Descrição

APRESENTAÇÃO

O texto que aqui se apresenta é resultado de pesquisa de pós-doutorado realizada no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo entre 2019 e 2021, atravessado pelo estado de calamidade pública que assolou o Brasil e o mundo durante a pandemia de COVID-19. Em meio a isso, discursos conservadores, negacionistas e fomentadores de violência e exclusão contra minorias se alastraram pelos mais diversos espaços sociais, colocando em risco a saúde e a segurança de indivíduos diariamente. As bases desses discursos, fundadas na perpetuação de estruturas arcaicas do patriarcalismo e da escravidão, operam em prol da negação de evidências históricas e científicas para sustentar o velho mecanismo de condenação de oponentes – no caso brasileiro, em específico, novamente agrupados sob um imenso termo guarda-chuva denominado comunismo.

A escrita deste trabalho, portanto, se realizou permeada pela convivência diária com variadas modalidades de manipulação e de impedimentos discursivos em nome de disputas ideológicas pelo poder, deixando à vista nua as engrenagens que movimentam a circulação de informações falsas pelos meios digitais. Como será discutido nas próximas páginas, variados são os embates entre o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido, e a maquinaria industrial das já famigeradas fake news alcançou grande 10 adesão para a interferência nos processos de registro e de permanência da memória individual e da memória coletiva, colocando novamente em xeque a compreensão sobre o passado recente do Brasil, em especial no que diz respeito ao autoritarismo do Estado e a sua relação com as Forças Armadas.

O contato frequente com histórias reais e construções ficcionais de vítimas de violência durante e após a ditadura militar brasileira nesse contexto de guinada autoritária nos órgãos governamentais evidenciou a urgência do debate contínuo sobre as políticas da memória e das memórias políticas no país. Que este livro contribua para os necessários processos de recolho dos rejeitos da história oficial, resultados das intrincadas redes de manipulação e de impedimentos da memória, ao mesmo tempo em que nos lembre do igualmente necessário ato de esquecer.

Nelson Marinelli Filho

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