APRESENTAÇÃO

Escrever no hodierno implica em traçar linhas que revitalizem o bem viver. Ora, diante do neoliberalismo enquanto força globalizante parece haver poucos espaços heterotópicos. No entanto, nos colocamos diante de pensamentos conflitantes. Pensar este que critica a dinâmica neocolonial, o sequestro de corpos e mentes de vidas que “nada importam”, a nova escravização dos indivíduos diante das demandas do mercado, a precarização sacrificial do trabalho, a depredação da natureza a qualquer custo, a submissão aos desejos e padrões de normalização dos gêneros, o horror a vidas “indignas” de cor e religiões “subalternas”, o desejo de blindar apenas algumas pessoas cuja dimensão enunciativa naturaliza a ideia de que o planeta é habitável somente para alguns corpos… O neofascismo atualiza essa dimensão dos eleitos enquanto tribo, cujo direito é solapado pela maquinaria racista e sexista. Contrários a essa cosmofobia, apresentamos nesse livro outras pedagogias contra-hegemônicas que apostam nos perspectivismos de vidas plurais.

Nesse ínterim, a linha de pesquisa “História, Sociedade e Educação”, do Programa de Pós-Graduação em Educação – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Unidade Universitária de Paranaíba – apresenta, nesta coletânea, um escopo de inquietudes sobre o nosso tempo. Essas inquietudes perpassam a visibilidade historiográfica sobre os agenciamentos femininos e tal propositura está no primeiro artigo sob o título “Por uma Cartografia Histórica: a produção sobre história das mulheres e gênero em Programas de pós-graduação de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul” de Adriana Aparecida Pinto, Ana Gonçalves Sousa, Gabriela Assumpção da Silva Santos Lopes e Sthefany de Souza Ribeiro.

As marcações de gênero em escala micro nos foram perceptíveis em grafitos escolares e para inquirir sobre um conjunto amplo de imagens, sobretudo corpóreas, nos desafiamos

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a compreender os discursos engendrados no artigo “A Tipologia dos Grafitos sobre Gênero e Sexualidade em uma Ambiência Escolar”, escrito a quatro mãos por Adriano Rogério Cardoso e Tânia Regina Zimmermann.

Numa operação discursiva interdisciplinar, olhamos também para as relações de gênero tecidas na área da saúde sobre a maternidade e as práticas de aleitamento. Os imbricados da lógica mercantil sobre o amamentar destoam de olhares feministas sobre a condição de mãe em uma sociedade capitalista. Neste sentido, apresentamos o artigo “O Discurso dos Profissionais da Saúde e a face feminista no Incentivo às Práticas de Aleitamento Materno” na escrita de Letícia Pacífico de Queiroz Salustino e Tânia Regina Zimmermann.

O campo religioso também se situa nas disputas políticas. A busca por saídas positivas que respeitem todas as vidas e suas formas de pensar socialmente suas religiosidades afeta sobremaneira a forma de condução estatal deste tema no âmbito educacional. O artigo “Estado e Ensino Religioso: desafios” escrito por Cristiano Anderson Bahia traz reflexões sobre o ensino religioso não confessional dada sua relevância na sociedade laica, pois se lança no respeito às diversas expressões religiosas/não religiosas/agnósticas/espiritualistas/ateias bem como das posturas avessas às religiões. A construção de uma educação emancipadora, humanística, ética, de paz, sustentável e aberta ao diálogo entre as diversas religiões e práticas espirituais distintas é o objetivo a ser alcançado nesse ensino.

O artigo “(Des)colonizando a instituição escolar: um olhar indígena”, de autoria de Sueli do Nascimento e Diogo da Silva Roiz, apresenta reflexões sobre como a “colonialidade” deu fundamento ao padrão de poder, no Brasil, que gerou a invisibilidade do nativo brasileiro, o indígena, e como a “decolonialidade” da instituição escolar, fundada no “ato de esperançar freireano”, faz-se urgente e necessária, mediante uma educação multirracial, sobretudo, no ensino da História e da Cultura Indígena com direcionamentos. Para os autores, somente

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uma educação escolar fundada na formação da consciência histórica, pode contribuir, tanto para a desconstrução das ideias maniqueístas e a linearidade histórica, quanto dos discursos racistas e egocentrados.

