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Trabalho, lutas sociais e a interseccionalidade na pesquisa histórica: classe, gênero e raça

Cátia Franciele Sanfelice de Paula

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Descrição

APRESENTAÇÃO

O ano de 2020 foi marcado pela Pandemia da COVID-19 e junto com ela presenciamos um aumento significativo da violência de gênero, de raça e de classe.

A necessidade de ensino remoto impôs as Universidades e aos professores novas dinâmicas no que se refere ao ensino, a pesquisa e a extensão. Nesse ínterim ocorreram inúmeras lives e eventos online. Foi nesse contexto que o Ciclo de Debates Fazendo História – Trabalho, Lutas Sociais e a Interseccionalidade na Pesquisa Histórica: classe, gênero e raça foi proposto pelo NUPEHT – Núcleo de Pesquisa e Estudos em História, Trabalho e Educação em Rondônia. A proposta teve como objetivo socializar e promover debates sobre pesquisas já concluídas, que versam sobre o tema proposto.

O I Ciclo de Debates ocorreu no mês de setembro no qual foram realizadas quatro palestras. Já o II Ciclo ocorreu em outubro e novembro de 2020 com a realização de seis palestras. Dessas, reunimos nessa coletânea, seis capítulos referentes às palestras apresentadas e mais dois capítulos voltados a pesquisas sobre Ariquemes/RO e Itapagipe/MG.

As palestras encontram-se disponibilizadas no site do NUPEHTUNIR no youtube. A presente coletânea, desse modo, consiste em mais um meio de divulgação da ação e busca contemplar produções historiográficas de diversas localidades do país.

No artigo Trabalhadoras em frigorífico: a realidade laboral das estudantes negras da EJA em Pimenta Bueno/RO (1980-2018), Leide Daiane Nogueira Santos aborda a realidade laboral das estudantes negras inseridas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) frente a incipiente produção historiográfica na região acerca da mulher que compõe a EJA e, consequentemente, de sua realidade laboral.

No artigo Percurso e reflexões: uma investigação histórica na região do Araguaia, Rosângela de Sousa Moura Souto busca analisar os modos de viver e trabalhar dos moradores – denominados na investigação por trabalhadores rurais – que habitaram ou habitam a região identificada como Região do Araguaia, no contexto da Guerrilha do Araguaia, entre 1960 e 1990. Ressalta a formação de experiências anteriores à guerrilha quanto as que a sucedem, em uma trama de memória e de cultura.

Janaína Jácome dos Santos, em Atuação política dos Movimentos Negros: Uberlândia entre as décadas de 1980 e 2000, trabalha a ação dos movimentos negros para a inclusão de políticas públicas na cidade de Uberlândia/MG. Busca refletir sobre como atos dos movimentos negros locais promoveram transformações na atuação política dos diversos prefeitos eleitos entre os anos de 1980 a 2000 e, mudanças positivas na política da cidade.

Joselene Ieda dos Santos Lopes de Carvalho, no capítulo Trabalho e Imigração: As trajetórias dos imigrantes haitianos/haitianas para o Brasil, trabalho que compõe parte de sua tese de Doutorado da qual entrevistou imigrantes haitianos e haitianas dentre 2016 a 2020, busca discutir as trajetórias de vida, de imigração, de trabalho e de luta dos imigrantes na cidade de Cascavel/PR, cidade que tornou-se destaque por ter sido compreendida como “rota” de imigração desde 2012, quando empresas desta localidade iniciaram o processo de triagem dos haitianos, buscando-os no acampamento do Acre.

No capítulo As Mulheres Trabalhadoras Negras das páginas do Jornal Publicador Maranhense na primeira metade do século XIX, parte constitutiva da tese “É Preta, É Preto em todo canto da cidade: História e imprensa na São Luís do Maranhão – 1821 -1850, Iraneide Soares da Silva versa sobre a constituição étnico-racial da cidade de São do Maranhão da primeira metade do século XIX e, a presença e/ou ocultamento pela historiográfico dos africanos e seus descendentes naquela cidade, tendo como principal fonte o jornal Publicador Maranhão dos anos de 1921 a 1850. Aponta para uma cidade de são Luís do Maranhão expressivamente negra ainda nos anos de 1800 e, carente de pesquisas que tragam a cena do dia, todos os sujeitos históricos viventes na cidade, não somente os europeus e seus descendentes.

Em Trajetórias Itinerantes e Espaços de Sociabilidades de Trabalhadores Ambulantes Nordestinos em Cascavel-PR, Emeson Tavares Tavares da Silva evidencia, no conjunto das práticas de trabalhadores nordestinos que buscaram a cidade de Cascavel, a partir de 1998, que fazem o chamado comércio ambulante na cidade, os sentidos e as condições de suas trajetórias, procurando compreender as ações, os conflitos e os estranhamentos vivenciados com outros grupos locais pela conquista do espaço e do direito de pertencimento ao local fazendo emergir a agenda de expectativas e valores desses sujeitos na dinâmica de suas experiências, evidenciando relações de identificações e dissidências, estabelecidas em suas condutas. Dá-se atenção ao caráter planejado das trajetórias, às tensões e aos estranhamentos diversos, lembrados e reelaborados pelos sujeitos e, visibilidade às redes destas trajetórias itinerantes, muitas vezes inconclusas, que permeiam a formação da paisagem social da região.

No capítulo Populações pretas, memórias apagadas e histórias não contadas: conflitos e experiências no ensino de história nas escolas de Itapagipe / MG, Maria Rita de Jesus Barbosa apresenta uma experiência no ensino da história e cultura afro-brasileira no contexto da Lei 10.639/03, e no enfrentamento do racismo no interior das escolas. Utilizando a história local, a partir de histórias de sujeitos históricos, invisíveis a fontes oficiais, a autora questiona o modelo euro-ocidental com o objetivo de pensar o ensino da história e da história afro-brasileira e africana em conexão com a história local e a memória dos silenciados nas fontes oficiais que narram à formação histórica de algumas cidades do Pontal do Triângulo Mineiro.

Cátia Franciele Sanfelice de Paula, em “Escravidão branca”? “Todo mundo que plantou cacau comprou baiano”, analisa o emprego da mão de obra escrava em um dos projetos de “colonização em Rondônia – o Projeto Pad Burareiro, e como a imprensa de circulação local, utilizou-se da terminologia “escravidão branca” para classificá-la enquanto que em outros registros, e a própria procedência dos trabalhadores demonstram a existência da empregabilidade de trabalhadores negros. Considerando que a prática do trabalho escravo está assentada na grilagem, no grande latifúndio, a autora discute que se buscava negar a utilização de negros, embora se reconheça o emprego do trabalho análogo a escravidão.

A presente obra consiste em uma valiosa contribuição para o entendimento dos estudos sobre as relações de trabalho e as lutas sociais na interseccionalidade entre classe, gênero e raça. Em um contexto em que o negacionismo toma conta da agenda governamental e da sociedade civil junto ao contínuo ataque aos direitos historicamente conquistados, a discussão proposta nessa coletânea representa um ato de resistência, ao mesmo tempo, de crença em uma outra sociedade possível. Desejamos a todos, todas e todes uma ótima leitura!

Informação adicional

Ano de lançamento

2021

ISBN [e-book]

978-65-5869-355-0

Número de páginas

93

Organização

Cátia Franciele Sanfelice de Paula

Formato