Estudos Bakhtinianos do GELPEA: vozes e horizontes amazônicos

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FALANDO DE NÓS…

 

José Anchieta de Oliveira Bentes

 

O Grupo de Estudos em Linguagens e Práticas Educacionais da Amazônia (GELPEA) foi criado em 2008. A primeira designação que o grupo teve foi exatamente “Grupo Práticas”. Pretendíamos centrar na análise de sala de aula enquanto um espaço de diálogos, um lugar de relação com o outro. Um ambiente de alteridades, de formação e de realização da prática educativa.

O grupo surgiu com os mestrandos da turma de 2007-2008 que cursavam os Estudos Linguísticos no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), da Universidade Federal do Pará (UFPA). Esses mestrandos queriam se apropriar da teoria de gêneros discursivos, que discutia a prática docente de professores de Língua Portuguesa na sala de aula – mais especificamente queríamos estudar autores como Mikhail Bakhtin e Bernard Schneuwly.

A inspiração foi em Bakhtin – nos círculos de Bakhtin. Começamos reunindo, no ano de 2008, na UFPA e nas residências dos integrantes, sempre discutindo a temática da prática de sala de aula. Discutimos o ato responsável, os gêneros discursivos, as sequências didáticas, o uso e ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras), a interação em sala de aula, a alfabetização de crianças, jovens e adultos, entre outras abordagens.

Em 2010, assumimos a denominação de “Grupo de Estudos Linguísticos e de Práticas Educacionais do Norte”; assim o Grupo foi institucionalizado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). No ano de 2012, renomeamos para Grupo de Estudos em Linguagens e Práticas Educacionais da Amazônia substituindo a expressão “estudos linguísticos”, que reduzia o grupo ao curso de Letras, para “estudos em linguagens” ampliando para todas as disciplinas das Ciências Humanas.

Desde a sua fundação, reunimos professores(as) e pesquisadores(as) de instituições públicas em torno de estudos e pesquisas que envolvam práticas educativas escolares e não escolares nas áreas das linguagens nos mais diferentes níveis de ensino. A ideia sempre foi de buscar alternativas para minimizar as problemáticas locais – com os desafios de considerar os saberes dos povos tradicionais, das florestas, das águas, das cidades e dos campos. Nesta perspectiva, realizamos estudos e pesquisas acerca da educação na Amazônia. Os resultados dessas pesquisas e estudos são divulgados em publicações, cursos, palestras, comunicações, oficinas, simpósios, congressos, entre outros eventos.

O grupo é um coletivo que envolve profissionais de diversas instituições, dentre as quais: a Universidade do Estado do Pará (UEPA), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Secretaria de Estado da Educação do Pará (SEDUC) e a Secretaria Municipal de Educação de Belém (SEMEC). O GELPEA há mais de uma década vem desenvolvendo atividades que tratam dos desafios de aprender e ensinar na Amazônia.

Ao longo dos anos, o grupo desenvolve seus estudos de forma coletiva e por meio de linhas de estudos. Nessas linhas os seus membros reúnem-se na intenção de estudar e dialogar sobre os pressupostos teóricos, metodológicos e analíticos a partir de um problema de pesquisa. Esses estudos ocorrem de forma dialógica em que os integrantes debatem, dialogam e interagem na intenção de agir, reagir e contribuir com as palavras do outro. Afinal todas as “‘palavras alheias’ são reelaboradas dialogicamente em ‘palavras minhas-alheias’ com o auxílio de outras ‘palavras alheias’” (BAKHTIN, 2017, p. 68).

Os diálogos nas linhas têm como eixo central os Estudos da Linguagem, em especial a corrente teórica de Mikhail Bakhtin e do Círculo russo. A partir desse eixo, buscamos dialogar, incessantemente, com as práticas educacionais da Amazônia. Isso faz com que o grupo, por ser dialógico, articule-se com outras correntes teóricas, inclusive os estudos culturais, os estudos do discurso, os estudos da literatura, o ensino de línguas, os estudos decoloniais, a interculturalidade crítica, os estudos da diferença, entre outras correntes teóricas.

