Diálogos e olhares bakhtinianos em interações rurais e urbanas

Autoria: Luís Fernando Soares Zuin

PREFÁCIO

“Não contem com o fim do livro” [1]

O grandioso e ousado milênio do livro já se foi no tempo. O livro ainda não desapareceu. Aqui temos o pensamento que ainda se faz livro impresso em folhas de papel, mesmo já nos tempos do império do “Príncipe Eletrônico”, na denominação paradigmática de Octávio Ianni[2]. Mesmo nos tempos do reinado da imagem televisiva e online, das linguagens – falada e escrita – virtuais nas plataformas digitais sem fim e dos programas operacionais, o objeto-livro impresso em papel continua na forma muito familiar e amorosa. É o caso do livro que o leitor tem em mãos para a “cheiração” e a leitura. É o mundo escrito por um ato emotivo-volitivo singular único e responsável. Para este ato existir é preciso imaginação, ousadia e transgrediência. Talentos que os autores revelam nos quatro capítulos do livro.

Porém, a comprensão deste fato real requer o conhecimento, a consciência e a apresentação de algumas premissas vitais que nos localizam e situam no espaço e no tempo da história material real.

Primeiramente, além da plena consciência do cronotopos contemporâneo – grande tempo – precisamos conhecer as condições e as circunstâncias sob as quais a humanidade, nas escalas local, regional, nacional e global vivencia e sofre as crises e tragédias naturais e humanas-sociais, cada vez mais destruidoras e aterrorizantes, repetidas e inéditas no planeta terra. Tempos pandêmicos da COVID-19.

Neste momento, é preciso ter cuidado e coragem para compreender e reconhecer a existência de uma outra premissa, embora sigilosa, estranha e dolosa:

As crises são essenciais para a reprodução do capitalismo. É no desenvolver das crises que às instabilidades capitalistas são confrontadas, remodeladas e reformuladas para criar uma nova versão daquilo em que consiste o capitalismo. Muita coisa é derrubada e destruída para dar lugar ao novo […]. As crises abalam profundamente nossas concepções de mundo e do lugar que ocupamos nele [3].

Para ampliar e esclarecer esta premissa, recorro ao novo paradigma que Octávio Ianni apresentou: “O Príncipe Eletrônico”. Sempre numa perspectiva histórica, Ianni apresenta, com plena exatidão e consistência teórica, a superação e sucessão dos príncipes pensados, criados e praticados no curso dos tempos modernos, feitos “mitos” para dominar a sociedade.

Temos, assim, “O príncipe de Maquiavel” “… uma pessoa, uma figura política, o líder ou condottiero, capaz de articular inteligentemente as suas qualidades de atuação e liderança (virtù) e as condições sócio-políticas (fortuna)…”; esses foram os tempos medievais dos imperadores, dos reis…

Depois, já nos tempos modernos da democracia, Gramsci descobre e apresenta o “moderno príncipe”, que não é uma pessoa, um líder, um político, mas uma organização: o partido político. Nas democracias, o partido político – “moderno príncipe” – se cria, se organiza e atua no âmbito da sociedade de classes. Sua força, seu poder e sua ação se concentram na organização política em busca da hegemonia, sempre no movimento da correlação de forças na disputa pela conquista e manutenção do poder do Estado, preferencialmente ao gosto dos interesses das corporações do capitalismo – forças das organizações da sociedade civil.

Na visão e nas proposições de Gramsci, os partidos tem um papel social múltiplo como organizações na luta das classes sociais.

“.Seu objetivo principal, mais ambicioso, é o desafio de construir hegemonia alternativa, na qual se expressam as classes e grupos sociais subalternos em luta para realizar a sua vontade coletiva nacional popular, alcançando a soberania” (IANNI, idem, p.4).

Nos tempos pandêmicos do coronavírus, o “moderno príncipe” foi mortalmente contaminado pela autocracia neoliberal e pelo populismo de direita.

Por último, temos o “príncipe eletrônico”, criado e desenvolvido por força da ciência e da tecnologia eletrônica – últimas décadas do século passado e os primeiros 20 anos do século XXI. Denominado e conhecido também por “maquinaria eletrônica planetária”, “neocolonialismo digital”, “plataformas digitais”, etc.

“… o príncipe eletrônico é uma entidade nebulosa e ativa, presente e invisível, predominante e ubíqua, permeando continuamente todos os níveis da sociedade, em âmbito local, nacional, regional e mundial. É o intelectual coletivo e orgânico das estruturas e blocos de poder presentes predominantes e atuantes em escala nacional, regional e mundial, sempre em conformidade com os diferentes contextos sócio-culturais e político-econômicos desenhados no novo mapa do mundo. É óbvio que o príncipe eletrônico não é nem homogêneo nem monolítico, tanto em âmbito nacional como mundial. Além da competição evidente ou implícita entre os meios de comunicação de massas, ocorrem frequentes irrupções de fatos, situações, relatos, análises, interpretações e fabulações que pluralizam e democratizam a mídia” (IANNI, idem, p.6).

