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Estudos da linguagem: interfaces na linguística, semiótica e literatura em perspectiva

Eduardo Dias da Silva, Francisco Jeimes de Oliveira Paiva

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Descrição

PREFÁCIO

Éderson Luís Silveira

Foi em 2014, durante a IV Jornada de Linguagem, em Florianópolis, aos 23 de maio do referido ano, que o linguista José Luiz Fiorin mobilizou uma frase que me marcou profundamente: “Inteligência é a capacidade de aceitar e acolher a diferença”. Desde antes de o enunciado em questão ter sido pronunciado, eu vinha estabelecendo diálogos entre os estudos linguísticos e literários, o que gerou, não poucas vezes, certo desconforto até que, em 2018, publiquei um texto intitulado “A descontinuidade das Letras (in) fiéis: notas sobre relações (im) possíveis entre a Literatura, a Linguística e (os estudos d) a Linguagem”. A utilização do vocábulo (im) possível remete a uma constatação advinda da experiência: se há relações possíveis entre Linguística e Literatura, tais possibilidades também podem sofrer interdições. Isso porque a escrita havia nascido de um desconforto, originado da percepção de que na academia, não raras vezes, os engavetamentos e reproduções de “igrejas” teóricas vêm acompanhados de certa ojeriza em relação ao que é diferente, ao que não é familiar.

Em 2019, outro desconforto originou o capítulo de livro intitulado “Em tempos de balbúrdia não deixe seu linguista em paz: (a inquietude d) a distância entre o discurso e a prática”: o distanciamento cada vez mais abissal entre o discurso e a prática na universidade. Na ocasião, mencionei a necessidade da instauração de movimentos autorreflexivos para que práticas e discursos autoritários não fossem (re)produzidos, expandindo tentáculos de alcance nas relações acadêmicas, principalmente em relação ao respeito à diferença, tão necessário e urgente na universidade (e fora dela também).

Linguística e Literatura são áreas cujos estudiosos frequentemente se digladiam. A despeito disso, é importante mencionar que, historicamente, a constituição de ambas as disciplinas no Brasil se deu de modo, no mínimo, inusitado em contextos nos quais elas partilharam entrecruzamentos e descontinuidades. Para que se tenha uma ideia da complexa relação entre as disciplinas mencionadas, Affonso Romano de Sant’ Anna mencionou, em 1972, no prefácio de seu livro Análise estrutural de romances brasileiros, por exemplo, que, ao ingressar no curso de pós-graduação em Literatura Brasileira, em 1970, enfrentou dificuldades para encontrar materiais que exemplificassem aplicação do estruturalismo a romances e narrativas em geral. Marisa Lajolo, no texto intitulado “Literatura, Linguística e Linguagem: uma questão de diferença”, publicado na Revista da ABRALIN no segundo semestre de 2011, afirmou que foi na década de 60 do século XX que a Linguística adentrou o recanto das Letras da universidade brasileira. No âmbito do período mencionado, em 1968, por intermédio do professor Boris Schnaiderman, em esforço conjunto de várias disciplinas da (então) Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, Roman Jakobson veio até São Paulo.

Já Fiorin, em um texto intitulado “Linguagem e interdisciplinaridade”, publicado na Revista Alea no primeiro semestre de 2008, elucidou que, nos anos 60, a Literatura chegou a se apoiar na Linguística para a elaboração de uma teoria do texto literário. Foi entre o final de 1970 e o início de 1980 que se deu o rompimento entre as áreas. Dessa forma, os estudiosos da literatura voltaram a usar a gramática tradicional para referir-se a fatos da língua e os linguistas abandonam a semiologia com o advento da teoria gerativa, da pragmática – que se dedica à linguagem verbal – e, então, houve a ampliação do campo de estudos da Linguística com o aparecimento dos estudos do discurso e da linguística textual. Para além da presença, do apogeu e do declínio do estruturalismo no campo das Letras cabe assinalar que o aparecimento de uma disciplina específica (inserida na ordem do cronograma de uma ciência institucionalizada) que, com o tempo, foi ganhando cada vez mais espaço faz com que pensemos não em termos de hierarquia, mas que pensar a relação entre Literatura e Linguística não é apenas uma questão acadêmica, mas política.

Antes disso, em 1919, Freud havia publicado um texto intitulado Das Unheimliche (O estranho/O inquietante). Tal escrito buscava refletir acerca do sentimento de estranheza dos seres humanos e tem por base o conto O homem da areia, de E. T. A. Hoffman. Tal estranheidade pode ser vista, então, como algo relacionado a um estranho que também nos é familiar. Não é à toa que tal texto obteve recepção significativa no âmbito dos estudos linguísticos, literários, estéticos e filosóficos, talvez até mais que no próprio âmbito psicanalítico.

