Geografias negras e estratégias pedagógicas

R$45,00

Prefácio
Inicio esse prefácio com uma pergunta: Se fosse um filho, qual seria o tempo dessa gestação? A resposta é antes de tudo uma reflexão. Este livro nasce de um processo custoso, onde alguns/mas dos/as seus/suas autores/as testemunharam ou, até mesmo protagonizaram a gestação.
Podemos dizer que a gestação teve como marco o ano de 2019 quando a realização de um evento mobilizou um grupo de docentes e discentes do Departamento e do Programa de PósGraduação em Geografia da UFF de Niterói determinados a discutir o que representa a data de 13 de maio na atualidade. Surge com este movimento o I Abolição a Contrapelo, ocorrido em 14 de maio (ou 13 + 1 como nos referimos à continuidade do movimento) no auditório Milton Santos/IGEO, tenho como motivação criar a ambiência possível para a concretização de um processo represado por anos na unidade: a implementação de uma política de reparação da exclusão social imputada sobretudo aos/às negros e negras no POSGEO.
Na sequência, a coordenação do POSGEO em colaboração com o ENUFF – (Encontro de Professores[as] Negros[as], Ativistas e Militantes Antirracistas/UFF) organizou em 20 de agosto o I Simpósio Autonomia Universitária e Cotas, realizado no dia 20 de agosto de 2019 no auditório Milton Santos/IGEO, tecendo um diálogo sobre a necessidade de se criar uma instância central para implementação, monitoramento e avaliação das cotas (ações afirmativas) e das políticas de inclusão, desta feita no âmbito da Universidade. Este evento visou, principalmente, a concretização de uma cultura institucional de promoção da igualdade e da defesa dos direitos humanos pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Após debate com a Pró-Reitora de Graduação – Profa. Alexandra Anastácio, Pró-Reitora de Pós-Graduação – Profa. Andrea Latgé, Prof. José Jorge de Carvalho (UNB), Prof. André Lázaro (UERJ) e a plenária, chegou-se à conclusão que:
a) As cotas enquanto estratégia de diversidade e inclusão são irreversíveis na UFF, bem como precisam ser garantidas, ampliadas e estendidas a outros grupos identitários, além da população negra;
b) É necessário revisar o mecanismo de seleção dos cotistas no acesso à Universidade, em razão de ser injusto, seletivo por classe e por excluir ao longo do processo;
c) Existem processos institucionais que perpetuam e mantêm o racismo. Devemos desconstruir tais processos e outras ideologias opressivas discriminatórias (misoginia, sexismo, xenofobia, etc).
Em 06 de setembro de 2019, no XIII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia – ENANPEGE, um grupo de geógrafos/as negros/as, docentes e discentes, em reunião com 60 participantes provenientes de 20 Instituições de Ensino Superior, abrangendo as 5 (cinco) regiões brasileiras, anunciou aos seus pares através da Carta POR UMA GEOGRAFIA NEGRA seu posicionamento reivindicando … condições e recursos de estudo e pesquisa das temáticas étnica, racial e africana, seja em equipes diversas – étnica e racialmente – ou em grupos negros; ter nos cursos de ensino básico, técnico e tecnológico, de graduação e pós-graduação a possibilidade de estudar estas temáticas na perspectiva da autoria negra de Geografia e áreas afins; reconhecer o estatuto epistemológico de um conjunto de saberes e conhecimentos negros, inclusive aqueles produzidos por mestres/as do saber e pela militância; ter como perspectiva, no horizonte das políticas de ações afirmativas, a implantação de cotas étnico-raciais e o aumento do número de geógrafos/as negros/as como docentes do ensino superior.
A convergência desses eventos no ano de 2019 fertilizou o solo para a materialização do movimento de docentes, discentes da graduação e da pós-graduação, além de egressos do curso de graduação e do Programa, pela política de Ação Afirmativa no POSGEO/UFF. A CARTA PELAS COTAS foi entregue e lida em reunião ordinária do colegiado em 09 de outubro de 2019.
Essa estratégia pavimentou o caminho com a criação de uma comissão pelas cotas composta pelos/as discentes Bruno de Lima Alves (Mestrado 2019), Gabriel Romagnose Fortunato de Freitas Monteiro (Doutorado 2018), Janaína Conceição da Silva (Mestrado 2018) e as/os docentes Amélia Cristina Alves Bezerra, Jorge Luiz Barbosa e Rita de Cássia Martins Montezuma. A Comissão tinha como missão a criação de uma proposta da política de ação afirmativa no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF e realização de um seminário onde dados, legislação, normas, bilbiografias e argumentos seriam apresentados com vistas à potencializar a implementação das cotas, ao mesmo tempo que objetivava subsidiar o letramento político necessário à minimização de conflitos já previstos e aguardados.
