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A docência (que) conta II: o trabalho docente entre ausências, dores e palavras de afeto

Adriana Alves Fernandes Costa, Juaciara Barrozo Gomes, Luiza Alves de Oliveira

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Descrição

Prefácio

Guilherme do Val Toledo Prado[1]

 

Árvore, s.f.
Gente que despetala
Possessão de insetos
Aquilo que ensina o chão
Diz-se de alguém com resina e falenas
Algumas pessoas em que o desejo é capaz de irromper sobre o lábio como se fosse a raiz de seu canto

(Manoel de Barros, Arranjos para Assobio, 2002)

 

Já faz alguns dias que não tenho conseguido iniciar a escrita deste prefácio. Aliás, vários dias, como indicou a agenda digital, ao mostrar o primeiro pedido das autoras para entregar o prefácio, após o convite aceito, e a sua efetiva data de entrega.

Finalizada a leitura das 23 narrativas, pude imaginar com muito nitidez a vida vivida em tempos de pandemia das 24 narradoras e 3 narradores que apresentaram em fortes palavras os sentimentos e pensamentos decorrentes dos inúmeros desafios postos pela situação sanitária trágica em que, principalmente, o governo federal nos colocou: descaso com os protocolos sanitários, informações desencontradas e anticientíficas, atraso na distribuição de vacinas contra o coronavírus. Muitas mortes que poderiam ser evitadas…

No momento de escrita destas palavras no texto digital, mais de 550 mil mortes contabilizam-se na conta do governo genocida, fascista e antidemocrático, que ainda

promove desinformação e leva o país à bancarrota. Além da crise sanitária, as ações privatistas, neoliberais e negacionistas, continuadas desde o golpe de 2016, promovem, dentre tantas, uma marcante desgraça nacional: mais de 1/3 da população brasileira está passando fome, sem nem ter feijão e arroz para comer…

E minha perplexidade só aumenta, quando vejo, principalmente nos títulos das narrativas presentes neste livro, enunciados como: “estou engessada”, “desafios do educar”, “tia, quando voltamos para a escola”, “isolamento social”, “águas turbulentas”, “sobrevivendo”, “desafios enfrentados em 2020”, “nunca pensei”, “em busca de chão”, “um atravessamento”, “paredes”, “vivência pandêmica”, “incertezas”, etc.

Cada uma das palavras presentes nestes enunciados me tocou e me levou a viver, como se estivesse vendo um filme na televisão, situações individuais de professoras e professores dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro que pareciam ser iguais, mas que guardavam radicais diferenças e singularidades.

Todos nós, enquanto docentes, enfrentamos inúmeros desafios, com certeza… Diante da incerteza de que nossa voz tenha chegado à toda nossa turma de estudantes – aquela turma conhecida nos primeiros dias do 1º semestre de 2020, ou mesmo das novas turmas iniciadas também em atividades remotas no ano de 2021, o sentimento de desamparo governamental iniciado em março de 2020, perdura, senão mais forte, também em julho de 2021…Nem 30% da população brasileira está vacinada!

As diversas narrativas em que as narradoras e narradores relatam, de modo minucioso, os sentimentos e pensamentos construídos ao longo do início da pandemia do coronavírus e do descaso das políticas públicas, notadamente a federal, em prover condições de vida, saúde e igualdade de condições sanitárias para o necessário distanciamento social, causou o isolamento social de grande parte da população brasileira, promoveu a degradação das condições sociais de saúde, ampliou o fosso existente entre os mais ricos e os mais pobres, escancarou a condição colonialista, machista e racista da sociedade brasileira.

Em cada palavra narrada, sentimentos e pensamentos de solidariedade, igualdade, justiça, democracia e compromisso com uma educação de qualidade emanam das narrativas, fazendo com que a leitura, ainda que sofrida, possibilite um respiro de esperança e possibilidades futuras…E muita água rolou dos olhos de quem viu…

Mas não foi fácil chegar aqui, neste trecho do prefácio, sem antes compreender que as forças antidemocráticas, individualistas, racistas e colonialistas, em uma sociedade globalmente capitalista, aproveitam-se das fraquezas humanas para fazer valer seu projeto de nação para os poucos que podem comprar saúde, para os poucos que podem ludibriar a marcha incessante do tempo, para os poucos que, de posse dos meios de produção, conseguem vivificarem-se às custas da mortificação de muitos outros seres humanos. E quantas perdas estão registradas nas narrativas…

Foi nas palavras de Ailton Krenak (2020), do livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, que consegui compreender a necessidade de, na leitura realizada, achar nas brechas do narrado, palavras como: partilha, afeto, carinho, amorosidade, comprometimento, luta, dedicação, amor. Palavras que não são individuais, mas sim singulares, que não constituem sentido sozinhas mas em companhia com outras professoras e professores.

