ISBN: 978-65-87645-27-8
eISBN: 978-65-87645-28-5

Autor/Organizadores: Aline Saddi Chaves; Lucinéia Ramos

PREFÁCIO

O ESPECTRO DE ROQUETTE-PINTO

No Brasil dos anos 1920, de 60 a 70 por cento do povo brasileiro não sabia ler e escrever. Enquanto isso, nações mais desenvolvidas experimentavam a novidade tecnológica do momento: o rádio. Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), havia aparelhos usados na comunicação entre as tropas encalhados no depósito da companhia Westinghouse. Até uma boa ideia colocar uso naqueles equipamentos condenados à sucata. Os proprietários construíram uma estação transmissora no pátio da fábrica e distribuíram os rádios armazenados aos vizinhos. Transmissões foram realizadas para que os moradores das redondezas ouvissem em seus receptores. Deu tão certo que a Westinghouse passou a produzir e comercializar aparelhos de rádio que irradiavam a programação daquela que é considerada a primeira emissora radiofônica dos Estados Unidos, chamada KDKA. Era inaugurada uma década de vertiginosa ascensão da então nova mídia. Os primeiros conteúdos da KDKA foram boletins sobre as eleições estadunidenses em novembro de 1920. Ouvido por apenas mil pessoas, o feito ganhou destaque nacional e motivou a rádio a diversificar sua grade, incluindo cultos religiosos e músicas da banda formada por funcionários da companhia. Abriu-se um mercado vigoroso que logo se expandiu.

Alguns anos antes, no Brasil, era realizada a Missão Rondon, com o objetivo, entre outros, de estudar e registrar as culturas indígenas distribuídas pelo país. Um dos resultados mais notáveis e cruciais das pesquisas foram as provas científicas que desmontavam o consenso intelectual vigente de que a miscigenação estava criando raças degeneradas e inferiores. Os trabalhos da Missão Rondon mostraram que os problemas daquelas pessoas eram consequência de condições sociais e políticas que precarizavam a saúde e a educação públicas, e não de suas configurações biológicas. Em 1912, um dos integrantes da Missão Rondon era um jovem professor e antropólogo chamado Edgar Roquette-Pinto, que adotou como projeto de sua vida a educação de pessoas a quem era negado o acesso ao ensino. Então, chegava a década de 1920. Nela, os caminhos de Edgar Roquette-Pinto e dos experimentos exitosos da radiodifusão nos Estados Unidos se cruzariam.

O Brasil estava prestes a completar o primeiro centenário de sua Declaração de Independência. O ano era 1922 quando uma feira tecnológica trouxe dos Estados Unidos os últimos avanços no segmento da radiodifusão. Para testar os novos equipamentos e convencer os investidores, foi organizada uma grandiosa experimentação, que também serviria para celebrar os 100 anos do Brasil como pátria independente. Estações transmissoras foram instaladas em Petrópolis e Niterói, mas a que despertou ainda mais o idealismo em Edgar Roquette-Pinto estava no alto do Morro do Corcovado, na cidade do Rio de Janeiro. Através dela, o presidente da república Epitácio Pessoa proferiu seu discurso de 7 de setembro e o professor escutou com estranheza e entusiasmo. Estranheza pelos ruídos “roufenhos”. Entusiasmo porque vislumbrou as possibilidades do rádio para sua estimada missão de levar a educação a quem estava negligenciado pela sociedade e governos.

Depois disso, Edgar Roquette-Pinto, com vários apoios, entre eles, o do engenheiro e astrônomo franco-brasileiro Henrique Morize, criou sua própria emissora: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, inaugurando a radiodifusão no Brasil em 1923. Com músicas de concerto e notícias dos jornais, a programação apresentava conteúdos educativos, como palestras sobre ciências, declamações de poesias, aulas de literatura e saraus. Eram programas direcionados a pessoas que desejavam e precisavam aprender e enriquecer seus intelectos, o que ajudava a abrir chances melhores em espaços de trabalho. Eram como aulas em áudio ao vivo, ancestrais dos telecursos, do ensino a distância e das aulas-remotas, tão utilizadas em tempos de isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus. Além disso, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e as emissoras que surgiram depois semearam, desde o início da radiodifusão no Brasil, a ideia de rádio educativa que, mais tarde, seria prevista em legislação como atributo obrigatório de emissoras sem fins comerciais e com objetivo exclusivamente culturais e educativos. Um exemplo é a Rádio Educativa 104 FM, descendente dos ideais de Edgar Roquette-Pinto.

