linguístico-cultural e semântico de sete países distintos, enunciados pelo escrutínio do português brasileiro.

    Disponibilizando tal riqueza política, histórica e didática ao estimado leitor, aqui apresentada pela tradução em língua portuguesa, reiteramos votos de profícuos trabalhos e pesquisas, ao redor do mundo.

     

    Julio Cesar Machado

    Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG-Brasil

     

    Inverno de 2021, segundo ano da pandemia do Coronavirus.

  • Documentar: um novo olhar

    R$45,00

    A Documentação Pedagógica como autoformação docente

    Este livro que temos o prazer de apresentar aos leitores e leitoras brasileiras vem complementar o Documentação Pedagógica: teoria e prática, já publicado pela Pedro & João Editores. É mais um presente da Associação de Professores Rosa Sensat, de Barcelona, que acumula, com suas publicações, uma contribuição essencial para a construção de uma nova forma de pensar e fazer a educação das crianças pequenas com o protagonismo das crianças que uma educação de qualidade exige.

    Nessa mesma perspectiva, além do Documentação Pedagógica: teoria e prática, a Associação também nos presentou com o Ritmos Infantis: tecidos de uma paisagem interior, também publicado pela Pedro & João Editores, e que ensina a todos nós, adultos, a observar uma nova medida do tempo: o tempo e o ritmo dos pequenininhos.

    O livro que agora chega ao público brasileiro é um guia – sem receituário – de como documentar lançando mão de fotos e refletindo sobre elas para produzir uma narrativa sobre a vida das crianças na escola de educação infantil e sobre o desenvolvimento que almejamos para as crianças. Ensina a observar e a interpretar as ações das crianças e, a partir daí, fotografar, selecionar e organizar as fotos e, em seguida, a refletir sobre suas ações, perceber suas intenções, suas hipóteses, seus aprendizados e seu desenvolvimento.

    A tessitura de fotografias e texto expressa o movimento em que professoras e professores educam o próprio olhar para perceber e aprofundar o conhecimento das crianças, ainda muito novo para todos nós. Sem receita pronta de como fazer, nos propõe uma ferramenta e nos alerta para as possibilidades de como olhar carinhosamente e curiosamente para a ação das crianças: um olhar acima de tudo respeitoso às crianças e às suas formas de ver o mundo, explorá-lo, conhecê-lo e, com isso, constituir sua história e sua humanidade de modo autoral e criador.

    Com isso, o livro apresenta uma concepção de criança potente que está em constante atividade, numa constante descoberta de si, do outro, dos objetos e sempre disposta a compartilhar a alegria dessas descobertas; traz luz a uma concepção de infância que valoriza a convivência coletiva das crianças e dá espaço para a construção das culturas infantis.

    Em suas linhas, entrelinhas e fotos, concretiza uma visão de educação em que as crianças são protagonistas de sua aventura e conhecimento do mundo em situações organizadas – protagonizadas – pelas professoras e professores, mas também em situações criadas pelas próprias crianças. Essas situações acontecem dentro e fora da sala, com objetos mais elaborados ao mesmo tempo que com objetos naturais, em situações práticas da vida diária, em atividades plásticas e na atividade lúdica. E todos que trabalhamos cuidando e educando bebês e crianças pequenas sabemos que, para isso, bebês e crianças precisam de tempo, tempo em que as crianças são respeitadas por adultos que enxergam e acolhem a potência das ações mais simples dos pequenos.

    Com isso, também aprendemos que documentar democratiza o processo de ensinar – esse ensinar que não é sinônimo de dar aula, mas de organizar espaços, materiais, tempos, horizontalizar relações e promover experiências em que bebês e crianças sejam agentes. Documentar democratiza também o processo de aprender, pois permite a reflexão sobre a própria prática, permite a troca entre professoras e professores, entre famílias e professores. Com a documentação, todos aprendemos sobre como bebês e crianças pequenas aprendem e ao observar, conhecer, documentar e dar visibilidade para os processos vividos na escola, podemos descobrir uma nova concepção de criança, de infância, de educação e de escola da infância e, com isso, ampliar para os pequenos suas possibilidades de ação. As próprias crianças podem revisitar os processos vividos.

    Enfim, documentar é elemento fundamental da autoformação docente, pois pode ser uma ferramenta por meio da qual nós, professoras e professores, requalifiquemos nosso olhar, nossas práticas e nossa própria reflexão sobre esse processo em que bebês, crianças e docentes vamos construindo uma história juntos.

    Por meio de tudo isso, esse livro ilustra o dia a dia na escola de educação infantil em que bebês e crianças estão o tempo todo se relacionando com o mundo que os rodeia, que é pleno de interações, de cultura e de objetos da natureza. Quando a relação com os adultos é orientada por uma concepção de criança capaz, as crianças podem viver sua infância descobrindo o prazer de conhecer. Nas fotos que ilustram as reflexões deste livro, podemos perceber – por meio do envolvimento das crianças, da alegria, das iniciativas, dos pensamentos que lemos nas experimentações documentadas – que a escola pode e deve ser um lugar de encontro de bebês e crianças com o mundo da natureza e da cultura e com o outro… sem estresse, sem imposições, sem tarefas chatas que as crianças fazem para satisfazer adultos com expectativas fora de lugar e de tempo. E, nessa perspectiva, a escola pode e deve ser, também, um lugar para nós, professores e professoras, reencontrarmos calmamente nossas infâncias ao viver com empatia as infâncias dos bebês e das crianças que frequentam nossas escolas de educação infantil.

