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Literatura em pandemia: Epos-Cronos e Estações Brasil

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Literatura em pandemia: Epos-Cronos e Estações Brasil

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Descrição

UMA PRIMEIRA APROXIMAÇÃO

 

Flávia Aninger de Barros[1]

 

Todas as experiências da vida parecem exigir uma primeira aproximação, exatamente como tocamos as coisas ao nosso redor, quando crianças, sondando o mundo com nossos dedos. Talvez nos lembremos da primeira vez que fomos ao cinema, ou da primeira vez que vimos o mar. Em todas essas situações, foi necessária uma abertura para que aquele evento tivesse espaço dentro de nós, ou que alguém nos levasse pela mão e nos mostrasse a beleza ou a força daquela experiência.

Um prefácio cumpre a tarefa da primeira aproximação. Mas este primeiro passo em direção ao livro muitas vezes não se realiza, pelo fato de se considerar o prefácio, no senso geral e comum, como algo dispensável à experiência da leitura do livro. O que se deixa de considerar é que o prefácio pode funcionar como uma interlocução ou uma ponte, entre o leitor que abre o livro e seu conteúdo, para ele ainda desconhecido. Algo como uma antessala ou um trailer de cinema. Se o livro a ser lido fosse um lauto jantar, com pratos variados, o prefácio seria o aperitivo, destinado a abrir o paladar especialmente para aquela refeição. Mas é possível comparar o prazer de uma refeição deliciosa com o prazer do texto?

Infelizmente, a leitura não tem sido tratada como uma experiência agradável; pelo contrário, ao longo dos anos, ficou esmagada e estigmatizada como obrigação escolar, em enormes textos sem ilustração, coisa que meus olhos sempre procuravam primeiro nos livros, quando eu era criança. “Tem figura?”, eu perguntava. Era meu critério para “avaliar” o livro e decidir se leria ou não. Muitos anos depois, descobri que as figuras podiam ser desenhadas pelas palavras e tomar forma na minha imaginação, enquanto lia o preto e branco da página. Daí, vinham emoções, ideias, sustos, surpresas e com o passar do tempo, muitas compreensões sobre a vida, sobre os outros, sobre o ser e estar no mundo.

Grandes narrativas brasileiras e estrangeiras têm prefácios com interlocuções do próprio autor ao seu leitor, como Machado e Alencar fazem com seus leitores, como o grande Mário de Andrade fez com seu famoso “Prefácio interessantíssimo”, já em seu tempo, chamando ironicamente a atenção para o potencial desacreditado dos prefácios, ao mesmo tempo que contextualizava seus pensamentos para os leitores. Guimarães Rosa traz não apenas um, mas quatro prefácios para seu último livro, Tutaméia, posicionando-os como bem entende ao longo do livro e depois sugerindo que sejam lidos também como contos.

Daí podermos entender que um prefácio funciona como uma conversa inaugural, um olhar panorâmico sobre a paisagem que depois se vai desfrutar, caminhando sobre ela.

No caso deste volume, preciso dizer a você, leitor, que este livro que você tem nas mãos é resultado de uma experiência conjunta que nasceu da vontade de formar leitores e de trazer a escrita literária para um lugar de realização e prática. Pessoas que se dedicam à formação de leitores se uniram para aproximar estudantes da literatura e da escrita criativa.

Isso só se tornou possível porque uma instituição acadêmica olhou para fora dos seus muros, cumprindo uma de suas funções mais importantes: alcançar a comunidade, não como um grupo que é vazio ou que carece de conhecimento, mas como um grupo que tem seu próprio valor cultural e humano e que pode se beneficiar dessa ligação, favorecendo o crescimento de todos. É o que se chama de Extensão universitária, que ligada às atividades de pesquisa, gera um círculo de produção e de oferta de conhecimento, que deve sempre estar aberto para todos.

Por conta da dura realidade da pandemia e das limitações que dela ainda decorrem, precisamos como nunca da Literatura. Ela contém o denominador comum da humanidade; nela estão nossas percepções do mundo, nossas expectativas, medos e desejos. A Literatura traz um conteúdo que nunca se esgota: o ser humano. Se lemos os mitos e lendas, encontramos perguntas primordiais sobre o mundo e temas fundamentais como a morte e o amor. Se lemos contos e crônicas contemporâneos, podemos refletir sobre os problemas do viver em sociedade, sobre o esfacelado “eu” pós-moderno, sobre a relatividade das verdades, sobre nossas antigas ou mais recentes esperanças. Se lemos poesia, as imagens nos fornecem finas percepções da realidade, complexidades se delineiam na escolha das palavras e surpreendem nosso intelecto com uma nova compreensão.

