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LENDO RAZLÚKA DE PÚCHKIN: a voz do outro na poesia lírica

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Mikhail Bakhtin à escuta da voz do outro, até mesmo no gênero lírico

Augusto Ponzio

 

Conversando com [São Bernardo] no paraíso, Dante exprime a ideia de que nosso corpo haverá de ressuscitar não para nós, mas para aqueles que nos amam, que nos amavam e que conheciam a nossa única face (Bakhtin, 2011, p. 53).

 

Mikhail Mikhailovich Bakhtin (Orël, 1895 – Moscou, 1975) é conhecido sobretudo por ter mostrado a importância que tem a relação entre voz própria e voz outra no interior do romance, com referência particular ao “romance polifônico” de Dostoiévski. Menos conhecido é que Bakhtin, e justamente no início de sua pesquisa inerente à palavra enquanto tal, identifica a importância da voz outra na poesia lírica, analisando uma poesia de Púchkin, Razlúka (Separação). Disso ele se ocupa no início dos anos 1920, seja no “Frammento del primo capitolo di “L’autore e l’eroe” [Fragmento do primeiro capítulo de “O autor e o herói” (Bachtin, 2014)], seja em “K Filosofi postupka” (“Por uma filosofia do ato responsável”), ambos mantidos inéditos e publicados no original russo organizado por S. G. Bocharóv em 1986. Em ambos a referência direta é à poesia de Púchkin.

“Voz”, essa palavra indica algo de singular, de irrepetível, de único. A voz (como a impressão digital ou o DNA) indica a singularidade de cada um, a sua insubstituibilidade, a sua incomparabilidade, a sua unicidade, em contraste com a inserção de todos na identidade: identidade de gênero, de raça, de etnia, de cultura, de religião, de nação, de classe, de profissão, de papel social…, mas também identidade em relação a outros paradigmas: rico/pobre, bom/mal, bonito/feio. Essa inserção na identidade e, portanto, no paradigma, acontece menos na relação de amor, o amor verdadeiro, desinteressado, seja esse o amor como eros, seja esse o amor como agape (o amor filial, de amizade, da misericórdia, o amor à vida em todos os seus aspectos e manifestações, no qual o único interesse é o próprio ser amado, “único ao mundo”: “não te amo porque és isso ou aquilo, mas porque és tu (e esse “tu” pode valer não só para um ser humano, mas também para um gato, um pardal solitário, para a lua (como mostra a escritura literária, e não só a poesia).

Normalmente há dois centros de valor: aquele do eu e aquele do outro. Na vida pode prevalecer um ou o outro. Mas na arte, a condição de seu valor, do valor estético, é que predomine o valor do outro. É isso que indiquei, como referência à revolução copernicana, no título do meu livro (Editora Contexto, 2015), como Revolução bakhtiniana. E, precisamente, diferente da responsabilidade pelo outro na vida, é preciso que na arte predomine não o ponto de vista do próprio eu sobre o outro, mas o ponto de vista “extra-localizado”, exótopico, a respeito do “personagem”, quem quer que esse seja – humano, ser vivo ou não, bom ou mau, bonito ou feio, um santo ou um assassino. Trata-se do ponto de vista do escritor, e se for verdadeiramente assim, também do ponto de vista do leitor, que o escritor consegue envolver nos eventos do personagem, como consegue fazer Dostoiévski em relação a Raskólnikov de Crime e castigo, ou de Stavróguin de Os demônios. Mas é também isso que consegue fazer Púchkin em Razlúka, em relação à separação dela: separação que agora não é só seu retorno da Rússia para a Itália, não é, portanto, somente a separação dele, mas – somente agora ele sabe (portanto os pontos de vista na poesia de dois são tornados três) – é uma separação dela para sempre, porque ela morreu. E aqui ainda mais uma vez o amor supera a morte, e o poeta consegue isso expressar, dirigindo-se diretamente à mulher amada, partida para sempre, com o tu: “Ma il bacio promesso nell’addio, io lo voglio, la tua promessa vale!” [Mas digo que a ti já partiu… o beijo final que ainda espero!].

Foi belo que Marisol Barenco tenha promovido e realizado a publicação em português desse texto de Bakhtin.