    A cultura dessa nova forma de documentar – esse novo olhar para bebês e crianças e para nossas práticas – está em construção, e não apenas entre nós, brasileiros e brasileiras. Muitos de nós ainda não nos iniciamos nesse trajeto, muitos já caminham descobrindo sua importância para o auto desenvolvimento docente e para a qualidade da educação dos pequenos, outros já avançam adiantados nessa aventura. Oxalá, este livro inspire as redes brasileiras a publicar as suas histórias. Em qualquer ponto do processo em que elas estejam, será seguramente uma contribuição para quem as escrever e para quem as ler.

     

    Sonia Larrubia Valverde

    Suely Amaral Mello

     

    São Paulo e São Carlos, junho de 2021.

    ainda ficando em casa

  • Educação musical na infância: vivências sonoras na escola

    R$35,00

    PREFÁCIO

     

    A concepção de educação musical passou por mudanças ao longo do tempo. Da compreensão de que esse termo se referia ao ensino técnico de instrumentos musicais com o fim de formar virtuoses, até a ideia de que somos seres musicais e que todos devem ter acesso à educação musical, foram muitos debates e embates travados. Hoje, caminhamos para um entendimento maior quanto à importância desta área. Entendemos que a música pertence à humanidade, portanto, todos devem ter acesso a ela. Contudo, essa compreensão esbarra no modus operandi que muitas vezes ainda não foi modificado nos vários ambientes de ensino, sejam formais ou não.

    Como pesquisadora da educação musical e do desenvolvimento humano na infância e adolescência, tenho me deparado, não poucas vezes, com a concepção, por parte de professores e professoras da infância, de que não é possível propiciar experiências musicais a seus estudantes, pois não são formados em música. Não se enxergam como seres musicais, não estudaram música, logo, não se sentem capazes de organizar experiências sonoras/musicais em seu contexto profissional. Talvez haja aqui uma compreensão equivocada quanto ao termo “música”.

    Murray Schafer afirmou que a definição de música mudou nos últimos anos e para provar isso, cita John Cage, para quem “música é sons, sons à nossa volta, quer estejamos dentro ou fora das áreas de concerto – vejam Thoreau”[1]. E ao citar Thoreau, Cage referia-se à obra Walden, na qual este autor ressaltou os sons e as visões da natureza na qual esteve imerso durante um período de sua vida. Se a música é composta por sons variados, se a musicalidade deve ser desenvolvida em todos, por que não promover ambientes nos quais as crianças possam vivenciar experiências sonoras?

    Destaco aqui a importância das experiências, evocando algumas concepções da Teoria Histórico-Cultural sobre a educação e o desenvolvimento humano. Para os estudiosos dessa teoria, o desenvolvimento depende das experiências vivenciadas pelas pessoas no meio social na qual estão inseridas, no contato com ferramentas, signos, valores, hábitos, costumes de uma dada sociedade.

    Sinara Costa e Suely Mello[2] relembram o conceito de Zaporozhetz, para quem é preciso propiciar atividades práticas para potencializar o desenvolvimento psíquico e cultural das crianças: atividades que permitam que vivenciem experiências com as diversas formas da arte, como desenho, pintura, música, dança, fotografia, cerâmica, dentre outros. O objetivo maior é conhecer e experimentar, para então expressar estas vivências. O fim não é imitar ou apresentar-se para outros, mas que cada criança possa expressar um pouco de si por meio destas atividades[3]. Desta maneira, estas atividades servem à formação humana.

    Dito isto, passo à questão das vivências sonoras e sua importância no âmbito desta discussão. Vivemos em um mundo com cada vez mais possibilidades sonoras. No entanto, paradoxalmente, com menos atenção ao ouvir. Rubem Alves, em um texto nomeado “Escutatória” afirmou que “escutar é complicado e sutil”. Estamos sempre mais dispostos a falar do que a ouvir: ao ouvir, na verdade estamos planejando nossa resposta ao interlocutor; logo, não estamos ouvindo. Não ouvimos o outro, não ouvimos os sons que nos cercam, não ouvimos os sons de nosso próprio corpo. Murray Schafer comenta que existem variados sons: alguns crescem, outros decrescem, alguns estão ameaçados de extinção; outros são exóticos para quem não os conhece[4]. Estamos enxergando toda a gama de possibilidades existentes no mundo dos sons?

    Há muitos anos, ainda jovem pesquisadora, vivenciei minha primeira experiência sonora consciente. Em um evento acadêmico, participei de uma oficina de educação musical com Patrícia Pederiva, uma das autoras deste livro. Éramos, aproximadamente, 10 adultos. Fizemos um corredor humano. Deveríamos fechar os olhos e imaginar os sons de uma floresta: cada pessoa faria um som. Um por um, passamos pelo corredor humano, ouvindo. Fechei os olhos e imaginei o ambiente natural que conheci quando adolescente, no qual tantas vezes acampei. Que sensação fantástica foi aquela, de fazer parte dos sons da floresta! Essa experiência despertou-me para a importância das vivências sonoras em todas as fases da vida mas, em especial, na infância.

