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Registros: inventos da memória

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Introdução

As inscrições rupestres (a mais antiga das quais, na Indonésia, foi datada com 45.500 anos a.C.) oferecem uma enigma para o mundo contemporâneo. Podem ser resquícios de narrativas (por exemplo, é possível que a inscrição na ilha Sulawesi, na Indonésia, conte a história de uma caça); também podem ser formas de comunicação à distância, em que moradores das cavernas deixavam àqueles que não estavam presentes algum recado, alguma informação (são, por exemplo, os sentidos dados a alguns desenhos com animal e homens com instrumento de caça, que poderiam significar “saímos para caçar”, um sentido obviamente atribuído pelo presente), podem, ainda, representar as primeiras manifestações artísticas do homem (por exemplo, a escultura do ‘homem-leão’, datada de 32 mil anos a.C., encontrada na caverna de Stadel, na Alemanha).
Qualquer que seja a hipótese de nossas explicações permanecerá sempre como hipótese. Mas algo parece estar sempre presente como gesto da espécie: grafar a ‘experiência’ de alguma forma através de imagens. Foram necessários milhares de anos para chegarmos ao que conhecemos como escrita. O historiador Yuval Noah Harari (Sapiens Uma breve história da humanidade) levanta a hipótese de que a escrita emerge entre os homens, depois da revolução agrícola e o surgimento de um sistema de trocas, como uma forma de registro ‘contábil’.

Em defesa de sua tese, traz a tábua suméria de Uruk, o primeiro documento assinado encontrado até agora, em que alguém chamado Kushim diz ter recebido 29.086 medidas de cevada ao longo de 37 meses. O que interessa nesta hipótese é o fato de que a escrita, em suas primeiras emergências, permitiu não sobrecarregar a memória. Em certo sentido ela permitiria uma ‘memória externa’ ao corpo.

O conjunto de textos que compõe este livro são registros para a memória. Todos os textos foram escritos antes de baixar a poeira da leitura. Formei-me leitor com uma caneta ou lápis na mão: quando eram obras tomadas emprestadas, de amigos ou de bibliotecas, tinha meu cadernos de anotações. Meus livros estão bordados de traços, sublinhados, anotações à margem. Aqueles de estudos estão coloridos porque a cada leitura usava outra cor. São exemplares imprestáveis.
Que razões me levam a compartilhar estes registros? Como não são resenhas, não trazem análises criteriosas, não resultam de pesquisas, sua serventia para outros, esta a minha ambição, é que minhas leituras levem outros aos mesmos livros (ou a outros livros). Grande amiga minha, Cristina Campos, me diz: “ler você é muito caro!”. Não entendi… mas ela explicou – leio suas anotações e fico com vontade de ler vários destes livros. Foi o melhor retorno que recebi a respeito destes livros que venho publicando anualmente, desde 2017. Para que ela não ‘gastasse’, começamos a trocar livros. Eu lhe empresto aqueles cujas leituras foram registradas por mim lhe interessaram. E ela me indica outros livros, que leio e registro para minha memória, sabendo que as compartilharei.
Que a sorte deste novo livro seja inspirar outras leituras, outros leitores.

Barequeçaba, setembro de 2021
João Wanderley Geraldi

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