ISBN: 978-65-86101-21-8
eISBN: 978-65-86101-34-8

Autor/Organizadores: Silvia Virginia Coutinho Areosa; Cristiane Davina Redin Freitas

Prefácio

Nunca fez tanto sentido, como no presente século, falarmos de envelhecimento. Pela primeira vez na história da Humanidade, num número significativo de países, o aumento da esperança de vida à nascença e o decréscimo mais sustentado da taxa de natalidade permitiram destacar o crescente contributo da população idosa na estrutura demográfica de cada país. Mas o processo de envelhecimento é muito diversificado e heterogêneo, quer entre países quer no seio de cada país.

A elevação do nível de instrução da população e o aumento do acesso à informação, que permite viver mais anos e de forma crescentemente mais saudável, também tem conduzido a um crescente número de idosos ativos e com significativo contributo social. Neste momento, está ao alcance de muitas pessoas a concretização de medidas preventivas e a promoção do seu próprio bem-estar, o que nos possibilita, se quisermos ser próactivos, planificar um envelhecimento activo. Sendo assim, o empoderamento nunca teve tanto poder na nossa qualidade de vida, como no momento actual, permitindo que sejamos independentes e autónomos um número cada vez maior de anos da nossa vida.

Na realidade, à escala do planeta, um elevado número de indivíduos (na ordem dos milhares de milhões) passou a ter acesso a um conjunto significativo de medidas preventivas, que estão comprovadas que podem prolongar a vida, assim como a inúmeros dados sanitários acessíveis através da Internet (além de outras formas mais tradicionais usadas).

Não obstante, importa não olvidar que parte da população mundial continua a não ter acesso à Internet, à divulgação dos benefícios dos comportamentos preventivos e à possibilidade de interiorização dos mesmos. Sabendo que os comportamentos preventivos são sempre, em qualquer domínio científico e parcela da população, difíceis de serem implementados; no seio do grupo populacional mais envelhecido estes podem revelar-se mais difíceis de serem implementados.

Tendo por base estes pressupostos, “Envelhecer no Campo”, título feliz encontrado pelas autoras Silvia Virginia Coutinho Areosa e Cristiane Davina Redin Freitas, faz ainda mais sentido na nova era que estamos a viver desde início de 2020 e na qual as áreas rurais podem ser, afinal, nalguns países, locais de menor risco para a nossa integridade física e mental. Estou a referir-me à realidade Europeia e de outros continentes (incluindo o Brasil), em que a chegada recente da doença COVID-19, relacionada com o novo coronavírus, veio pôr em causa o modelo de globalização que tem sido votado a uma aceleração feroz nos últimos anos.

Atendendo a que estão, à data da redação do presente Prefácio, a serem atingidas, nesta fase de pandemia, sobretudo as grandes cidades Europeias, os residentes em espaços rurais, parecem estar, aparentemente, mais resguardados. Muitos deles perante este novo cenário poderão realizar uma análise mais detalhada dos reais benefícios de se viver em espaço rural.

Importa recordar que a presente obra está dividida em oito capítulos, apresentando uma escrita fluída e um bom fio condutor. É de leitura fácil e com interesse assinalável em termos científicos e sociais. Resulta de um estudo intitulado “Estudo Socioeconômico e Demográfico da População Idosa no Meio Rural do Município de Santa Cruz do Sul”, que foi recentemente finalizado no seio do grupo de estudos e pesquisa “Envelhecimento e Cidadania – GEPEC” da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC/RS. Trata-se de uma obra bem estruturada, que foi concretizada por um grupo de pesquisa (coordenado pela Professora Doutora Silvia Virginia Coutinho Areosa) de uma Universidade que tem estado na linha da frente, e com grande valor social, na investigação realizada sobre o envelhecimento. Este estudo permite compreender melhor a realidade da população idosa rural do município de Santa Cruz do Sul e as diferenças entre o viver a velhice no campo e nacidade. Tal como é mencionado pelas autoras da obra, os resultados encontrados poderão ajudar os decisores públicos e políticos nas suas estratégias de planejamento das políticas ligadas ao envelhecimento que prevejam a vivência de alguma qualidade de vida no meio rural.

Constitui um estudo aprofundado sobre vários aspetos do envelhecimento que ainda carecem de análise, quer no Brasil, quer noutros países, tais como, quem são os idosos, como vivem e quais são as experiências que têm no espaço rural.

