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O professor, a criança e a escrita: um caminho metodológico

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O professor, a criança e a escrita: um caminho metodológico

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PREFÁCIO
Durante a quarentena, de março a abril de 2020, imposta pela primeira onda da pandemia do COVID-19, reestruturei minha rotina e tive tempo para fazer a limpeza das estantes que abrigam generosamente meus livros num quarto do apartamento onde moro. Embora não goste de realizar todos os serviços domésticos de que uma casa necessita para seu bom funcionamento, devo confessar que a tarefa me foi muito prazerosa. Percebi que as estantes que guardavam os livros acadêmicos clássicos e atuais sobre a filosofia da linguagem e sobre a metodologia de ensino da língua portuguesa estavam menos empoeiradas que aquelas nas quais se acomodavam as obras literárias. Fato facilmente explicado já que há muito tempo a pesquisa e o ensino na área da didática da língua materna têm consumido todo o meu tempo de leitura.
Durante a faxina encontrei livros que já não me lembrava de que os possuía e a poeira foi ficando, porque a leitura foi chegando. Em mãos com a sétima edição de As obras primas do conto universal, publicada pela Martins Editora em 1954, reli grandes contistas como Andersen, Anatole France, Balzac, Cervantes, Daudet, Dickens, Mark Twain, Maupassant, Poe, Tolstói e Wild, mas também li pela primeira vez outros escritores desconhecidos para mim e que me encantaram: Andreief, Hoffmann, Katherine Mansfield, Peretz, Pirandello, Saki, Strindberg e Tchecoff. Quanto tempo perdido! Esse encontro precisaria ter acontecido entre as décadas de 70 e 80 do século XX, período que estive na escola básica, aberta para todo tipo de história e de conhecimento. A escola permitiu que eu retirasse livros da biblioteca apenas na 5ª série! Quanto atraso! Tempo de leitura literária desperdiçado!
Este livro que você tem em mãos, caro leitor, é um exemplo de como os professores da educação básica podem evitar essa procrastinação e trazer para o grande auditório de crianças – sedentas do novo, da linguagem escrita, da arte – uma conferência com todos esses nomes da literatura reconhecidos e admirados por tantos leitores. Em O professor, a criança e a escrita: um caminho metodológico, a professora e pesquisadora Raquel Pereira Soares trouxe para as crianças de uma escola municipal de Uberlândia, Minas Gerais, a escrita de contos produzidos por Léon Tolstói. Ele, que escrevia apoiado em suas reminiscências, inspirou as crianças mineiras a escreverem seus contos também baseados em suas experiências cotidianas. Raquel proporcionou a elas um encontro com um autor desconhecido, e, aos poucos lendo os contos – Os três ladrões; Como um menino contou que uma tempestade o apanhou de surpresa na floresta; A vaca; O Tubarão; O Salto; A menina e os cogumelos; Titia conta como um pardal chamado Vivinho foi domesticado – conheceram algumas páginas de poesia profunda e, às vezes, angustiosa, da compreensão da vida e dos homens, pela visão do autor russo.
O ato de ler alimenta o desejo do ato de escrever. As crianças mergulharam em um projeto de ensino de escrita de contos, produziram seus próprios escritos e publicaram uma coletânea. Contudo, o caminho foi longo. Aqui está mais um mérito deste livro publicado, o de mostrar aos professores uma possibilidade exitosa de como conduzir o ensino da escrita de forma autêntica e ligada à vida das crianças.
Muitos são os conteúdos que os documentos oficiais indicam para as grades curriculares, entre eles o ensino de diversos gêneros textuais. O tema não é fácil nem mesmo para os acadêmicos que se dedicam a estudar as particularidades de geneticidade dos escritos produzidos, ou de um gênero em especial. Quem de nós já não se viu em situação difícil para diferenciar um conto de uma crônica? Ou um conto de uma novela? Devemos falar disso com crianças? A professora provou que é possível. As técnicas de produção dos contos também são debatidíssimas entre os críticos literários, mas na verdade o fato é que não se pode ter um único processo criativo, pois correríamos o risco de não mais produzir obras de arte. Os escritores têm liberdade poética para criar; as crianças também tiveram. O foco da escrita de contos com as crianças manteve-se sempre na escolha de uma história vivida que elegiam para contar, como parte da vida, encarnada nas palavras selecionadas com cuidado e na organização do tempo e do espaço do dito de maneira a tornar a narrativa atraente, um conto interessante para ser lido.  porém, requer outro método.

[…]
As crianças aprenderam a questionar um texto literário, a compreender seu enunciado, a encontrar os temas importados da cultura do cotidiano russo, a escolher um tema para escrever seus próprios contos, a planejar o texto, e suas relações de anterioridade, concomitância e posterioridade, antes de colocá-lo no papel. Elas exercitaram a escrita de um dos gêneros literários, e mesmo sem a tarimba e a experiência de Tolstói, revisitaram os escritos, ora retirando o excedente, o dispensável, o inoportuno, ora acrescentando palavras, frases e orações absolutamente necessárias para a produção do sentido. O diálogo com a professora leitora e criadora de textos foi essencial para trilhar esse caminho percorrido
pela primeira vez por muitas das crianças envolvidas no projeto.
[…]
Eu me arrisco a dizer que os envolvidos nesse projeto coletivo de aprendizagem aqui apresentado – professora Raquel e seus alunos – padecem continuadamente de uma sede intolerável de água límpida e fresca da melhor qualidade. A sorte deles é que as fontes que produzem essas águas são abundantes, dá para saciar a sede dessa vida e de outras, quem sabe?

Adriana Pastorello Buim Arena
Amiga e companheira de trabalho da autora

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Descrição

Raquel Pereira Soares
O professor, a criança e a escrita: um caminho metodológico. São Carlos: Pedro & João Editores, 2021. 361p.
ISBN 978-65-5869-173-0 [Impresso]
1. Trabalho docente. 2. Criação literária. 3. Projeto de ensino. 4. Autora. 5. Produção de texto. I. Título.