O resultado do trabalho da Comissão foi apresentado no Seminário de Implementação de Cotas no POSGEO/UFF, realizado em 28 de novembro de 2019, o qual contou com a presença de especialistas e pesquisadores em políticas de Ação Afirmativa e de gestores da Universidade. A partir do material apresentado a Comissão se respaldou para a formulação da proposta de políticas de cotas no Programa com a Ementa que normatiza a reserva de vagas de Ação Afirmativa do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF para candidatos optantes/autodeclarado/as negro/as (preto/as e pardo/as), porém ampliando e estendendo a indígenas, transexuais, travestis ou transgêneros ou com deficiência, transtorno do espectro autista ou altas habilidades, reservando o percentual geral de 25% das vagas, aprovada em 11 de dezembro de 2019, com 16 votos, dos quais 3 foram dados por representantes discentes.
Se em um contexto próximo aqui apresentado revela-se muito das lutas empreendidas na gestação desse livro, em um contexto mais amplo pode-se afirmar que a gestação foi planejada. Planejada ao longo de, pelo menos, 20 anos do POSGEO, onde a inconformidade e a inquietude de alguns/algumas docentes e vários/as discentes, foram geradas pelas ausências. Ausências de representatividade negra no corpo docente, de autores e autoras negras, de um corpo discente proporcionalmente mais negro, assim como de epistemologias que satisfizessem e contemplassem o lícito desejo de negros e negras poderem ser sujeitos/as nas Geografias desenvolvidas no Programa e por fim, a escassa presença negra no corpo discente.
Como as ausências têm sido a tônica da realidade do Programa, parafraseando Boaventura de Sousa Santos, posso dizer que estamos diante da Geografia das Ausências, onde o racismo epistêmico é evidenciado em todo o processo de formação e estrutura, incluindo as disciplinas, uma vez que, embora o POSGEO tenha uma notável produção sobre temáticas negras e de alguns grupos sociopolíticos minoritários, como indígenas, quilombolas, favelas, dentre outros, suas referências partem majoritariamente de um arcabouço epistêmico branco e uma perspectiva igualmente branca, assim como heterocisnormativa e masculina.
É neste contexto que surge Geografias Negras, fruto de uma articulação e militância acadêmicas forjadas no combate ao racismo acadêmico, intelectual, epistêmico presentes nas universidades brasileiras, não obstante, nas instâncias de formação e gestão da UFF, que é refletido em todos os seus segmentos: da graduação á pós-graduação.
O livro Geografias Negras resulta da disciplina emblematicamente intitulada GEOGRAFIAS NEGRAS, criada pela Profa. Ana Claudia Carvalho Giordani como tentativa bemsucedida de corroborar para o preenchimento da lacuna histórica que, não é apenas evidenciada no POSGEO, mas que é neste tardiamente compensada. Surge a partir das parcerias com docentes negras e negros, fundamentais colaboradores/as: Prof. Daniel Rosas, departamento de Geografia da UFF, Prof. Denilson Oliveira – PPGGEO UERJ/FFP e Profa. Geny F. Guimarães – Docente EBTT (Ensino Básico Técnico e Tecnológico) de Geografia do Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – CTUR/UFRRJ. Ministrada no segundo semestre de 2020, a disciplina teve um total de 25 inscritos, dos quais 17 discentes externos, vinculados a programas de várias regiões brasileiras: UFRRJ, UFU, UEPG, UFRJ e da UNB.
As contribuições presentes neste livro ecoam como vozes libertas do silenciamento da Geografia Brasileira. A escolha por direcionar seu conteúdo para as Escolas destaca a relevância de unir a luta antirracista e o combate às desigualdades e injustiças com base nas diferenças, ao processo formativo em sua totalidade.
A Educação Básica é alçada à sua condição de pilar na construção formal de sujeitos e sujeitas que conformam a sociedade e, por esta razão, se vincula aos esforços da luta antirracista na Universidade. A pluralidade dos textos, a diversidade de linguagens propostas, a inversão da perspectiva das microterritorialidades como centrais na lógica de ser e estar no mundo, acionam Geografias que inovam e potencializam uma Geografia transgressora para a superação dos silenciamentos, apagamentos e valorização de grupos subalternizados, promovendo uma riqueza epistêmica necessária ao impulsionamento e renovação do Programa e, por conseguinte, da Universidade e Ciência brasileiras.
Prefaciar este livro requereu o resgate da história de algumas das muitas lutas que nos permitiram chegar aqui. É um imperativo para estimular outros movimentos múltiplos e contínuos por uma Geografia de mais possibilidades, das Ausências às Emergências e Emancipações, Geo-grafias mais plurais, inclusivas e libertadoras.
Rita de Cássia Martins Montezuma
16/08/2021
Dia de Obaluaê
Atotô!

Em estoque