    Para a Teoria Histórico-Cultural, a infância é o período no qual as crianças estão mais envolvidas em conhecer o mundo e tudo que as rodeia. Desde muito cedo, elas são capazes de aprender e estão plenamente envolvidas em fazê-lo[5]. Nesse sentido, é preciso pensar os ambientes nos quais as crianças estão e no papel dos professores e das professoras enquanto organizadores/as desses espaços.

    Neste ponto, destaco o papel da escola, que deve ser um lugar para oportunizar experiências com os objetos materiais e imateriais da cultura. Deve ser um espaço para o desenvolvimento das qualidades humanas, como preconiza a Teoria Histórico-Cultural. Nesse sentido, a teoria contribui para os estudos em educação musical ao definir os professores e as professoras como organizadores/as do ambiente educativo. Se desejamos que as crianças tenham experiências sonoras, devemos, junto com elas, organizar o espaço e as atividades, de maneiras a tornar isto possível.

    A educação musical tem recebido expressivas contribuições através de estudos empíricos que têm como base a Teoria Histórico-Cultural. Temos aprendido que todos podemos nos expressar musicalmente. A partir dessa perspectiva, de que a música pertence à humanidade e todos devem ter acesso a ela, e mais ainda, de que o desenvolvimento da musicalidade é fator importante da infância e de toda a vida, notamos uma crescente preocupação em compreender os diversos aspectos que a constituem. Mais ainda, preocupamo-nos em criar ambientes que propiciem os recursos necessários para o pleno desenvolvimento da musicalidade.

    O livro Educação Musical na infância: vivências sonoras na escola, de Daiane Oliveira e Patrícia Pederiva, é um convite para uma conversa agradabilíssima, recheada de sons e aprendizados, na qual podemos refletir sobre as amplas possibilidades que professores e professoras, em diversos contextos, possuem para possibilitar às crianças o desenvolvimento da musicalidade. As autoras, com sensibilidade e beleza, nos conduzem através da escrita apresentando um trabalho voltado para a investigação das vivências sonoras de crianças e, a partir disto, demonstram como é possível organizar ambientes educativos em música para potencializar o desenvolvimento da musicalidade.  O texto é escrito com leveza e, no entanto, traz toda a clareza de um texto científico, sendo observadas as características de um genuíno trabalho ancorado nos pressupostos da ciência.

    As reflexões trazidas são uma inspiração para professores/as, pesquisadores/as e estudantes que desejam uma educação promotora de todas as possibilidades de desenvolvimento humano. Como mensagem final, forte, que pulsa para o leitor, fica a ideia: esta educação é possível. Faça acontecer!

     

     

    Iani Dias Lauer-Leite

    Julho de 2021

     

    [1] SHAFER, 2001, p. 19.

    [2] COSTA; MELLO, 2017.

    [3] COSTA; MELLO, 2017.

    [4]  SCHAFER, 2001.

    [5] COSTA; MELLO, 2017.

  • Esperançando. Palavras e contrapalavras. Caderno de Estudos XIII

    R$20,00R$25,00

    Apresentação

    O Círculo de Bakhtin, esse grupo de intelectuais de que tomamos a expressão palavras e contrapalavras para enunciar o título desta coleção, nos motiva a estudar há vários anos. Desde que conhecemos as palavras daqueles autores russos aprendemos que viver no simpósio universal da palavra obriga a responder, sem álibis, uma vez que ninguém mais pode ocupar o mesmo espaço singular em que nos encontramos e enunciar por nós. O caráter de responsividade que a palavra provoca e gera o termo “contrapalavra”, entendido por nós como palavra resposta, palavra réplica, nos faz responder ao mundo, aos outros.

    O começo dessa série, em 2009, com a proposta de glossariar conceitos foi ano após ano sendo revisitada, por nós e por outros leitores. Nossas palavras e compreensões sobre a obra bakhtiniana foram se especializando, a cada ano um novo volume de um livro que hoje apresentamos a décima terceira edição, e também em outros livros publicados por nosso Grupo. As reflexões que geraram a ideia do primeiro volume e foram se atualizando ao sabor da vida compartilhada sob aquela árvore [o abakhtin] no Departamento de Letras, da Universidade Federal de São Carlos, em uma primeira fase, e depois em toda a parte deste país, quando nos espalhamos [o BakhZap e o MeetBakh], instauraram também as ideias-força deste livro.

    O Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso (GEGe), desde o começo do ano de 2020, com a pandemia de covid-19, aferrou-se à ideia de que podemos ser mais juntos, aprender juntos mesmo distantes fisicamente. Cada um de nós, fisicamente em vários lugares do Brasil, está presente em quase todas as sextas-feiras à tarde, quando temos nos reunido virtualmente para falar de Bakhtin, mas também de outros camaradas, como Ítalo Calvino e Paulo Freire.