Cada narrativa, de cada uma das narradoras e narradores, ao expor a história vivida, com essas palavras conjugadas em comunhão “adia o fim do mundo” e criam inúmeras possibilidade de que outras histórias possam ser narradas e contadas, numa corrente de tradição orientada pela vida coletiva, que tão bem professoras e professores sabem produzir no cotidiano escolar – mesmo em tempos pandêmicos.

Cada uma das narrativas presentes nesta publicação evidenciou essa criação!

Cada uma das narrativas presentes mostrou que, mesmo em situação de isolamento social, de intenso sofrimento psíquico, de imponderabilidade da vida diante da doença provocado pelo coronavírus no corpo humano – quantas docentes perderam suas vidas…, do descaso das políticas educacionais nos sistemas públicos e privados, etc, professoras e professoras construíram possibilidades de vínculo com seus estudantes; possibilidade de comunicação via diferentes plataformas de comunicação virtual; possibilidades de encontros presenciais com o sentido de garantir a vida, salvaguardando os protocolos sanitários necessários à essas garantias; possibilidades de ensinos que geraram sim alguns aprendizados, tão bem revelados por Adriana Alves Fernandes Costa, Alessandra da Paixão Medeiros, Ana Lúcia Nascimento dos Santos (in memoriam), Ana Regina Cavalcanti Santana, Ariane Adão Lopes Teixeira, Cintia Xavier da Silva, Cristiano Gomes de Oliveira, Cristina Mayumi Hamada, Daniela Gobbo Donadon, Elaine Rusenhack, Giulia Califrer Muneron, Glória Elisabeth Pincano, Herlândia Oliveira de Sousa, Isabelle Paiva Gonçalves, Josiane Santos de Melo, Juaciara Barrozo Gomes, Jurema Brandão, Luiza Alves de Oliveira, Maria Isabel Donnabella Orrico, Mariana Muniz Oliveira, Nayara Martins De Oliveira Carvalho, Priscila Francisca, Rafaela dos Santos Alves Oliveira, Ricardo Nunes Maciel Damacena, Roberta Renoir Santos Fumero, Roseane Maria Moreira dos Santos, Suéle Máximo Furtado, Suelen Albuquerque, Thiago de Souza Moura, Ursula Barrozo Gomes da Silva.

E talvez, para mim, os maiores aprendizados inscritos nas narrativas de cada um destes narradores, tenham sido a indicação de que os vínculos estabelecidos com as famílias é uma necessidade a ser estabelecida nos cotidianos escolares, que a intensa conversa entre pares e a preparação coletiva de ações didático-pedagógicas com o intuito de ensinar o necessário e o possível foi realizado de modo inconteste, que o comprometimento com os valores democráticos, igualitários e de valorização da diversidade foram perseguidos e conquistados em cada pequena ação diária orientada para a escola e para os estudantes… Essas foram, para mim, o que de mais forte pude perceber nas narrativas que se encontram neste livro.

Poderia continuar a dizer muito mais, poderia…

Mas o sentimento que me invade é que esse livro, projeto de vida e trabalho levado à bom termo com respeito, carinho e dedicação pelas Profas. Adriana Costa, Juaciara Gomes e Luiza Oliveira, cumpre o papel de não só “adiar o fim do mundo”, como também o de levar esperanças – do verbo esperançar, como anunciado por Paulo Freire – para muitas educadoras e educadores do Brasil.

Esperanças que resistem e reexistem aos maus tratos sociais impetrados aos educadores e educadoras e que infundem em seus leitores novas possibilidades de vida, porque permitem que novas histórias possam ser narradas e narradas e narradas…porque o que conta é a docência, que conta com docentes que contam, partilham, irmanam-se…

Meus mais sinceros agradecimentos a cada uma e a cada um dos narradores presentes neste livro – e os ausentes também – que com seus cantos e encantos enraizadores energizaram meu escrever…

 

Campinas, julho de 2021.

Notas de rodapé

[1] Professor da Faculdade de Educação da Unicamp.

Informação adicional

Ano de lançamento

2021

ISBN

978-65-5869-445-8

ISBN [e-book]

978-65-5869-446-5

Número de páginas

196

Organização

Adriana Alves Fernandes Costa, Juaciara Barrozo Gomes, Luiza Alves de Oliveira

Formato