O livro que o leitor tem em mãos foi escrito neste novo, comunicativo, informativo, confuso, complexo, ambivalente, global e globalizado palco-histórico-virtual. Um palco de cenários e espetáculos de entretenimentos compartidos pelos atores e telespectadores, inclusive pelas massas populares de baixa renda.

Já no primeiro capítulo, os autores Andreia Pereira de Araújo Matos e Luiz Fernando Soares Zuin valem-se da rede social Instagram e apresentam “… a proposta de realizar um diálogo entre a literatura, a linguagem das periferias brasileiras e a arte do funk”.

Neste ambiente digital, usam obras da literatura mundial e da ciência da história como Angela Davis, Karl Marx, José Saramago, Machado de Assis, Nietzsche e Aristóteles para arquitetar o “diálogo entre a literatura, a linguagem das periferias brasileiras e arte do funk”. É um escrito transgrediente, vai além do padrão oficial recomendado. Talvez, um escrito subversivo – denominação de moda de outros tempos – pois provoca transformações na escrita e na leitura. Diverte e emociona nossos corações e desorganiza nossas cabeças pela inovação das narrativas e das análises.

É importante destacar o uso, em todos os capítulos, das categorias de análise – concepções teóricas – de M. Bakhtin. Essas categorias de sentidos inéditos dão consistência às narrativas, às análises e às reflexões dos fatos e das circunstâncias históricas do mundo de hoje

No segundo capítulo, os autores Hélio Vicente Vieira da Silva e Luiz Fernando Soares Zuin fazem um exame e uma análise em profundidade dos sentidos da linguagem e do novo perfil do produtor rural – o poder da modernização da tecnologia na produção rural e da agroindústria e, acima de tudo, o poder da nova ferramenta de “comunicação rápida, prática e eficaz entre os produtores rurais e o diálogo com a sociedade urbana” (p.34). Aqui, também, as categorias de Bakhtin são largamente presentes e garantem uma “comunicação dialógica em sua totalidade”. Um belo e sedutor convite à leitura de quem gosta e se deleita com os versos da música caipira.

No terceiro capítulo, Carolina Darcie apresenta, com total exatidão e consistência, o sentido do seu escrito no próprio título: “A Aceleração dos Processos de Digitalização da Vida das Crianças Motivada pela Pandemia do Novo Coronavírus”. Carolina faz uma análise crítica pertinente das vantagens – benefícios da comunicação virtual – e das desvantagens – malefícios das obsessões operacionais – das ferramentas digitais ou poderíamos chamar também de “novos materiais didáticos” da educação online em tempos pandêmicos da COVID-19. Questiona os limites e a natureza do aprendizado por meio dessas redes de saberes virtuais. Vale a pena ler o escrito para detectar e entender em maior profundidade os sentidos desse “mundo virtual da educação” – sempre sob a luz das categorias Bakhtinianas.

Ler este livro é aproveitar os momentos fecundos e fortes de nossas vidas para meditar sobre o futuro da nossa cultura. Não podemos desaprender a pensar enquanto lemos, mas meditar do jeito que Nietzsche [4] nos ensina.

Assim como fiz a abertura, vou fechar este escrito com Umberto Eco.

Temos a prova científica da superioridade dos livros sobre qualquer outro objeto que nossas indústrias culturais puseram no mercado nesses últimos anos. Logo, se devo salvar alguma coisa que seja facilmente transportável e que deu provas de sua capacidade de resistir às vicissitudes do tempo, escolho o livro (U. Eco, 2016).

Desejo uma leitura prazerosa, amorosa e polifônica.

Cascavel, Pr. 2021
José Kuiava [5]

Referências

[1] Título muito pertinente e ousado – rebelde – do livro de leitura magistralmente divertida, escrito por Umberto Eco
e Jean-Claude Carrière, lançado pela editoria Record em 2016.

[2] Título do texto escrito por Octávio Ianni, apresentado em conferência no XXI Encontro Anual da ANPOCS-GT 19-
Teoria Social, Caxambú, 27 a 31 de outubro de 1998.

[3] HARVEY, David. 17 Contradições e o Fim do Capitalismo. São Paulo: Ed. Boitempo, 2016, p.9.

[4] BRUNI, José Carlos. O Tempo da Cultura em Nietzsche. Revista Ciência e Cultura, 2002

[5] José Kuiava, doutor em educação pela Universidade Estadual de Campinas, professor aposentado na
Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE.

 

Ano de lançamento

2021

Autoria

Luís Fernando Soares Zuin

ISBN [e-book]

978-65-5869-260-7

Número de páginas

132

Formato