O interessante do texto freudiano é que ele se assenta sobre uma ambiguidade constitutiva. A palavra heimlich quer dizer familiar, mas também escondido, oculto, secreto, tornando-se, assim, muito próxima de seu oposto, unheimlich. Pode ser exemplificada, por exemplo, com uma situação: quando um animal doméstico não reconhece seu dono, alguém que deveria ser familiar. Já no espanhol, por exemplo, estrañar quer dizer sentir saudades, referente ao que não está mais presente, mas que já esteve. Por isso, podemos afirmar que se trata do estranho familiar.

Onde quero chegar com essas elucubrações, afinal? Bom, falar de diálogos entre áreas remete a uma problematização elementar: no caso em questão, Literatura, Linguística e Linguagem são termos que têm aparição frequente em cursos de graduação e pós-graduação de Letras país afora, na maioria das vezes por meio da circunscrição de espaços (de) limitados que as distanciam. Diante disso, a Semiótica, enquanto área particular, parte de uma especificidade: a explicação de fenômenos da vida social, visando mostrar que os conhecimentos são construídos por meio da aprendizagem de diferentes signos. Vale destacar, portanto, que as três áreas que dão título a esta obra que está sendo prefaciada fazem parte do aglomerado heterogêneo de teorizações e de epistemologias abarcado pelos Estudos da Linguagem.

Nesse contexto, para o filósofo Guy Oliver Faure, professor de Sociologia da Sorbone, práticas de pesquisa que consideram a relação entre diferentes áreas, devido ao fato de não constituírem disciplinas estanques, constituem Indisciplina, suscitando repercussões problemáticas institucionais entre os professores. Não é à toa que, em 2006, no livro Por uma linguística aplicada indisciplinar, Moita Lopes se apropriou do termo. Outrossim, com Moita Lopes, cabe ressaltar que, tanto na vida pessoal como na pesquisa, não se pensa homogeneamente e não se pode negligenciar o fato de que todo 10 conhecimento é político e vem de algum lugar.

Desse modo, a existência de obras, de enunciados e de textos que partem do diálogo entre áreas constitui um conjunto de atos indisciplinares, e isso não é pouco. Nesse interim, respeitar e acolher a diferença são atos que não constituem apenas uma necessidade ética, trata-se de uma urgência em meio a negacionismos e ojerizas compartilhados de orientador (a) para orientado (a), de estudante para estudante, de professor (a) para discente no decorrer da história. Esse círculo vicioso precisa ser rompido e o diálogo entre áreas, ou mesmo a presença de áreas diferentes num enovelado composicional de obras publicadas, é um ato de responsabilidade, visando romper a falta de acolhimento da diferença na universidade.

Nesse contexto, o estranho familiar não é apenas um paradoxo: ele é constitutivo das relações humanas que se desenvolvem e se desconstroem em meio a comunidades linguageiras heteróclitas e livres. Assim, cada gesto vai se articulando a outro (ou deveria) para acolher e aceitar a diferença epistemológica que constitui a heterogeneidade de manifestações teóricas possíveis que a universidade pode abarcar (dentro e fora de si). Desconfio, desde longa data, da obstinação do saber que não garanta o descaminho daquele que conhece porque se estudar passa a estar associado a um lugar em que aquele que conhece antecipa o que vai encontrar e se fecha para considerações intempestivas do trajeto, então não se está utilizando a teoria como uma caixa de ferramentas, mas como objeto de cristalização do conhecimento. Se para alguns, na prática, a escrita ainda não se liberou dos terrenos da (“pura”) expressão e a língua continua sendo um canal de comunicação, que veicula mensagens entre um enunciador e um receptor de forma tranquila e harmoniosa, para outros, a pesquisa pode suscitar o acolhimento daquilo que é diferente (ainda que seja familiar). Diante disso, nosso desejo é que quem estiver lendo encontre nesta obra condições para desconfiar de naturalizações impostas, ao encontrar aqui textos de autores (as) que desenvolveram pesquisas em diferentes âmbitos, por meio de modos renovados de apropriação.

Boa leitura!

Informação adicional

Ano de lançamento

2021

ISBN [e-book]

978-65-5869-183-9

Número de páginas

170

Organização

Eduardo Dias da Silva, Francisco Jeimes de Oliveira Paiva

Formato