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Os sujeitos do Ciclo do Marabaixo e a Igreja Católica: o funcionamento do dispositivo religioso nos processos de subjetivação de negros

Ednaldo Tartaglia

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Descrição

PREFÁCIO

ENTRE O LUGAR DE FALA E A RESISTÊNCIA QUE SE PRODUZ A PARTIR DESSE LUGAR: O PAPEL DO INTELECTUAL Pareceu-me razoavelmente apropriado alicerçar um possível efeito para este Prefácio, gentilmente confiado a mim, no modo como Michel Foucault assim constrói a figura do intelectual: “O papel do intelectual não é mais o de se posicionar ‘um pouco à frente e um pouco ao lado’ para dizer a verdade muda de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder ali onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento disso: na ordem do ‘saber’, da ‘verdade’, da ‘consciência’, do ‘discurso’1 . Arrisco afirmar que essa citação pode ser vista como uma importante defesa de Ednaldo Tartaglia, em Os sujeitos do Ciclo do Marabaixo e a Igreja Católica: o funcionamento do dispositivo religioso nos processos de subjetivação de negros, justamente porque as palavras de Foucault dão, aqui, suporte para uma posição de pesquisador que não é negro, tampouco procedente de regiões periféricas, mas vai em busca de escavar as relações de poder-saber em discursos que colocam em situação de embate sujeitos negros, de um lado, e brancos representantes de uma religião judaico-cristã, europeia e colonizadora, de outro.

Ultimamente, sobretudo nas redes sociais, ouvimos, com certa frequência, pessoas valerem-se da expressão “lugar de fala” como forma de reivindicação de um direito que somente a elas caberia para falar por aqueles que sofrem algum tipo de exclusão social, seja pela cor de sua pele, seja pelo seu nível social, seja pela sua orientação sexual, por exemplo. Nessa linha de raciocínio, apenas os negros poderiam narrar sua história, pelo fato de terem sido eles os que sofreram as interdições e protagonizam as lutas que fizeram do Ciclo do Marabaixo macapaense uma manifestação cultural à margem e, ao mesmo tempo, centro dos embates contra uma sociedade preconceituosa.

Mas busquemos no texto mesmo de Tartaglia (ou, caso queiram, o lugar de fala construído na pesquisa que ele desenvolveu) elementos que possam recolocar essa questão, considerando-se as sobredeterminações deste gênero discursivo sobre minha escrita: “Como analista do discurso, entendo essa expressão [o autor faz referência ao racismo estrutural] como uma maquinaria discursiva, constituída por dizeres, ações, leis, práticas institucionais e culturais etc., que foi inscrita nas práticas sociais e que, constantemente, funciona e recai de forma negativa e preconceituosa sobre determinado sujeito ou corpo social negro, acarretando desigualdades entre indivíduos, construindo fronteiras sociais, privilégios, prejuízos, preconceitos entre outros”.

Acontece que fazer pesquisa de um ponto de vista históricodiscursivo, como esta que nos é apresentada, é já se colocar nesse entremeio de que fala Foucault. E a tarefa é tão desafiadora quanto prazerosa e necessária, por vários motivos, dos quais vou citar apenas um mais geral, deixando outros e os seus desdobramentos, quem sabe, para uma futura publicação em parceria com Tartaglia.

Tendo em vista o empreendimento de uma pesquisa sobre a temática exposta, com base no arquivo ao qual se teve acesso pela teoria do enunciado, o desafio tem a ver com o fato de que somos levados a adentrar na região cinzenta da genealogia do acontecimento do Marabaixo, e, uma vez estando nela, deparamonos não com algo secreto, oculto sobre tais sujeitos, mas com o próprio nível daquilo que foi efetivamente dito, mesmo que esteja interditado, rarefeito, encoberto por camadas pesadas de regras de formação histórica. O visível e o enunciável, para usar a distinção feita por Deleuze2 , desse acontecimento tem uma historicidade, que lhe dá significação.

Por que faço essa breve aproximação da perspectiva genealógica com o lugar de fala no qual se coloca Tartaglia para descrever os sujeitos negros e as relações de poder-saber que configuram as lutas e as resistências contra uma dominação branca e religiosa?

Quando nos colocamos no lugar de fala de “analista do discurso” e nossa abordagem parte do “acontecimento do encontro do sujeito com o poder”3 , somos chamados a realizar um tipo particular de análise que se dá, conforme indica Foucault4 , “[…] em termos de genealogia das relações de força, de desenvolvimentos estratégicos e de táticas. Creio que aquilo que se deve ter como referência não é o grande modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da batalha. A historicidade que nos domina é belicosa e não linguística”.

(…)

Informação adicional

Ano de lançamento

2021

Autoria

Ednaldo Tartaglia

ISBN

978-65-5869-330-7

ISBN [e-book]

978-65-5869-374-1

Número de páginas

171

Formato