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Livros onde vivem pensatempos

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Quando recebi o convite para escrever a orelha do livro do Wanderley Geraldi lembrei das palavras da personagem de Clarice Lispector em Felicidade Clandestina: “Era mais do que qualquer criança devoradora de histórias poderia querer”. Exatamente assim aceitei.

Este é um livro sobre escritos, parece errado dizer isso, então tento me aproximar mais do que sinto, não é um livro apenas, é um convite, para atravessar os tempos de escuridão e medo que nos cercam, são histórias de histórias, que acendem o candeeiro, que adentram as fissuras, os escondidos e as ternuras dos textos. Sabidamente, tamanha sua genialidade e maestria, nosso autor, que é nosso candeeiro, aproxima e afasta o que deve aproximar e afastar, dando a nós a dimensão, por luz e sombra, que os nossos monstros e medos por vezes podem ser derrotados.

Os textos lidos constituem uma nova obra, são organizados numa trajetória bem desenhada, desbravadora de um novo percurso, cujo autor não estende a mão aos leitores, tampouco aos autores, ao contrário até, em cada texto tem-se experiências e rupturas: um, dois, vários socos no ar, no estômago, no coração e estamos todos em meio a uma nova jornada, prontos ou não, seguimos, e se vamos para algum lugar é melhor que se saiba com quem e porque caminhamos.

Esse convite de João Wanderley Geraldi é único e se faz para cada um que tem seu livro nas mãos; é certo que em seus textos não podemos resgatar os ouvidos ingênuos das experimentações e mediações das contações de histórias das nossas infâncias, mas, de certo modo, o ato de conduzir-nos nas narrativas remete-nos ao tempos em que ouvíamos histórias debruçados sobre afeto: não há pressa na escritura, e assim devemos proceder na leitura, a cadência vai sendo dada pelos achados que o autor aponta, e de outros tantos sugestionamentos que provoca.

E o tempo? É leitura e pensamento. Aceito o convite, temos instrumento, e podemos inverter a ampulheta, e quantas vezes ainda se façam necessárias, pois adentrar um texto lido por Geraldi é totalmente diferente, não é ler um texto facilitado no sentido de se desobrigar de ler o original. É o contrário. Por ele se penetra no texto de forma atenta, precisa-se de mais, pois constrói um novo texto capaz de inundá-lo de sentidos, desconhecidos e escondidos pelo autor, e assim ele vai, e volta, e revolta-se em diálogo mediado entre o autor e o leitor, até que entregue para si e para quem é lido um significado vital, feito carne, numa emoção de dois parceiros.

Brasília, outubro de 2020

Mara Emilia Gomes Gonçalves

Professora de Língua Portuguesa

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