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Cartas à Chimamanda

Amanda Rodrigues Pinto Costa, Heitor Matins Guimarães, Isadora Eccard Bersot

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Descrição

Niterói, outono de 2021

Querida Chimamanda Ngozi Adichie,

Há anos escutei tua palestra no TED Talks, intitulada “Os perigos de uma história única”, e desde então venho trabalhando com estudantes das Licenciaturas diversas, na Universidade Federal Fluminense, que fica em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, no Brasil. Não sei se já vieste para essas terras ou se já tomaste em estudo nossa história e cultura: somos um país erigido à força pela violência colonial, sobre povos originários que, até os dias de hoje, sofrem com a imposição da lógica invasora. Juntamente com esse massacre, esse genocídio e pilhagem de riquezas materiais e imateriais incontáveis, participaram dessa história trágica todas as populações sequestradas, escravizadas e dizimadas dos territórios da costa leste do continente africano, que também sofriam a violência colonial portuguesa. Trazidos à força, tendo suas culturas apagadas, seus corpos possuídos como propriedade material para força de trabalho dos colonos e, posteriormente, dos proprietários das terras já chamadas brasileiras, foram séculos em que uma história única e nacional se sobrepôs às montanhas de corpos, culturas, belezas, juventudes, humanidades dos seres humanos mortos em nossas terras.

Pode até ser que já tenhas visto cartões postais com as paisagens das terras cariocas, mas não te deixes enganar, querida Chimamanda, são belezas naturais que foram solo dos massacres aqui ocorridos. O Rio de Janeiro e, onde vivo atualmente, Niterói eram e são terras originariamente habitadas por diversas etnias indígenas: tupinambás, tupiniquins, caetés, tamoios, potiguaras, temiminós, tabajaras, dentre tantos outros. Na minha cidade, uma enorme estátua homenageia um homem, indígena, chamado Arariboia. Numa guerra de tamoios contra temiminós, esse chefe indígena saiu perdendo e, mais tarde, se aliou aos portugueses na conquista da Baía de Guanabara contra os franceses. Dizem que atravessou a nado a Baía, para acender canhões. Ganhou nome português — Martim Afonso de Sousa — e as terras em que agora vivo. Cenários de luta, de sangue, genocídios e epistemicídios, aqui nessa terra brasileira, chamada originariamente, dizem os portugueses que escreveram a história, Pindorama, terra das palmeiras. Gosto de pensar que cada etnia, que possuía sua própria língua e cultura, tinha também um nome para a terra, aliás, indissociável das formas de ser humano. Terra e povo como uma unidade indissociável.

Ao longo dos anos, tua palestra trouxe para nós palavras alheias, palavras outras, porém palavras que nos fizeram ver indiretamente as nossas próprias vidas. Falaste de nós, sem saber, Chimamanda. Cada filha e filho dessas terras colonizadas e narradas de modos outros pelos colonizadores se vê no espelho de tuas palavras e, vendo a vida através dos teus olhos, pode pensar a si e a sua história, de modo indireto, literato, amoroso. Porque tu contas tuas histórias sorrindo, nós também queremos aprender a contar as nossas dessa forma. Com um largo e gigantesco sorriso que diz da bondade originária que ainda existe em cada um e uma de nós, indestrutível apesar do massacre.

Este livro que inicio trata de um dos momentos em que os estudantes da UFF, das regiões vizinhas a Niterói, leram ou escutaram tua palestra e pensaram nos perigos da nossa história unificada. E, em cartas, te responderam. Nosso sonho é o de que esse livro possa chegar a ti, e quem sabe te fazer sorrir por perceber que as forças das tuas palavras acenderam as brasas dessas forças indestrutíveis da alegria, da cultura, da amorosidade, da vida humana.

Com todo o meu amor, te agradeço por viveres no mesmo mundo que eu, trazendo a certeza de que é um excelente momento para se estar vivo, para se estar estudando, para se estar escrevendo histórias muitas e outras.

Marisol Barenco de Mello
Professora da disciplina,
Aprendiz desses autores que agora te escrevem.

Informação adicional

Ano de lançamento

2021

ISBN [e-book]

978-65-5869-368-0

Número de páginas

70

Organização

Amanda Rodrigues Pinto Costa, Heitor Matins Guimarães, Isadora Eccard Bersot

Formato