É possível afirmar que o rádio no Brasil é fruto do desejo de educar, de transmitir conhecimento e cultura, e de elevar o nível intelectual de forma democrática, acessível livremente a todo o povo. Obviamente, em quase um século de existência, o rádio brasileiro diversificou suas produções. Tornou-se comercial, humorística, esportiva, jornalística, ideológica, publicitária e musical, afastando-se da concepção original sonhada por Roquette-Pinto ou aglutinando seus conceitos a essas características. Provavelmente, durante décadas, o rádio contribuiu de alguma maneira para a melhoria do nível educacional das pessoas, mas vários fatores passaram a ser mais decisivos para essa evolução, embora outros sérios problemas estruturais da educação no país já não dependam tanto de um rádio educativo. Além disso, a televisão e as tecnologias digitais de informação vem ocupando o protagonismo nas propostas para responder a demandas educacionais contemporâneas do Brasil.

Porém, o espectro do rádio educador emanado por Roquette-Pinto ainda paira benignamente em excelentes práticas no bom e velho rádio. Práticas que utilizam o poder ainda forte dessa mídia para levar ao público conhecimento e aprendizado. Uma dessas experiências é o “UEMS em Sintonia”, série de programas breves – no jargão do meio, programetes -, veiculada pela Rádio Educativa 104 FM de Campo Grande (MS). A ação ganha as páginas do livro “Cem Crônicas de Linguagem”, idealizado e organizado pela jornalista Lucinéia Ramos, que atuou por anos na redação dos noticiários dessa emissora pública e educativa. Os programas são focados na área de Letras, com informações significativas sobre linguística, semântica e outros ramos do estudo do idioma, mas se estende para temas que envolvem o universo acadêmico e a importância da pesquisa. Elaborados pela professora Dra. Aline Saddi Chaves, os programas mostram a união entre a solidez dos conteúdos e a dinâmica da comunicação radiofônica. O resultado é uma verdadeira enciclopédia sonora que invadia os intervalos da programação da rádio, muitas vezes, surpreendendo a audiência com pequenas e substanciais doses de novos aprendizados sobre a língua que usamos para falar, escrever e expressar nossas percepções sobre a vida. Mérito do rádio e sua intacta capacidade de permitir que informações sejam absorvidas em qualquer grau de atenção.

Agora, temos a oportunidade de fazer contato com a riqueza desse conjunto de pequenas aulas no livro “Cem Crônicas de Linguagem”. Ciente da singularidade da linguagem radiofônica, a coautora e organizadora também disponibiliza áudios dos programetes, que podem ser ouvidos como uma espécie de podcast, acompanhado ou não pela leitura dos textos transcritos na obra. É um convite a novos horizontes do saber e ao reencontro com o sentimento que levou Edgar Roquette-Pinto, nos anos 1920, a desejar e conceber os primórdios do rádio no Brasil. Afinal, para ele, o rádio tinha o potencial de ser uma “máquina importante para educar o nosso povo”. “UEMS em Sintonia” é a prova que o apaixonante meio de comunicação ainda possui força para converter esse potencial em maravilhosas ações educativas.

Clayton Sales
Jornalista, radialista, professor e mestre em Ciência da Informação pela UnB

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-As funções da linguagem humana
-Provérbios franceses
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II Outras linguagens
-As linguagens não-verbais
-Pichação
-Edward Hopper, o pintor da solidão
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VIII Linguagem e tecnologia
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