Os autores Murilo Cézar de Carvalho Pereira e Ademilson Batista Paes como foco na disciplina Educação Física tematizam sua gênese no artigo “A disciplina de Educação Física: aspectos de sua gênese no Brasil e em Mato Grosso”, lastreados em fontes documentais escritas oficiais. Na análise, identificaram por meio da legislação analisada, uma dinâmica própria de instrução pública em Mato Grosso, que se deu, segundo os autores, principalmente pela influência do estado de São Paulo, apontando que o processo de escolarização mato-grossense esteve ligado a influências externas.

As questões relativas à temática afro-brasileira e indígena nos Anos Finais do Ensino Fundamental para o ensino de História, nas políticas curriculares dos estados de Mato Grosso do Sul e Goiás são enfrentadas pelos autores Maria Lúcia Alves Teixeira Silva e Diogo da Silva Roiz, no artigo “Ensino de História: uma busca pela identidade cultural”. Destacando a formação reflexiva dos novos paradigmas da História, sua importância como parte do currículo na minimização do preconceito ao diverso, e como se deu a reorganização curricular, especialmente relativa à disciplina de História na Educação Básica dos estados de Mato Grosso do Sul e Goiás, eles consideram que a discussão da diversidade e sua dimensionalidade no contexto escolar, no campo do ensino de História, podem ser ampliadas a partir da participação e ação pedagógica dos docentes, contribuindo deste modo para o diálogo entre as diferenças e a minimização da exclusão, bem como maior articulação dos saberes da cultura dos povos negros e indígenas.

Aspectos da leitura de jovens estudantes de ensino médio, nascidos na considerada “Geração Z” é tema do artigo “Entre o impresso e o virtual, quais os sentidos nas práticas de leitura de nativos digitais no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus Votuporanga?”, de Daniele Spadotto Sperandio e Estela Natalina Mantovani Bertoletti, de maneira a compreender o comportamento

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desse leitor frente ao processo de escolha e leitura de livros digitais. Assim, apresentam a constituição das bibliotecas física e virtual do IFSP/Votuporanga, depois, apresentam aspectos dos relatórios localizados nos sistemas da biblioteca para, por fim, apresentarem análises preliminares do comportamento dos jovens na relação entre biblioteca física e virtual. As autoras concluem que existem diferenças nas preferências desses estudantes em relação às obras emprestadas da biblioteca física e as que são acessadas na biblioteca virtual e que, mesmo que em menor escala, as leituras virtuais desses estudantes, são importantes para traçar um perfil do comportamento desses leitores, que apesar de terem nascidos na era digital, não podem efetivamente ser chamados de leitores de livros virtuais, mas sim leitores que fazem uso de uma ferramenta como recurso para suprir alguma necessidade que lhes é apresentada.

Preocupada com questões prementes de nosso tempo, corajosa e generosamente, Mariana Esteves de Oliveira relaciona trabalho docente e ensino brasileiro, caracterizado pelo ensino remoto, em 2020, em virtude da crise sanitária mundial, acarretada pelo novo Coronavírus, no artigo “História, Educação e Sociedade no ‘novo normal’: ensino remoto na pandemia e os velhos problemas do trabalho docente”. Para a autora, a manutenção das aulas no período explicitou e aprofundou o processo de precarização do trabalho docente, em virtude de um conjunto de adversidades geradas pelo chamado home office, além da suspensão de direitos. Esse “novo normal”, nas reflexões e questionamentos da autora, deveria levar em consideração o comprometimento com a vida e seu desenvolvimento pleno.

Como tratado no início, e pode se comprovar na apresentação dos artigos que compõem os capítulos desta coletânea, vidas plurais são aqui tematizadas, não como diferentes ou divergentes da “normalidade”, mas sim como parte intrínseca da vida humana. Logo, pedagogias contra-hegemônicas precisam ser ampliadas e apropriadas com densidade teórica e seriedade como as propostas nos capítulos. Convidamos, assim, estudantes, profissionais e pesquisadores da área de Educação, comprometidos com a

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História, a Sociedade e a Educação a enveredarem no universo da leitura que estes artigos podem proporcionar e refletir sobre mudanças necessárias, prementes e importantes na escola brasileira. Por fim, parafraseando a professora Mariana Esteves Oliveira, no último texto desta coletânea: ler em nosso presente histórico exige “outras coragens”.

As Organizadoras Primavera de 2020