Ao identificar-nos com a narrativa literária, é possível sublinhar situações, fatos marcantes que podem ser como tomadas de consciência, insights que nos esclarecem sobre partes de nós mesmos, que permitem uma “decifração da própria experiência do mundo”, como afirma Michèle Petit (2013). Outro aspecto importante, também conforme a autora francesa, é que “o texto fecunda o leitor”, faz surgir palavras e ideias, e especialmente, permite que o leitor comece a dizer “eu” – que formule, entre as linhas do texto, suas próprias linhas. A literatura é capaz de gerar novas autonomias de pensamento.

Nestes dias em que vivemos, também precisamos cada vez mais de espaço interno, espaço para pensar, para criar, para liberar nossas ideias e tensões. A escrita criativa provê esse espaço. Nela, aquele que escreve olha para dentro de si e para fora, busca na memória e na imaginação os instrumentos de sua expressividade e de sua humanidade.

Para que outras iniciativas – como a que se relata neste livro – continuem a se concretizar, os governos precisam reconhecer que ainda fazemos pouco pela educação. Que apesar de todos os esforços válidos realizados até agora, ainda há muito a fazer. Quanto mais acesso aos livros e a um letramento literário de qualidade nossos meninos e meninas tiverem, mais poderão conhecer e aceitar suas identidades, mais respeitarão as identidades de outros.

Infelizmente, a responsabilidade exercida pelas escolas e universidades em formar novos leitores competentes muitas vezes não impede que a relação que os estudantes estabelecem com a leitura seja superficial. Entre os muitos textos a respeito, temos a história de Pinocchio (1883), de Carlo Collodi, em que o boneco de madeira, depois de aprender o alfabeto e ler a cartilha, ainda é incapaz de aplicar a leitura dos livros à sua própria experiência, como nos mostra Manguel (2009) em “Como Pinóquio aprendeu a ler”.

Quando decide que vai dar atenção à escola, em vez de procurar diversão, é humilhado pelos colegas, que não veem sentido no que é difícil ou demorado. Seu desejo de tornar-se um “menino de verdade” não encontra ajuda nos outros “mestres” que aparecem, como a Fada Azul ou o Atum. Não há, da parte deles, nenhum conselho para a reflexão do que pode significar ser um menino. A Fada Azul afirma que, para ser feliz, é necessário ser “sensato e bom”; o Atum, junto com Pinocchio na barriga de um monstro marinho, pede que aceite a situação e se prepare para ser digerido. Esses discursos se parecem com os manuais escolares de Pinocchio, que finalmente aprende a ler, mas que atribui aos livros um lugar neutro, de onde pode extrair apenas a mesma moral convencional da Fada Azul. Para entender o que significa ser “sensato e bom”, Pinóquio precisaria perguntar a si mesmo se esse comportamento que a sociedade deseja dele, confirma sua humanidade, ou se o torna ainda mais como um boneco de madeira.

A literatura não oferece verdades rígidas, não estabelece dogmas. Tudo pode ser discutido. Assim, ao ler literatura, o leitor tem a oportunidade de confrontar suas próprias ideias, concepções ou valores. Se o universo de leitura de nossos alunos não contiver ambiguidades, incertezas, perguntas, proporcionadas pelo texto literário, de que modo estabelecerão seu próprio juízo ou sentido ao texto?

Manguel (1997, p.113) nos relata a experiência de Kafka, o grande autor tcheco, escrevendo a seu amigo Oskar Pollak: “No fim das contas, penso que devemos ler apenas livros que nos mordam e piquem. (…) Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito.”

Desse modo, ao nos deixar tocar pela literatura, ao deixar que nos atravesse a escrita de alguém, ao olhar para alguns grandes incômodos e perguntas, estamos construindo nossa capacidade de ver o outro, tão diferente de nós e ao mesmo tempo, tão igual. Para Bosi, ler é refazer, em nós, a experiência simbólica do outro. Escrever é expressar a nossa própria experiência do mundo, gestada e afetada por nossas leituras.

Obrigada por se permitir essa aproximação ao livro, através desse prefácio. Quando estiver lendo os poemas, narrativas e crônicas escritas por estudantes, servidores do IFPR-Palmas e participantes do concurso literário, permita-se ver o mundo pelos olhos deles e delas.

[1] Professora Dra. Adjunta da UEFS-BA