    Essas leituras e discussões que fizemos em conjunto nos levaram, pensando nos últimos dois volumes da série – O medo do outro (2019) e Resistências (2020) – a avançar também na proposta de compreensão. Se antes estávamos pensando no presente e nas formas de sobrevida, uma vez que se entenda que “resistir” como “conservar-se firme”, agora, com “esperançar” estamos mirando o futuro. Com “esperançar”, ainda que não se deixe de pensar também no presente, estamos olhando para frente na perspectiva de ativamente “projetar o futuro” [“elas estão cheias de um futuro que não está ainda totalmente expresso, o que as obriga a procurar soluções antecipadas para ele” (Bakhtin, Cultura, p.108)] e caminhar juntos, na plenificação das relações amorosas e alteritárias, e por isso na construção da não-indiferença para viver, sem trégua, com o diferente.

     

    Valdemir Miotello

    Nathan Bastos de Souza

    Mundo, ano II da pandemia, novembro de 2021

  • Estudos Bakhtinianos do GELPEA: vozes e horizontes amazônicos

    R$40,00

    FALANDO DE NÓS…

     

    José Anchieta de Oliveira Bentes

     

    O Grupo de Estudos em Linguagens e Práticas Educacionais da Amazônia (GELPEA) foi criado em 2008. A primeira designação que o grupo teve foi exatamente “Grupo Práticas”. Pretendíamos centrar na análise de sala de aula enquanto um espaço de diálogos, um lugar de relação com o outro. Um ambiente de alteridades, de formação e de realização da prática educativa.

    O grupo surgiu com os mestrandos da turma de 2007-2008 que cursavam os Estudos Linguísticos no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), da Universidade Federal do Pará (UFPA). Esses mestrandos queriam se apropriar da teoria de gêneros discursivos, que discutia a prática docente de professores de Língua Portuguesa na sala de aula – mais especificamente queríamos estudar autores como Mikhail Bakhtin e Bernard Schneuwly.

    A inspiração foi em Bakhtin – nos círculos de Bakhtin. Começamos reunindo, no ano de 2008, na UFPA e nas residências dos integrantes, sempre discutindo a temática da prática de sala de aula. Discutimos o ato responsável, os gêneros discursivos, as sequências didáticas, o uso e ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras), a interação em sala de aula, a alfabetização de crianças, jovens e adultos, entre outras abordagens.

    Em 2010, assumimos a denominação de “Grupo de Estudos Linguísticos e de Práticas Educacionais do Norte”; assim o Grupo foi institucionalizado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). No ano de 2012, renomeamos para Grupo de Estudos em Linguagens e Práticas Educacionais da Amazônia substituindo a expressão “estudos linguísticos”, que reduzia o grupo ao curso de Letras, para “estudos em linguagens” ampliando para todas as disciplinas das Ciências Humanas.

    Desde a sua fundação, reunimos professores(as) e pesquisadores(as) de instituições públicas em torno de estudos e pesquisas que envolvam práticas educativas escolares e não escolares nas áreas das linguagens nos mais diferentes níveis de ensino. A ideia sempre foi de buscar alternativas para minimizar as problemáticas locais – com os desafios de considerar os saberes dos povos tradicionais, das florestas, das águas, das cidades e dos campos. Nesta perspectiva, realizamos estudos e pesquisas acerca da educação na Amazônia. Os resultados dessas pesquisas e estudos são divulgados em publicações, cursos, palestras, comunicações, oficinas, simpósios, congressos, entre outros eventos.

    O grupo é um coletivo que envolve profissionais de diversas instituições, dentre as quais: a Universidade do Estado do Pará (UEPA), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Secretaria de Estado da Educação do Pará (SEDUC) e a Secretaria Municipal de Educação de Belém (SEMEC). O GELPEA há mais de uma década vem desenvolvendo atividades que tratam dos desafios de aprender e ensinar na Amazônia.

    Ao longo dos anos, o grupo desenvolve seus estudos de forma coletiva e por meio de linhas de estudos. Nessas linhas os seus membros reúnem-se na intenção de estudar e dialogar sobre os pressupostos teóricos, metodológicos e analíticos a partir de um problema de pesquisa. Esses estudos ocorrem de forma dialógica em que os integrantes debatem, dialogam e interagem na intenção de agir, reagir e contribuir com as palavras do outro. Afinal todas as “‘palavras alheias’ são reelaboradas dialogicamente em ‘palavras minhas-alheias’ com o auxílio de outras ‘palavras alheias’” (BAKHTIN, 2017, p. 68).

    Os diálogos nas linhas têm como eixo central os Estudos da Linguagem, em especial a corrente teórica de Mikhail Bakhtin e do Círculo russo. A partir desse eixo, buscamos dialogar, incessantemente, com as práticas educacionais da Amazônia. Isso faz com que o grupo, por ser dialógico, articule-se com outras correntes teóricas, inclusive os estudos culturais, os estudos do discurso, os estudos da literatura, o ensino de línguas, os estudos decoloniais, a interculturalidade crítica, os estudos da diferença, entre outras correntes teóricas.

