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Por uma pedagogia Freinet: bases epistêmicas e metodológicas

Adriana Pastorello Buim Arena, Valéria Aparecida Dias Lacerda de Resende

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Descrição

APRESENTAÇÃO

Será que a escola pela qual Freinet dedicou integralmente sua vida tornou-se realidade no contexto atual? Se a resposta for afirmativa, outra pergunta se segue à primeira: Onde se pode encontrá-la? As respostas a estas duas provocações são aparentemente contraditórias: para a primeira, infelizmente, podemos dizer que não temos uma escola concreta, pois as condições históricas, materiais e simbólicas da França do século XXI ou de qualquer outra parte do mundo não se assemelham às raízes políticas e sociais que forjaram a proposta pedagógica de Freinet vivida no chão das escolas do seu tempo e de seus camaradas. Entretanto, os princípios, as técnicas, as ferramentas, a utopia de uma escola pública e popular alimentam experiências pedagógicas ao redor do mundo, partilhadas pelo Instituto Cooperativo da Escola Moderna – Pedagogia Freinet. Assim, a resposta à segunda provocação é afirmativa. São estas escolas, estas salas de aulas e os professores ‘freinetianos’, inclusive os daqui do Brasil, que nos animam a convocar os profissionais da educação e os interessados em uma sociedade mais humana a se instrumentalizarem teórico-metodologicamente para desenvolverem práticas educativas e sociais condizentes com o projeto de uma pedagogia comprometida com a escola do povo e com uma sociedade mais igualitária e democrática.

Freinet concebeu uma escola a serviço dos trabalhadores e a situou no campo da disputa de visão de mundo e de reivindicações sociais porque a entendia como uma das ferramentas de transformação da sociedade. Também esteve engajado em outros movimentos fora da escola em sua luta política e social por meio do sindicato, porque entendia que somente a educação não era suficiente para mudar a sociedade, mas poderia muito contribuir com seu desenvolvimento. A luta política pode mudar a situação de pobreza de milhares de famílias, distribuir renda, criar programas de bem estar social e cultural, se o resultado desta luta unificada entre trabalhadores levar ao poder pessoas honestas, preocupadas com a preservação da vida, do meio ambiente e da cultura. Não se luta por outra escola sem antes lutar por outra sociedade, porque a escola atual alimenta a organização e estrutura da sociedade atual. Enquanto a escola da repetição, do consumo do saber fragmentado e estéril, da domesticação, da imobilidade técnica continuar na base da sociedade, o capitalismo prosseguirá criando falsas necessidades e ilusões e os trabalhadores continuarão a servir ao capital, mendigando comida e cultura numa escravidão cega e surda. O compromisso de Freinet não era o de mudar a escola, mas a sociedade. Ele não dissociou educação e política, ele não dissociou escola e vida.

Que público escolhe ler Freinet na sua transversalidade de princípios políticos, sociais, filosóficos, psicológicos e humanistas e praticar sua proposta pedagógica? Primordialmente, são pessoas que não detém o capital e tem consciência de classe – a trabalhadora. É certo que não dominam os meios de produção! É certo também que são pessoas que refletiram que tipo de educação gostariam de que seus filhos tivessem, de que os filhos de trabalhadores tivessem. São pessoas que sabem que a escola para todos é uma escola da mentira. Para pobres um tipo de aula, um tipo de conteúdo, uma escola pobre para os vulneráveis; para ricos outro tipo de aula, outro tipo de conteúdo, outra escola. Desse modo, a classe dominante planeja e controla o que ensina a cada grupo social e impõe sua própria cultura, desvalorizando completamente a da classe trabalhadora.

Nas famílias e nos grupos sociais, as crianças constroem saberes e reconhecem sua língua e suas referências culturais. A escola tenta acabar com essa identidade de classe criada no seio familiar para impor uma diferente e com valor mercadológico – a da burguesia. Quando os pobres acreditam que a sua cultura, a sua referência social, o seu trabalho são inferiores à da burguesia, eles perdem a luta e oferecem seus braços ao interesse do capital, eles se tornam alienados e subjugados.

A escola desempenha esse pérfido papel! Corta as relações com as atividades da vida cotidiana para introduzir um conjunto de disciplinas, dosadas com progressões e etapas para que todos possam, de acordo com seu mérito, alcançar o mesmo nível de conhecimento. Essa escola perpetua a segregação e a exclusão. Estamos cansados dessa escola. Queremos uma outra diferente, cujo principal conteúdo seja a Vida, a reflexão do porquê, que promova uma verdadeira consciência dos problemas sociais e, consequentemente, dos políticos.

Nesse desejo, desde de 2019, as ações do grupo Lecturi estão inseridas no contexto de um projeto de pesquisa intitulado Pedagogia Freinet: os princípios da escola moderna para o ensino do século XXI. Estamos inclinados a estudar as propostas freinetianas: a organização cooperativa da turma, a liberdade de voz a todas as crianças, o estabelecimento de um plano de trabalho individual e coletivo da turma, reuniões de cooperativa para decisões reais sobre a vida no grupo. E para entender isso na prática é preciso descobrir como aquele pedagogo francês entendia o mundo. Entre as várias ações de estudo desenvolvidas, este livro Por uma pedagogia Freinet: bases epistêmicas e metodológicas e outros dois – Diálogos com a pedagogia Freinet: fundamentos e práticas em movimento e Refrações das palavras freinetianas: crônicas para professores – foram concebidos e materializados com a cooperação dos professores e dos pesquisadores envolvidos que se ocupam do movimento e das propostas construídas pelo extenso legado de Célestin Freinet, na contínua luta por uma escola popular.

Lutar por uma educação popular significa defender, pesquisar e desenvolver práticas pedagógicas ancoradas na realidade social que propiciem uma real emancipação das crianças. Este livro representa um ato de resistência e um instrumento para responder às injunções governamentais da extrema direita com suas políticas educacionais restritivas e reativas à diversidade, e também como um escudo contra as pressões institucionais e econômicas que cerceiam a liberdade de pensamento e de produção científica com cortes de verbas e ideias negacionistas com o intuito de apagar o élan vital necessário para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, cujos primeiros tijolos são postos no alicerce de educação das crianças no chão de uma escola pela vida, para a vida e pelo trabalho.

Nós, e mais cinco autores que nos ajudaram a delinear essa obra, repercutem, em seus textos, alguns conceitos freinetianos para estabelecer diálogos e mostrar a atualidade e pertinência da Pedagogia Freinet como um farol no caminho da construção da escola que queremos, a da liberdade!

Informação adicional

Ano de lançamento

2021

ISBN

978-65-5869-354-3

ISBN [e-book]

978-65-5869-353-6

Número de páginas

189

Organização

Adriana Pastorello Buim Arena, Valéria Aparecida Dias Lacerda de Resende

Formato