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Formação contínua e o coordenador pedagógico da educação infantil

Kalline Pereira Aroeira, Karine de Abreu Melo

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PREFÁCIO

As transformações no campo social e familiar, as mudanças econômicas, sociais, políticas, tecnológicas e os avanços na pesquisa educacional trazem novas demandas para as escolas, na efetivação da qualidade social e na promoção da emancipação do sujeito para a produção de uma sociedade mais inclusiva e mais justa. A pandemia mundial da Covid 19, decorrente da disseminação do vírus SARS-CoV-2, impôs para a sociedade global medidas de distanciamento social, que alteram substancialmente o trabalho escolar e expõem ainda mais a exclusão social e digital. Neste contexto plural, cada vez mais são exigidas formas críticas e criativas de pensar e elaborar o fazer pedagógico, alçando a formação contínua a instrumento potente para o desenvolvimento profissional de educadores e da instituição escolar.

Trespassado pelas questões frementes deste tempo, o compromisso social e político é uma marca deste livro, intitulado Formação contínua e o coordenador pedagógico da Educação Infantil, com o foco na formação crítica do coordenador pedagógico, conforme anunciado pelas autoras, “[…] na qual os coordenadores pedagógicos decidem sobre os seus processos formativos, fundamentados pela reflexão crítica, apoiados em conhecimentos da área da Pedagogia e da Didática 14 crítica.”. Igualmente, assumem a escola, em qualquer tempo, como local de formação para professores e referência para a elaboração de projetos de formação contínua de coordenadores pedagógicos na busca por uma educação como instrumento de emancipação e humanização nas relações sociais.

Nesta produção, as autoras fazem uma importante e original reflexão sobre a formação contínua do coordenador pedagógico e seu impacto no trabalho como formador de professores na educação infantil. Fundamentam-se no entendimento de que há no trabalho docente, com crianças pequenas, uma indissolúvel relação entre teoria e prática, manifestada na práxis pedagógica cotidiana. Caminham, ao explorarem as particularidades da educação infantil, primeira etapa da educação básica, no sentido de trazer contribuições para o avanço qualitativo das práticas desenvolvidas pelos professores de crianças de 0 a 5 anos.

No âmbito da Educação Infantil, principalmente após as creches serem vinculadas aos órgãos do sistema de educação escolar, houve uma transformação na estrutura física e nas concepções pedagógicas dessas instituições, coerente com a inversão de alguns valores, ou seja, a educação como um direito da criança pequena, a criança como ser de cultura, e a construção de um equilíbrio entre o educar e o cuidar, aspectos indissociáveis, na luta pela 15 superação do assistencialismo histórico associado, sobretudo, ao trabalho nas creches.

Nesse cenário de mudança, a figura do coordenador torna-se estratégica para a organização do trabalho didático pedagógico na educação infantil, ao propiciar que o docente ressignifique a sua prática pedagógica, à medida que transforme sua concepção de criança pequena, entendendo-a como um ser social e histórico que elabora conhecimento e produz cultura na interação com os outros, crianças e adultos.

Ampliar as fronteiras conceituais da escola, construir novos consensos, organizar o projeto político pedagógico, promover a formação contínua são tarefas complexas e de suma importância para a consecução do direito à educação, exigindo permanente desenvolvimento profissional do coordenador pedagógico.

Não obstante, à medida que o discurso econômico vai capturando o discurso pedagógico, o coordenador e toda equipe escolar fica vulnerável às ordens do discurso institucional que impõem sobre a escola projetos educativos e de formação externos a ela, trabalhando pela colonialidade do fazer pedagógico. Assim, como o ato educativo não se dá no vazio, o trabalho da coordenação pedagógica é situado num espaço/território onde se confrontam concepções sobre ensino, aprendizagem, formação, dentre outras. Sujeito às forças da cultura escolar e das políticas públicas de educação, cada escola, em seu bairro, cidade, estado, manifesta características 16 culturais, lingüísticas, econômicas e sociais diversas, que acrescentam desafios à formação das crianças.