    Intenta por meio de suas atividades problematizar determinadas tendências de pensamentos que isolam a língua no interior de um sistema abstrato, que a descreve como um objeto neutro desassociando-a das relações de poder e dos significados que emergem da atividade humana em sociedade. O GELPEA lida com o enunciado que é visto por Bakhtin como uma unidade da comunicação discursiva, sendo que cada enunciado constitui um novo acontecimento, um evento único e irrepetível da comunicação humana (BAKHTIN, 2016).

    O GELPEA busca garantir a participação dos membros do grupo – e de todos aqueles que se interessam pela abordagem dialógica da linguagem proposta por Bakhtin e o Círculo – em todas as suas atividades e seus projetos. Essa participação se dá pelo diálogo com outras vozes, inclusive com pesquisadores paraenses, amazônidas, brasileiros e estrangeiros, com ações e projetos de ensino, pesquisa e extensão.

    E mais: vem promovendo o diálogo entre a universidade e a sociedade, por meio da participação dos docentes da Educação Básica e da socialização das pesquisas desenvolvidas pelos alunos da Graduação e da Pós-Graduação, envolvendo ainda os professores das redes municipal, estadual e federal de ensino e de outras localidades do país. Assim, o grupo contribui com a formação inicial e com a formação continuada dos profissionais da educação que atuam no contexto das escolas e das universidades.

    O GELPEA desenvolve as suas atividades em torno de estudos teóricos articulados ao campo do ensino, da pesquisa e da extensão. Nesse sentido, o grupo já realizou diversos eventos e atividades que articulam esses três campos, tais como: os Seminários sobre linguagens, tecnologias e práticas docentes; os Colóquios de estudos bakhtinianos; as Arenas de estudos bakhtinianos; e as Lives sobre identidades e alteridades.

    Todos esses eventos promovidos pelo GELPEA tiveram como plano de fundo os estudos por meio de: rodas de conversas, estudos por meio das linhas, encontros virtuais onlines, outras atividades. Sendo assim, o GELPEA tem uma trajetória metodológica em torno de estudos e reflexões que se dão de forma dialógica e coletiva. Isso faz com que os integrantes do Grupo leiam, discutam, reflitam e escrevam acerca dos pressupostos teóricos estudados. Consequentemente, isso tudo é conectado ao campo do ensino, da pesquisa e da extensão pelo grupo.

    Somos um coletivo de pesquisadores brasileiros, institucionalizado por uma Universidade pública na Amazônia e em atividade há mais de 13 anos. Assim, diante dos crescentes ataques aos pesquisadores, à universidade pública e às múltiplas vozes da Amazônia, vivenciamos a urgência de ampliar e fortalecer ações de democratização e internacionalização de nossas atividades por meio do diálogo entre pesquisadores, professores e alunos, bem como a divulgação de estudos e de alternativas construídas na academia em interação com outros grupos sociais organizados.

    O GELPEA visa a construção de um campo de conhecimento na Amazônia a partir das vozes que ressoam os fundamentos teóricos, metodológicos e analíticos de Bakhtin e demais autores do círculo russo. O GELPEA integra autores, intelectuais e pesquisadores interessados e compromissados com a educação e os estudos da linguagem na intenção de visibilizar “a natureza inacabada do diálogo sobre as grandes questões (na escala da grande temporalidade)” (BAKHTIN, 1997, p. 393).

    Assim, almejamos que todas essas ações do GELPEA possam ser refletidas e refratadas nas escolas para que essas instituições da e na Amazônia tornem-se, de fato, instituições que promovam a cidadania e estejam voltadas aos interesses dos grupos populares, sociais e economicamente marginalizados. Para isso, a caminhada precisa ser de construção coletiva e dialógica para que todas, todos e todes vivenciem uma Amazônia permeada por valores éticos, pautados no respeito às diferenças e na inclusão social e educacional.

  • G i r o Epistemológico para uma Educação Antirracista

    R$80,00

    PREFÁCIO

     Kiusam de Oliveira

     

    Apesar das pisadas de tuas botas, subsisto. Renasço, bravamente. Insistente, não me calo e disparo saliva se me ataca, revido a tua obra, que é viciada, esperneio ferozmente se me dá tapa. Na tua fuça, cuspo se como bola preta me encaçapa. (Kiusam de Oliveira)

    A obra Giro Epistemológico para uma Educação Antirracista chega como um bálsamo capaz de espalhar humanidade entre os povos, curando feridas abertas causadas por toda barbárie vivida no mundo provocada pelo racismo, sexismo, necropolítica, negacionismo, xenofobia etc. Tal cura está diretamente ligada à possibilidade de provocar deslocamentos necessários do olhar, pensar e agir sankofamente, isto é, apresentando textos que retratam a necessidade urgente de voltar para casa, no passado, e trazer de lá conhecimentos fundamentais para o restabelecimento de uma ética humana, no presente. Você pode me perguntar a que casa me refiro? E, certamente, eu lhe responderei “Eu me refiro a nossa casa ancestral – África, o Berço da Humanidade”. E que passado é esse? Eu me refiro ao passado ancestral, que remonta a bilhões de anos atrás, quando o planeta Terra foi gerado e tudo nele começou a nascer, tendo o solo africano como testemunha.