O estudo realizado ganha ainda mais pertinência devido ao facto de os dados dos últimos Recenseamentos da População, realizados em 2000 e em 2010, terem confirmado que no Vale do Rio Pardo (região onde se insere o município que foi analisado) a percentagem de população que vive no meio rural com 60 e mais anos de idade (5,84%) é superior à do estado do Rio Grande do Sul (2,53%) e do Brasil (1,73%). Em 2016, de acordo com o IBGE, aquela região possuía a mais elevada percentagem de pessoas idosas do Brasil (15,9%), acima da média do Brasil (14,3%). Em 2019 o Brasil parece ter alcançado um recorde em termos de percentagem desta parcela da população (16%) prevendo-se que nos próximos anos continue a crescer o seu peso.

É interessante recordar que o município analisado foi colonizado por imigrantes alemães no século XIX, e que a casa adquire um significado diferente no espaço rural, pois além de incluir o espaço físico encerra aspectos culturais, psicológicos e sociais, visto incluir o trabalho no campo, a vizinhança e a comunidade. Esta é uma realidade positiva que não acontece nos espaços urbanos, sobretudo nas grandes cidades.

A amostra de idosos que foi usada no estudo foi significativa, na ordem das 236 pessoas, com idades maioritariamente entre os 60 e os 70 anos. Apraz-nos salientar a percepção positiva dos idosos relativamente à sua moradia, visto 79,7% dos idosos inquiridos terem revelado que a consideravam como boa (51,3%), muito boa (21,2%) ou excelente (7,2%). Apenas 1,7% a avaliou como ruim. A preferência pelo lugar onde habitam deriva da percepção que detêm sobre a vida na cidade, que é seguramente mais agitada do que a que vivenciam no campo. A melhoria da qualidade de vida a que têm assistido, com possibilidade de acesso a vários tipos de serviços e infraestruturas (e.g., energia eléctrica e água canalizada) também tem contribuído para uma percepção positiva do lugar onde vivem. O aumento da mobilidade também tem sido importante para a sua maior qualidade de vida (48,3% usam o carro próprio para se deslocarem e 29,6% o ônibus). Os 9,9% que pedem carona para outros que possuem carro próprio traduzem algum espírito comuitário, que prevalece, de ajuda ao próximo. Não obstante, a deslocação a pé usada por 8,2% dos inquiridos denuncia a cobertura que não é eficiente da rede de transportes.

A menor agitação do que a que ocorre nas cidades, a qualidade do ar, a possibilidade de uma maior gestão do tempo, de relações mais duradouras e de integração social, são os principais elementos revelados pelas narrativas de 20 entrevistados.

Foi muito positiva a autopercepção do estado de saúde, tendo apenas 6,4% dos inquiridos manifestado que consideravam o seu estado como “ruim”. Foram encontradas diferenças entre as mulheres e os homens, continuando as mulheres, mesmo após a aposentadoria a estarem mais responsabilizadas pelo trabalho doméstico, enquanto o homem mantém as tarefas mais ligadas ao contexto exterior. Esta conclusão confirma a manutenção de relações de poder patriarcal.

Os resultados do estudo realizado também permitiram concluir que os idosos desempenham um papel relevante nos espaços rurais, podendo ser encarados como atores de educação e de aconselhamento sobre a vida.

No Brasil, país que possui um vasto território, continua a ser fácil encontrarmos diferentes processos de envelhecimento com assinaláveis desigualdades entre regiões. São vários os epidemiologistas que têm prognosticado que este tipo de situação poderá continuar a ocorrer com mais frequência num futuro próximo, pelo que os espaços rurais poderão vir a ser encarados de forma mais positiva do que o foram até ao momento. No entanto, há que criar condições sanitárias e de acesso às pessoas que desejam viver nesses espaços, assim como a outro tipo de serviços e equipamentos, que permitam uma realidade equivalente à de muitos espaços urbanos.

Todos nós estamos, desde que nascemos, imbuídos num processo de envelhecimento, que deve ser estrategicamente planificado e que deve ser sempre encarado como uma oportunidade de renascimento, de aperfeiçoamento e de aproveitamento de novas oportunidades (e.g., comungar mais serenamente com a natureza ou com as pessoas mais importantes da nossa vida). Num mundo que vai ser “um novo mundo” após a pandemia da doença COVID-19, talvez passemos a dedicar mais tempo à preparação do nosso futuro como idosos e aprendamos a destrinçar o que realmente é importante para sermos felizes!

Braga, Portugal, 23 de março de 2020.
Paula Remoaldo
Professora Catedrática na Universidade do Minho