Intenta por meio de suas atividades problematizar determinadas tendências de pensamentos que isolam a língua no interior de um sistema abstrato, que a descreve como um objeto neutro desassociando-a das relações de poder e dos significados que emergem da atividade humana em sociedade. O GELPEA lida com o enunciado que é visto por Bakhtin como uma unidade da comunicação discursiva, sendo que cada enunciado constitui um novo acontecimento, um evento único e irrepetível da comunicação humana (BAKHTIN, 2016).

O GELPEA busca garantir a participação dos membros do grupo – e de todos aqueles que se interessam pela abordagem dialógica da linguagem proposta por Bakhtin e o Círculo – em todas as suas atividades e seus projetos. Essa participação se dá pelo diálogo com outras vozes, inclusive com pesquisadores paraenses, amazônidas, brasileiros e estrangeiros, com ações e projetos de ensino, pesquisa e extensão.

E mais: vem promovendo o diálogo entre a universidade e a sociedade, por meio da participação dos docentes da Educação Básica e da socialização das pesquisas desenvolvidas pelos alunos da Graduação e da Pós-Graduação, envolvendo ainda os professores das redes municipal, estadual e federal de ensino e de outras localidades do país. Assim, o grupo contribui com a formação inicial e com a formação continuada dos profissionais da educação que atuam no contexto das escolas e das universidades.

O GELPEA desenvolve as suas atividades em torno de estudos teóricos articulados ao campo do ensino, da pesquisa e da extensão. Nesse sentido, o grupo já realizou diversos eventos e atividades que articulam esses três campos, tais como: os Seminários sobre linguagens, tecnologias e práticas docentes; os Colóquios de estudos bakhtinianos; as Arenas de estudos bakhtinianos; e as Lives sobre identidades e alteridades.

Todos esses eventos promovidos pelo GELPEA tiveram como plano de fundo os estudos por meio de: rodas de conversas, estudos por meio das linhas, encontros virtuais onlines, outras atividades. Sendo assim, o GELPEA tem uma trajetória metodológica em torno de estudos e reflexões que se dão de forma dialógica e coletiva. Isso faz com que os integrantes do Grupo leiam, discutam, reflitam e escrevam acerca dos pressupostos teóricos estudados. Consequentemente, isso tudo é conectado ao campo do ensino, da pesquisa e da extensão pelo grupo.

Somos um coletivo de pesquisadores brasileiros, institucionalizado por uma Universidade pública na Amazônia e em atividade há mais de 13 anos. Assim, diante dos crescentes ataques aos pesquisadores, à universidade pública e às múltiplas vozes da Amazônia, vivenciamos a urgência de ampliar e fortalecer ações de democratização e internacionalização de nossas atividades por meio do diálogo entre pesquisadores, professores e alunos, bem como a divulgação de estudos e de alternativas construídas na academia em interação com outros grupos sociais organizados.

O GELPEA visa a construção de um campo de conhecimento na Amazônia a partir das vozes que ressoam os fundamentos teóricos, metodológicos e analíticos de Bakhtin e demais autores do círculo russo. O GELPEA integra autores, intelectuais e pesquisadores interessados e compromissados com a educação e os estudos da linguagem na intenção de visibilizar “a natureza inacabada do diálogo sobre as grandes questões (na escala da grande temporalidade)” (BAKHTIN, 1997, p. 393).

Assim, almejamos que todas essas ações do GELPEA possam ser refletidas e refratadas nas escolas para que essas instituições da e na Amazônia tornem-se, de fato, instituições que promovam a cidadania e estejam voltadas aos interesses dos grupos populares, sociais e economicamente marginalizados. Para isso, a caminhada precisa ser de construção coletiva e dialógica para que todas, todos e todes vivenciem uma Amazônia permeada por valores éticos, pautados no respeito às diferenças e na inclusão social e educacional.

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