    Tal cura nesses moldes parece uma tarefa ousada, mas ela é tão somente justa e necessária, a fim de ampliar a nossa consciência a respeito do valor inestimável do continente africano. Nesse sentido, redimensionar o continente africano à centralidade do planeta é a ginga necessária para se compreender todo o racismo estruturado secularmente pelo mundo, em torno do continente africano, entendendo profundamente o motivo de a intelectualidade europeia, ainda que caçula, estimular o mundo a pensar África a partir de eventos recentes, em termos de linha histórica, como a escravidão e/ou a colonização, desprezando todo o protagonismo histórico desse continente, com reais consequências desta forma limitada, limitante e criminosa de pensar e agir sobre África, espalhadas amplamente pelo mundo, inclusive no Brasil.

    O que temos aqui é uma obra de resistência coletiva: movimento epistemológico negro que ganhou muita força nos últimos anos, reafirmando a necessidade de que ter Consciência Negra não é suficiente para provocar deslocamentos teóricos e práticos necessários aos avanços reais e transformadores da sociedade brasileira, se ela não estiver apoiada na consciência da urgência da centralidade do continente africano em relação ao mundo. Para tal feito, por exemplo, ler Cheikh Anta Diop, historiador senegalês, torna-se fundamental para quem pretende pesquisar e/ou falar sobre agência e agenciamento, pois aqui o que está em jogo é a urgência em reescrever a história sobre o protagonismo negro africano e seu legado na diáspora.

    São apresentados aqui 36 textos das mais diversas áreas, como saúde, literatura, artes, educação, dança, matemática, biblioteconomia, filosofia, pedagogia e temas como Orixá, infância, memória, escrita, política pública, corpo, identidade, performance, subjetividade, que se encontram e se conectam sem estranhamentos e gritam: DIGNIDADE! Aqui, pesquisadoras e pesquisadores soltam suas vozes, reafirmando que as práxis científicas lambuzadas de dendê e de ancestralidade não são menos viáveis ao universo acadêmico, ao contrário, pois o que se revela são tantos jeitos de fazer, de ser, de estar em grupo e na circularidade de cruzos possíveis e criativos, de cismas que precisam e devem ser compreendidas academicamente como caminhos para transcendências de um fazer científico espiritual inseparável de uma espiritualidade científica.

    Entendo que África nos deixou como legado essa forma tão incompreendida, porém magnífica de viver a ciência e a espiritualidade imbrincadas em uma irmandade que não se separa, que se recobre de uma complexidade incompreensível aos olhos dos povos ocidentais e que muitas e muitos de nós estamos há décadas tentando, a partir do falar e agir através de práticas descolonizadoras desde dentro, deixá-las parcialmente decifráveis, sendo que o parcialmente é o grande tombo, nossa maior idiossincrasia. E tudo feito com respeito profundo à conexão com o todo universal: com os átomos, com os prótons e elétrons, com a física quântica, com a terra, a água, o ar, o fogo, o éter, com a energia e os seres da natureza, com a astronomia e a astrologia, com a engenharia e arquitetura, com a física e a matemática, com a oralidade e a escrita, com a filosofia e a medicina, com a cosmogonia e a cosmologia etc., que nossos brilhantes ancestrais pesquisaram e deixaram, inclusive por escrito, através de diversos registros, todos os seus passos e seus legados. Aqui, o grito é de VIDA!

    Ellen Souza, Sidnei Nogueira, e Gabriela Tebet, como organizadoras e organizador dessa obra, atendem a uma solicitação do Tempo que vivemos e grita por comprometimento com o legado ancestral africano e negro-brasileiro, em prol das experiências intelectual, corpórea, sensorial e espiritual tão necessárias de serem feitas com os pés no chão, percorrendo as encruzilhadas de terra vermelha, em uma mão segurando uma caneta e na outra, uma adaga. O caminho trilhado nas brechas e ranhuras nos coloca como sentinelas e se dá como preparo discreto do grande levante que se realizará através dos banhos de ervas e unguentos, das curas e adoxus, dos ebós e comidas sagradas, dos tabus e quizilas, dos ofós e encantamentos, da cantigas e rezas, dos atabaques e xequerês, das corporeidades e danças, dos sons e silêncios: quando perceberem, a educação antirracista fundamentada em práticas afrocentradas já terá conquistado a educação brasileira, somente porque não estamos sozinhos nessa jornada.

    É preciso que se tenha registrado, como as curas nos corpos, que muitas e muitos como nós já traçaram científica e espiritualmente nossos caminhos em tempos imemoriais e, só por isso, estamos capacitadas e capacitados a dar esse giro, que não é só epistemológico, longe disso: esse giro já estava registrado em nosso DNA e nas encruzilhadas de Exu, nos caminhos de Ogum, nas espumas de Iemanjá, no vendaval de Oyá, na flecha certeira de Oxóssi, na justiça de Xangô, no espelho mágico de Oxum, no ar de Oxalá enfim, em todas as virtudes mais virtuosas do sagrado que habita nossa grande mãe, África.

     

    Vou desenhar. Na brecha, no veio do concreto, broto.

    Renasço, ainda que rastejante, minúscula. Me esgueiro, matreira.

