Descrição

PREFÁCIO

(…) o Estado realmente existente – incluindo, claro, o
moderno “Estado democrático” capitalista – é caracterizado
não só por lei e direito, mas também pela absolutamente
destrutiva ilegalidade e assim pelo diametralmente oposto de
lei legítima. (Istvan Meszaros)

 

Um texto com o frescor da juventude, com o tom e a alegria da descoberta. Sim, esse é o texto a ser lido neste livro. Ele conta a história de uma menina recém-saída de um curso de Pedagogia, recémchegada ao mundo do trabalho em uma escola infantil pública. Com muitos discursos professorais na memória, tentava encontrar a escola que a universidade lhe apresentara durante os quatro anos de curso. Ia de olhos abertos para ver aquele espaço que conhecia desde a infância, que agora se apresentava de cabeça para baixo. Sim, de cabeça para baixo – ela agora estava na posição inversa, era a educadora, a professora, a responsável pelo processo educacional.

Seus primeiros passos foram movidos pelo encantamento. Tentava reconhecer as imagens, as cores, os sons, os odores, os ruídos estranhos que vinham de fora. Percorreu os espaços das salas de aula, os espaços de brincar, a sala das professoras, a diretoria, a secretaria, os pátios e parquinhos. Tentava saber o que seria a escola para a professora, lugar onde exerceria a arte de educar e cuidar de crianças pequenas, espaço onde ela mesma seguiria se educando em novas relações a serem ali estabelecidas.

A escola é um lugar de muitos papéis: logo aos primeiros olhares, eles aparecem nos quadros de aviso, nas mesas de trabalho; são entregues pelas secretárias, por coordenadoras, supervisores, diretores e representantes sindicais. Nessa casa as conversas, os sorrisos e as leituras se entrelaçam.

Mariana não deixava passar nada, queria ver e participar de tudo o que ocorria nessa escola de um bairro com nome de vila, lembrando sua origem popular, e o nome de autoridade remetendo à recente ditadura militar. O encantamento ficava reservado para o espaço bem cuidado que acolhia as crianças barulhentas, suadas, tímidas e ousadas, alegres e emburradas. A curiosidade e a apreensão faziam parte das reuniões semanais com a chamada equipe técnica da escola e da Secretaria de Educação. Desse espaço físico e temporal emanavam as orientações às docentes, às auxiliares e aos pais dos alunos. A jovem professora conferia as orientações com o que havia aprendido na universidade e, claro, muita coisa não batia: o que se dizia lá não se fazia presente aqui, pensava ela, ou mais: o que se via aqui negava o que se acreditava lá.

Nesse pensar, analisar, refletir, ler, nos tempos que lhe sobrava da labuta com as crianças, Mariana passou seu primeiro ano como professora, na chamada rede pública de educação infantil de Campinas. De tudo o que havia vivenciado, um tema não lhe saía da cabeça: era um tal discurso sobre a laicidade, presente em todas as reuniões técnicas e objeto de insistentes seminários e debates pedagógicos. Para ela esse discurso corrente era gratuito na escola. Gratuito porque não havia sinais do pensamento religioso no projeto da escola, no processo de ensino, e nem mesmo traços de qualquer religião marcavam os espaços físicos ou simbólicos aparentes. Era hora de voltar para a universidade. Buscar formas de compreender essa história.

Entrou no curso de mestrado com o propósito de desvendar essa ilha de laicidade numa sociedade povoada de cristianismo por todos os lados. Seu projeto encheu de curiosidade professores e professoras, certos de que os traços da cultura católica que a garota não havia conseguido encontrar estariam dissimulados no universo escolar público. Certos ainda de que tal busca necessitava de método. Teve então início o trabalho de pesquisa: registro em caderno de campo das observações do espaço escolar, dos discursos em reuniões oficiais e no cafezinho na sala de professores; organização e estudo dos documentos de orientação aos pais e professores; exame das atas e pautas de reuniões e seminários de estudos. Olhos e ouvidos abertos para não deixar escapar nada.

(…)

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