Mesmo frente a complexidade do educar e do cuidar de crianças pequenas, o fazer do coordenador pedagógico é, frequentemente, absorvido pelas “emergências” da rotina escolar. É o que afirmam as coordenadoras, cujos relatos compõem a narrativa deste livro. Tais demandas desfavorecem tanto a formação contínua do próprio coordenador como impõem limites ao trabalho formativo desenvolvido por ele com a equipe escolar. A emergência do cotidiano escolar, enquanto categoria de abordagem da prática profissional do coordenador pedagógico, tem na reflexão crítica e coletiva, nos processos de formação, e na organização da sua agenda, ou seja, dos tempos e das tarefas intrínsecas à coordenação pedagógica, um caminho fértil no enfrentamento dessa dificuldade

Portanto, promover condições de trabalho e de formação para docentes e coordenadores pedagógicos deve constituir-se como base das políticas públicas de educação, fomentando a participação de ambos os profissionais na organização coletiva de projetos destinados ao próprio desenvolvimento profissional. Ao garantir a participação coletiva, os projetos formativos revestem-se de significados, partem da necessidade expressa desses educadores, fortalecem e promovem as mudanças necessárias 17 ao desenvolvimento de todas as crianças e da instituição escolar.

Considerando que a formação do coordenador e a formação do professor em serviço, centradas nas práticas escolares, devem caminhar paralelamente, não é segredo que dependerão de um projeto imbricado que atribua aos educadores grande responsabilidade e poder, como nos afirma João Barroso, pesquisador português, “[…] para que se possa estabelecer a integração entre o “lugar de aprender” e o “ lugar de fazer”, é preciso, também, que sejam criadas condições para que se produza uma outra relação entre o “saber” e o “poder” nas escolas” (BARROSO, 2003, p. 74).

Embora, muito da esfera de decisão não se encontre na escola, num claro cerceamento de poder, o que se deseja é que as políticas públicas de formação contínua reconheçam os saberes de docentes e de coordenadores pedagógicos como uma realidade social materializada por meio de uma formação inicial e contínua, de práticas, de uma Pedagogia, de saberes da experiência que lhes fornecem princípios para enfrentar e solucionar as questões cotidianas, capacitando-os, também, para pensar de forma coletiva e colaborativa seus processos de formação.

A pesquisa, realizada com profissionais da educação que atuam como coordenadores pedagógicos na Educação Infantil, estabelece um diálogo, coerente com as opções teóricas, com o pensamento de coordenadores iniciantes e 18 veteranos, descrevendo suas dificuldades, dúvidas e as possibilidades para o seu trabalho como formadores na educação infantil. No processo, revela a não neutralidade das instituições que dão suporte a atividade escolar e firma como preponderante o exercício de “saber” e “poder” inerente a elaboração de processos formativos em contextos coletivos. Reconhece os saberes desses profissionais, não como ponto de chegada, mas como ponto de partida.

Toma a escola como lugar de redefinição de saberes para professores, alunos e coordenadores pedagógicos, reconhece-a como um lugar de contradição, reafirmação, negação e criação de conhecimentos, que partilhados constituem pautas/cenários para formação de coordenadores e não a assimilação de determinações de amplitude nacional, que se pretendem válidas para todas as escolas.

Este livro, produzido por Karine de Abreu Melo e Kalline Pereira Aroeira, apresenta uma concepção de formação contínua bastante diferenciada em relação as visões padronizadas. Valoriza os saberes profissionais dos coordenadores pedagógicos, fundamentados na produção teórica e na análise crítica dos dados da pesquisa, sustenta a ideia de práticas formativas que considerem os contextos socioculturais e institucionais na construção da identidade desses profissionais, o que, portanto, certamente contribuirá para que professores, coordenadores pedagógicos, diretores 19 e gestores educacionais em geral encontrem caminhos para repensar, promover e consolidar processos significativos de formação.

São Paulo, inverno de 2021

Profa. Dra. Isaneide Domingues

Informação adicional

Ano de lançamento

2021

Autoria

Kalline Pereira Aroeira, Karine de Abreu Melo

ISBN

978-65-5869-476-2

ISBN [e-book]

978-65-5869-477-9

Número de páginas

154

Formato