    Sei que sou semente boa, erva curandeira. Trepo e multiplico. Alvissareira.

    Sou vida! Sou vida! Sou vida! E em todas as brechas recrio-me,

    multiplico-me, fertilizo-me, reencanto-me. Só porque sou pura teimosia, insisto em ser verde, não amadureci ainda e assim, vivo para te afrontar.

    Mesmo que eu morra a cada segundo muito mais do que viva, impossível não lutar pelas pretas vidas que somos, hiatos humanos que nas brechas brotamos, pois nos importamos.

    Nas suas ranhuras, branco, daqui das brechas, reverto o teu espelho: ainda te ensino a ser humano

    (Kiusam de Oliveira)

  • Geografias negras e estratégias pedagógicas

    R$45,00

    Prefácio
    Inicio esse prefácio com uma pergunta: Se fosse um filho, qual seria o tempo dessa gestação? A resposta é antes de tudo uma reflexão. Este livro nasce de um processo custoso, onde alguns/mas dos/as seus/suas autores/as testemunharam ou, até mesmo protagonizaram a gestação.
    Podemos dizer que a gestação teve como marco o ano de 2019 quando a realização de um evento mobilizou um grupo de docentes e discentes do Departamento e do Programa de PósGraduação em Geografia da UFF de Niterói determinados a discutir o que representa a data de 13 de maio na atualidade. Surge com este movimento o I Abolição a Contrapelo, ocorrido em 14 de maio (ou 13 + 1 como nos referimos à continuidade do movimento) no auditório Milton Santos/IGEO, tenho como motivação criar a ambiência possível para a concretização de um processo represado por anos na unidade: a implementação de uma política de reparação da exclusão social imputada sobretudo aos/às negros e negras no POSGEO.
    Na sequência, a coordenação do POSGEO em colaboração com o ENUFF – (Encontro de Professores[as] Negros[as], Ativistas e Militantes Antirracistas/UFF) organizou em 20 de agosto o I Simpósio Autonomia Universitária e Cotas, realizado no dia 20 de agosto de 2019 no auditório Milton Santos/IGEO, tecendo um diálogo sobre a necessidade de se criar uma instância central para implementação, monitoramento e avaliação das cotas (ações afirmativas) e das políticas de inclusão, desta feita no âmbito da Universidade. Este evento visou, principalmente, a concretização de uma cultura institucional de promoção da igualdade e da defesa dos direitos humanos pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
    Após debate com a Pró-Reitora de Graduação – Profa. Alexandra Anastácio, Pró-Reitora de Pós-Graduação – Profa. Andrea Latgé, Prof. José Jorge de Carvalho (UNB), Prof. André Lázaro (UERJ) e a plenária, chegou-se à conclusão que:
    a) As cotas enquanto estratégia de diversidade e inclusão são irreversíveis na UFF, bem como precisam ser garantidas, ampliadas e estendidas a outros grupos identitários, além da população negra;
    b) É necessário revisar o mecanismo de seleção dos cotistas no acesso à Universidade, em razão de ser injusto, seletivo por classe e por excluir ao longo do processo;
    c) Existem processos institucionais que perpetuam e mantêm o racismo. Devemos desconstruir tais processos e outras ideologias opressivas discriminatórias (misoginia, sexismo, xenofobia, etc).
    Em 06 de setembro de 2019, no XIII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia – ENANPEGE, um grupo de geógrafos/as negros/as, docentes e discentes, em reunião com 60 participantes provenientes de 20 Instituições de Ensino Superior, abrangendo as 5 (cinco) regiões brasileiras, anunciou aos seus pares através da Carta POR UMA GEOGRAFIA NEGRA seu posicionamento reivindicando … condições e recursos de estudo e pesquisa das temáticas étnica, racial e africana, seja em equipes diversas – étnica e racialmente – ou em grupos negros; ter nos cursos de ensino básico, técnico e tecnológico, de graduação e pós-graduação a possibilidade de estudar estas temáticas na perspectiva da autoria negra de Geografia e áreas afins; reconhecer o estatuto epistemológico de um conjunto de saberes e conhecimentos negros, inclusive aqueles produzidos por mestres/as do saber e pela militância; ter como perspectiva, no horizonte das políticas de ações afirmativas, a implantação de cotas étnico-raciais e o aumento do número de geógrafos/as negros/as como docentes do ensino superior.
    A convergência desses eventos no ano de 2019 fertilizou o solo para a materialização do movimento de docentes, discentes da graduação e da pós-graduação, além de egressos do curso de graduação e do Programa, pela política de Ação Afirmativa no POSGEO/UFF. A CARTA PELAS COTAS foi entregue e lida em reunião ordinária do colegiado em 09 de outubro de 2019.
    Essa estratégia pavimentou o caminho com a criação de uma comissão pelas cotas composta pelos/as discentes Bruno de Lima Alves (Mestrado 2019), Gabriel Romagnose Fortunato de Freitas Monteiro (Doutorado 2018), Janaína Conceição da Silva (Mestrado 2018) e as/os docentes Amélia Cristina Alves Bezerra, Jorge Luiz Barbosa e Rita de Cássia Martins Montezuma. A Comissão tinha como missão a criação de uma proposta da política de ação afirmativa no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF e realização de um seminário onde dados, legislação, normas, bilbiografias e argumentos seriam apresentados com vistas à potencializar a implementação das cotas, ao mesmo tempo que objetivava subsidiar o letramento político necessário à minimização de conflitos já previstos e aguardados.
