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O Concílio Vaticano II como evento dialógico: O pensamento de Mikhail Bakhtin e o discurso religioso na contemporaneidade

Rosangela Ferreira de Carvalho Borges, Valdemir Miotello

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Descrição

APRESENTAÇÃO

50 anos de Vaticano II:   em busca de um pensar dialógico

Rosangela Ferreira de Carvalho Borges

“O ser que se autorrevela não pode ser forçado e tolhido. Ele é livre e por essa razão não apresenta nenhuma garantia. Por isso o conhecimento aqui não nos pode dar nada nem garantir, por exemplo, a imortalidade como fato estabelecido com precisão e dotado de importância prática para a nossa vida. ´Acredita no que diz o coração, não há garantias no céu2´ ” (BAKHTIN, 2011, p. 395).

A abertura da primeira sessão do Concílio Vaticano II ocorreu numa quinta‐feira, dia 11 de outubro de 1962, sob a orientação do papa João XXIII, embora a decisão de convocar um Concílio Ecumênico tenha sido divulgada alguns anos antes, exatamente em 25 de janeiro de 1959 na Basílica de São Paulo, dois meses e meio após João XXIII assumir o papado, finalizado em 1963 com sua morte.

As encíclicas Mater et Magistra e Pacem in Terris iniciaram o processo de diálogo da Igreja Católica com o mundo, rompendo com a autocompreensão monolítica da Igreja, que até então se entendia como uma sociedade perfeita. A expressão “Igreja dos pobres” é adotada pelo Concílio Vaticano II3 e a ideia de transformar a Igreja em “Igreja dos pobres” influencia o trabalho de uma geração de teólogos latino‐americanos.

Dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife, falecido em 1999, reconhecido internacionalmente como um grande defensor dos direitos humanos durante a ditadura militar no Brasil, em depoimento a Nelson Piletti e Walter Praxetes, autores da obra biográfica Dom Hélder Câmara. Entre o poder e a profecia, publicada em 1997 (p. 276), fala da importância do Vaticano II como evento que insere a Igreja Católica no mundo moderno:

Para se ter uma ideia da importância do evento para os católicos, nos dois mil anos de história da Igreja ocorreram apenas vinte e um concílios desse tipo.   Décimo nono encerrara‐se no remoto ano de 1563, na cidade de Trento, Itália, tendo decidido pelo duro combate da Igreja aos movimentos de reforma protestante. O vigésimo termina em 1870, na cidade do Vaticano, depois que os bispos reafirmaram a doutrina da infabilidade do papa. Isto, portanto, antes do invento do automóvel, do telefone, do rádio, da televisão e do avião, e antes também das duas guerras mundias e da revolução russa, acontecimentos que mudaram o mapa do planeta no século XX e selaram o destino de bilhões de seres humanos.

Em linhas gerais pode‐se dizer que a proposta básica do Concílio Vaticano II era tornar a Igreja Católica mais próxima de um mundo em plena transformação e abrir caminho para um ecumenismo dinâmico e para a recuperação de fiéis católicos que, cada vez mais, estavam partindo para as igrejas não‐católicas, principalmente para as protestantes não‐históricas.

Dom Hélder Câmara como um dos poucos bispos brasileiros nomeados para participar das comissões de preparação do Concílio Vaticano II, acentua a importância de vislumbrarmos o momento histórico em que o Concílio foi convocado:

João XXIII convoca o Concílio Ecumênico na época da guerra fria e da corrida espacial, para se reunir pela primeira vez em outubro de 1962, preocupado que estava com o enfraquecimento da influência política do Vaticano num mundo dividido entre o poder nuclear e econômico de duas superpotências – Estados Unidos e União Soviética  ‐  e com a perda crescente de fiéis católicos praticantes na maior parte dos países onde a Igreja estava implantada (PILETTI e PRAXEDES, 1997, p. 276).

De maneira sintética – bastante sintética  ‐  é possível destacar três grandes vértices norteadores na proposta de renovação teológico‐pastoral do Concílio Vaticano II:

1‐ diálogo da Igreja com o mundo moderno (contato com as ciências, a política nacional e internacional, os meios de comunicação e movimentos culturais, entre outros);

2‐ diálogo da Igreja com as religiões não‐cristãs (ecumenismo e diálogo inter‐religioso),

3‐ nova compreensão da Igreja e nova missão universal, ou seja, a Igreja que se compreendia como sociedade perfeita e como poder absoluto, agora se compreende como comunidade e serviço.

Se o Concílio Vaticano II favoreceu novos rumos para a Igreja Católica em várias partes do mundo, possibilitando novas experiências eclesiais, no sentido de legitimar e condensar inovações teológicas, pastorais e litúrgicas, na América Latina o Concílio produziu um processo acelerado de renovação eclesial, abrindo as fronteiras da Igreja para o campo social, pressionada pela própria conjuntura social, política e econômica da década de 1960.

Informação adicional

Ano de lançamento

2021

ISBN

978-85-7993-185-7

ISBN [e-book]

978-65-5869-439-7

Organização

Rosangela Ferreira de Carvalho Borges, Valdemir Miotello

Formato

Número de páginas

283