    O resultado do trabalho da Comissão foi apresentado no Seminário de Implementação de Cotas no POSGEO/UFF, realizado em 28 de novembro de 2019, o qual contou com a presença de especialistas e pesquisadores em políticas de Ação Afirmativa e de gestores da Universidade. A partir do material apresentado a Comissão se respaldou para a formulação da proposta de políticas de cotas no Programa com a Ementa que normatiza a reserva de vagas de Ação Afirmativa do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF para candidatos optantes/autodeclarado/as negro/as (preto/as e pardo/as), porém ampliando e estendendo a indígenas, transexuais, travestis ou transgêneros ou com deficiência, transtorno do espectro autista ou altas habilidades, reservando o percentual geral de 25% das vagas, aprovada em 11 de dezembro de 2019, com 16 votos, dos quais 3 foram dados por representantes discentes.
    Se em um contexto próximo aqui apresentado revela-se muito das lutas empreendidas na gestação desse livro, em um contexto mais amplo pode-se afirmar que a gestação foi planejada. Planejada ao longo de, pelo menos, 20 anos do POSGEO, onde a inconformidade e a inquietude de alguns/algumas docentes e vários/as discentes, foram geradas pelas ausências. Ausências de representatividade negra no corpo docente, de autores e autoras negras, de um corpo discente proporcionalmente mais negro, assim como de epistemologias que satisfizessem e contemplassem o lícito desejo de negros e negras poderem ser sujeitos/as nas Geografias desenvolvidas no Programa e por fim, a escassa presença negra no corpo discente.
    Como as ausências têm sido a tônica da realidade do Programa, parafraseando Boaventura de Sousa Santos, posso dizer que estamos diante da Geografia das Ausências, onde o racismo epistêmico é evidenciado em todo o processo de formação e estrutura, incluindo as disciplinas, uma vez que, embora o POSGEO tenha uma notável produção sobre temáticas negras e de alguns grupos sociopolíticos minoritários, como indígenas, quilombolas, favelas, dentre outros, suas referências partem majoritariamente de um arcabouço epistêmico branco e uma perspectiva igualmente branca, assim como heterocisnormativa e masculina.
    É neste contexto que surge Geografias Negras, fruto de uma articulação e militância acadêmicas forjadas no combate ao racismo acadêmico, intelectual, epistêmico presentes nas universidades brasileiras, não obstante, nas instâncias de formação e gestão da UFF, que é refletido em todos os seus segmentos: da graduação á pós-graduação.
    O livro Geografias Negras resulta da disciplina emblematicamente intitulada GEOGRAFIAS NEGRAS, criada pela Profa. Ana Claudia Carvalho Giordani como tentativa bemsucedida de corroborar para o preenchimento da lacuna histórica que, não é apenas evidenciada no POSGEO, mas que é neste tardiamente compensada. Surge a partir das parcerias com docentes negras e negros, fundamentais colaboradores/as: Prof. Daniel Rosas, departamento de Geografia da UFF, Prof. Denilson Oliveira – PPGGEO UERJ/FFP e Profa. Geny F. Guimarães – Docente EBTT (Ensino Básico Técnico e Tecnológico) de Geografia do Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – CTUR/UFRRJ. Ministrada no segundo semestre de 2020, a disciplina teve um total de 25 inscritos, dos quais 17 discentes externos, vinculados a programas de várias regiões brasileiras: UFRRJ, UFU, UEPG, UFRJ e da UNB.
    As contribuições presentes neste livro ecoam como vozes libertas do silenciamento da Geografia Brasileira. A escolha por direcionar seu conteúdo para as Escolas destaca a relevância de unir a luta antirracista e o combate às desigualdades e injustiças com base nas diferenças, ao processo formativo em sua totalidade.
    A Educação Básica é alçada à sua condição de pilar na construção formal de sujeitos e sujeitas que conformam a sociedade e, por esta razão, se vincula aos esforços da luta antirracista na Universidade. A pluralidade dos textos, a diversidade de linguagens propostas, a inversão da perspectiva das microterritorialidades como centrais na lógica de ser e estar no mundo, acionam Geografias que inovam e potencializam uma Geografia transgressora para a superação dos silenciamentos, apagamentos e valorização de grupos subalternizados, promovendo uma riqueza epistêmica necessária ao impulsionamento e renovação do Programa e, por conseguinte, da Universidade e Ciência brasileiras.
    Prefaciar este livro requereu o resgate da história de algumas das muitas lutas que nos permitiram chegar aqui. É um imperativo para estimular outros movimentos múltiplos e contínuos por uma Geografia de mais possibilidades, das Ausências às Emergências e Emancipações, Geo-grafias mais plurais, inclusivas e libertadoras.
    Rita de Cássia Martins Montezuma
    16/08/2021
    Dia de Obaluaê
    Atotô!